Entrevista: Jason Merkoski

Qual é a sua opinião a respeito da falta de padronização de formatos de livros digitais? Levando em conta que mesmo o ePub varia muito em recursos simples de app para app, de loja para loja…

Eu era a pessoa na Amazon que gerenciava o formato de e-book do Kindle. Eu passava muito tempo me preocupando com os recursos do Kindle, em comparação com os do ePub e de outros formatos rivais. Para mim, a falta de um padrão real não é preocupante – é simplesmente um sinal de que ainda estamos numa fase de rápida inovação. Prendendo-se a um formato, você restringe a inovação e a capacidade de dar novos recursos ao consumidor. A Amazon é esperta de controlar seu próprio formato, porque ela pode inovar muito mais rapidamente. Por exemplo, quando foi a última vez em que você viu a Apple inovar num recurso de e-book? Pode ter sido há três anos. Ficando amarrado a um formato, você limita o crescimento a longo prazo, mesmo que possa vender muito conteúdo a curto prazo.

Dito isso, eu já tive algumas discussões muito acaloradas ao longo dos anos sobre formatos de e-books. Meu conselho para as pessoas é que simplesmente relaxem, se acomodem com uma boa xícara de café e assistam ao que acontece à medida que tudo evolui – ou, se você for um empreendedor, contribua e desenvolva novos formatos de e-book!

 

Há muitas discussões a respeito das limitações de usabilidade acarretadas pelo uso de DRM. No entanto, pouco é discutido a respeito das limitações provocadas pelo uso de formatos proprietários. Qual sua opinião em relação a este assunto? Você acha importante a liberdade de usabilidade?

Às vezes eu brinco que DRM é a sigla de “Doesn’t Really Matter” (na verdade não importa). Ele sempre pode ser quebrado. Eu gerenciava a equipe da Amazon que escreveu o DRM dos e-books, e sei que ele está longe de ser perfeito. E, com o tempo, o DRM vai deixar de importar. Eu tenho uma visão de longo prazo, ou seja, me preocupo realmente com o que vai acontecer daqui a 100 ou 1000 anos. Todo o nosso conhecimento em formato de livros será aberto ou fechado? Eu detestaria imaginar um cenário em que todo o conhecimento do mundo estivesse preso num formato de e-book proprietário, e, um dia, perdêssemos as chaves para este conhecimento. Estamos dando um salto incrível para a frente na condição humana digitalizando livros e tornando o conhecimento disponível a preços cada vez mais baixos para públicos cada vez mais amplos. Mas eu de fato me preocupo com a possibilidade de que este conhecimento fique fechado e que não seja possível decifrar os arquivos. Por exemplo, veja o pouso na lua, que aconteceu há apenas 40 anos. A NASA mandou algumas sondas espaciais para orbitar o lado escuro da lua e tirar fotos em alta resolução, para ajudar os astronautas a se prepararem para a viagem. Eram fotos de altíssima qualidade. O tempo passou e, alguns anos atrás, cientistas decidiram que precisavam ver aquelas fotos novamente para ajudar a planejar outra série de satélites e pousos na lua. Mas o problema era que ninguém conseguia ler os arquivos naquelas fitas digitais. A questão não era que as fitas estavam corrompidas; elas tinham sido preservadas numa câmara fria. Mas a maneira como os dados eram registrados mudara tanto ao longo dos últimos 40 anos que ninguém conseguia decifrar aquelas fitas e recuperar as fotos. Depois de reunir quase 100 cientistas e encontrar velhos manuais de software na garagem de um ex-funcionário da Força Aérea (manuais estes que tinham sido roubados, aliás!), eles finalmente foram capazes de recuperar os dados. A moral desta história é que recuperar dados pode ser difícil, mesmo se você não estiver tentando protegê-los intencionalmente com DRM!

 
O que você acha de novos modelos de negócio, como o Humble Bundle (pague o quanto quiser por uma certa quantidade de e-books sem DRM) e serviços de streaming de e-books? Você vê um cenário em que algum modelo se sobressaia visivelmente ou um de equilíbrio?

Acredito que esta seja uma época incrível de exploração, à medida que nós descobrimos novos modelos de negócio, e eu adoro isso – adoro! No final, o consumidor vai ganhar, à medida que mais opções se tornam disponíveis. E algum destes modelos vão permanecer. Mas nem todos. Um modelo bem-sucedido precisa passar pelo “teste do espaguete”. Como você sabe se um prato de espaguete está pronto? Você pega alguns fios e joga-os na parede; se eles grudarem, o espaguete está pronto. A mesma coisa está acontecendo agora com a inovação nos e-books. Mesmo no contexto dos serviços de assinatura de e-books nos Estados Unidos – por exemplo, Amazon, Oyster, Scribd e Librify (para o qual eu já prestei consultoria) – existem muitas variações sobre o mesmo princípio. O Librify, por exemplo, é mais voltado para clubes de leitura. O Scribd teve que pagar milhões de dólares antecipadamente para uma das 5 principais editoras para ter acesso ao seu conteúdo. O Oyster oferece livros do modelo tradicional, de vendas por atacado, e do mais recente modelo de agência, o que complica seus negócios – embora tenham recebido US$15 milhões em investimento, tinham apenas cerca de 5000 usuários da última vez que chequei. E, é claro, tem a Amazon, que, como é típico dela, entrou bem tarde no jogo. Eu escrevi para eles alguns dos planos de negócios originais de um serviço de assinatura de e-books em 2010, e ele só foi lançado este mês. E o interessante – e talvez triste – com a Amazon é que a seleção de livros do programa de assinatura deles é terrível. É tão ruim quanto o programa de música grátis do Prime. Você acha que terá muitas opções porque eles anunciam 1 milhão de músicas – mas então você começa a procurar uma e percebe que não é o que você queria. Por exemplo, eu queria ouvir uma música dos anos 80 da Madonna hoje, mas tudo o que consegui achar foram regravações baratas daquela música por bandas independentes. O tom estava errado, o ritmo estava estranho e, se eu a tocasse numa festa na minha casa, seria melhor esperar que todos estivessem bêbados e não percebessem. O mesmo é válido para a seleção de e-books do Kindle Unlimited.

Eu acredito que, por exemplo, neste espaço das assinaturas de e-books, o mercado vai se nivelar, e um serviço básico vai emergir. É inevitável, porque, afinal de contas, existem novas formas de mídia além dos e-books, e os revolucionários e inovadores vão se afastar dos e-books e se aproximar da próxima tecnologia sexy assim que ela amadurecer.
 

Pode nos dizer a sua opinião acerca da recente queda de braço envolvendo Amazon e Hachette?

Na minha opinião, a Amazon é uma ótima negociadora e sempre consegue o que quer. Ponto. Se você conseguisse combinar um pitbull com um contador, o resultado seria o tipo de pessoa que gosta de trabalhar na Amazon e de negociar com editoras.

Infelizmente, disputas como esta vão se tornar cada vez mais comuns. A questão na verdade não somos nós, como consumidores. Estamos testemunhando a morte do mundo editorial (como o conhecemos).

 

O colofão é um site que se foca no papel dos editores no mercado de livros digitais. Nós nos propomos a trabalhar este assunto a partir do ponto de vista das editoras. Na sua perspectiva de profissional que trabalhou numa das mais importantes empresas do mercado de livros digitais, qual é a sua opinião a respeito do papel do editor de e-books?

Esta é uma ótima pergunta.

Para alguns tipos de conteúdo, os editores são fundamentais, necessários. Editores podem realmente ajudar a elaborar um livro, e são recursos super valiosos para autores. Além do mais, sem a edição, que serviços uma editora oferece hoje em dia? Muitas editoras não oferecem nem mesmo o apoio de marketing e terceirizam a distribuição. Então, a edição é o “tempero secreto” das editoras.

Dito isso, na minha opinião, estamos vendo cada vez mais tecnologias automatizadas fazendo o trabalho que editores costumavam fazer. Editores não são mais formadores de gosto, iniciadores de tendências: hoje, isto é feito por motores de recomendação, do tipo que você vê na Amazon e nos e-mails que você recebe sobre quais livros deveria ler a seguir. Estamos até vendo livros começando a ser escritos algoritmicamente – a Icon Books está criando uma série de livros eróticos criados 100% por um software de computador (http://www.nytimes.com/2008/04/14/business/media/14link.html?pagewanted=all&_r=0). Isto significa que a edição também é automatizada. Acho que, à medida que a capacidade de atenção das pessoas for se diluindo e elas tiverem menos tempo para se concentrar, elas deixarão de se focar em conteúdos longos e se contentarão em ler artigos mais curtos, capítulos ou trechos. Quando você perde o arco geral da história num livro, é ainda mais difícil manter o papel do editor como o conhecemos. Então, as mudanças na capacidade de concentração, combinadas ao foco nos algoritmos, estão dificultando as coisas para os editores. Meu conselho, aliás, para qualquer um que queira entrar no mercado editorial? Não faça isso. Vá trabalhar com software.

 
Você acha que há futuro para os enhanced e-books ou que o mercado de livros digitais continuará concentrado em livros de texto simples?

Deixe-me colocar esta resposta na forma de uma história. Eu trabalhei com tecnologia em Hollywood em 2012, para uma empresa de desenvolvimento de e-books/apps. Tive a oportunidade de trabalhar com alguns grandes (e estranhos) astros, como Alicia Keys e PeeWee Herman. Porque estávamos construindo e-books animados como apps, precisávamos de muitos designers e de um grande orçamento – nosso primeiro app custou cerca de US$2 milhões. Ele foi bem, e ficou no top 5 da Apple App Store por um mês. Mas, no processo de fazê-lo, eu percebi que há um espectro para as artes criativas quando se trata de contar histórias.

No topo da escala, você tem os filmes. Eles têm orçamentos de US$100 milhões ou mais, em muitos casos, porque existem tantas pessoas, do diretor ao eletricista, que precisam contribuir. Um pouco mais abaixo no espectro estão os videogames, mas até um jogo independente pode custar milhões de dólares para produzir. Um videogame não é tão imersivo quanto um filme, e precisa de mais imaginação da parte do consumidor. Mais para baixo você tem os apps. Um app pode custar desde US$10 mil até US$100 mil ou mais, e, embora seja mais fácil de produzir, é ainda mais limitado em termos do que pode fazer, e impõe uma carga imaginativa maior sobre o consumidor. Finalmente, na ponta mais baixa do espectro, você tem os livros. Eles podem custar de algumas centenas a talvez US$50 mil para produzir, especialmente para livros didáticos, e bem menos para a ficção comercial, e exigem muito investimento em termos de imaginação e tempo do leitor.

Então, basicamente, o que você tem é um espectro de custo e criatividade. Numa ponta da escala, para filmes de grande orçamento, você precisa de pouquíssima criatividade dos espectadores; eles relaxam e assistem. Na ponta oposta, para um livro, você exige muita criatividade, porque são só palavras.

Na minha visão do futuro, este espectro vai continuar, e mais nichos vão se desenvolver – enhanced e-books, app/filmes etc. Se um trabalho for popular na ponta inferior da escala, ele pode subir e se tornar um filme, por exemplo. (Inversamente, filmes ou videogames raramente se tornam livros depois.)

Porque sempre haverá um impulso criativo nas pessoas, e muitos dos artistas mais criativos do mundo não são (vamos encarar os fatos) abençoados com investimentos milionários, nós sempre veremos livros – ou o que um dia vier a substituí-los. Nós sempre teremos uma maneira solitária para que um artista ou autor expresse suas palavras de maneira tão simples e barata quanto possível.

 

A Amazon vem se mostrando capaz de dominar grande parte dos mercados de e-book nos quais ela investe. Na sua opinião, quais as vantagens ou capacidades que permitem a ela se destacar mesmo em países onde já existem outras grandes livrarias operando? Você vê alguma concorrente bem posicionada para competir com ela no mercado global?

No campo dos e-books, e dos livros impressos enquanto eles sobreviverem, a Amazon vai continuar no topo. Não há competição. É como uma luta de boxe entre um lutador musculoso e um sapo triste. O sapo vai perder.

Infelizmente, eu gostaria que fosse de outra forma. Gostaria que houvesse mais players independentes neste mercado.

Porém, acredito que isto seja verdadeiro apenas para e-books e produtos derivados de livros. Não acho que a Amazon vá se destacar vendendo músicas, apps, vídeos, TV, games ou outros formatos de mídia digital atualmente no mercado.

 

Existe um grande impasse no que diz respeito aos livros didáticos digitais. Na sua opinião, qual seria a melhor maneira de disponibilzá-los, uma vez que o suporte a recursos multimídia é limitado nas principais plataformas?

Ao longo dos últimos três anos, a quantidade de tempo que os estudantes passam nas bibliotecas caiu 70%. Este não é um bom sinal. Por favor, não me entendam mal; eu amo bibliotecas. Elas são ótimos lugares. Adoro me perder pelos corredores, encontrando novos livros inesperados. Mas, agora que o conteúdo está se tornando digital, as bibliotecas estão sendo substituídas por cafeterias como espaços sociais. Além disso, os orçamentos da maioria das bibliotecas estão encolhendo. Então, este pode ser um desafio no mundo educacional. Eu dirijo uma startup de e-books chamada BookGenie451 (www.bookgenie451.com) que tenta ajudar estudantes de outras maneiras. Afinal, só porque um livro tem um conteúdo interativo chamativo não quer dizer que seja “educacional”. Na verdade, existe uma quantidade incrível de conteúdo por aí de que os estudantes precisam – e que já está digitalizado – mas é só difícil de encontrar. O que eu fiz na BookGenie451 foi inventar um software inteligente que aprende coisas sobre você a partir das suas redes sociais, como seus interesses, quão bem você lê e escreve, qual é seu passado educacional, quais as suas habilidades etc. Então, quando você procurar por conteúdo, o software usa o que sabe sobre você para fazer algumas recomendações bastante precisas – não só para livros, mas capítulos individuais. Percebi que os estudantes muitas vezes são “pobres de tempo”, ou seja, não têm muito tempo e provavelmente prefeririam estar praticando esportes com amigos ou conversando no bar ao invés de escrever um artigo! Então, mesmo que o suporte a conteúdos multimídia seja limitado em muitas plataformas, nós ainda podemos ajudar os estudantes fazendo com que a descoberta básica de conteúdo aconteça muito mais rápido e de maneira muito mais inteligente.