O Jabuti e a Lebre – Sobre o digital no Prêmio Jabuti

Baixe como e-book

Na mais recente edição do Prêmio Jabuti, – a de número 57 –, a CBL “acrescentou”, em caráter experimental, livros digitais ao concurso. Com muitos “poréns” (e sem premiação), entusiastas, editores e autores ficaram, com alguma razão, desapontados.

Choveram críticas – como se pode ver nesta discussão no AED – à instituição e à maneira como se deu essa entrada inglória dos digitais. Todavia, uma coisa precisa ser dita: a iniciativa é válida e, mais do que isso, é valiosa.

Problemas vários, das categorias às impossibilidades técnicas e legais (para as quais a maioria das pessoas com quem falei não atentou), inviabilizaram os e-books de concorrerem ao Jabuti.
Deixarei meus dois tostões sobre isso abaixo, mas já adianto minha conclusão aproveitando a semana de spoilers por causa de GoT: bem, minha conclusão é que houve boa vontade e, quem sabe, até empolgação, em querer incluir os digitais, mas obviamente não se pensou o suficiente em como fazer isso de maneira realmente inclusiva.

p01vt7d7

Categorias

Comecemos falando das categorias. Quais são elas? Eu mesmo respondo: a lista completa pode ser vista neste link. Se observarmos, as únicas categorias que não dizem respeito diretamente ao conteúdo são Projeto gráfico e Capa. As capas dos e-books, no geral, são adaptações (recortes ou reorganização de elementos) de suas versões impressas, mas o projeto gráfico, não. Bem, ao menos não deveria ser. Reparem no segundo exemplo (Luto e Melancolia) deste artigo que escrevi para o blog da Cosac Naify.

Caso o livro inscrito possua uma versão digital e a editora opte por assinalar a mesma, esta deveria concorrer numa subcategoria de Projeto gráfico, algo como: Adaptação de projeto gráfico para o digital.

[Outros exemplos de adaptação de projeto gráfico neste e neste link.]

Aonde estou querendo chegar com isso? Bem, com esse tipo de categorização não excluímos o que todas as outras categorias do prêmio têm em comum: o diálogo com o conteúdo e com o todo. E por que isso é importante? Porque já passou o tempo em que víamos o digital como um inimigo, como algo à parte, certo?

Se é para incluir, façamos uma inclusão de verdade, afinal, se todos os livros avaliados exigem atenção e preparo dos jurados, por que o julgamento do digital deve se limitar em clicar em músicas, vídeos e animações, que é como a coisa posta, no final das contas? A maioria dos livros digitais publicados não possui nada disso, enquanto muitos dos livros concorrentes ao prêmio possuem versão digital.

DRM e distribuição para júri

Também se falou da problemática relação entre distribuição para avaliação e DRM, devendo a editora fornecer  “um arquivo livre de regras de DRM”. Como usuário e entusiasta de software livre acho que minha posição pessoal em relação aos DRMs é bastante clara. No entanto, como profissional, preciso respeitar contratos e posso afirmar que 99% dos contratos estrangeiros com que já me deparei são bem claros com relação a isso: o arquivo não pode ser distribuído sem proteção. Nem para imprensa, nem para jurados, nem para o dono da editora e nem para o autor. Então, a menos que os detentores dos direitos liberem por escrito ou adendo o uso e, em contrapartida, a outra parte assine um termo, a solução é perguntar aos jurados em que plataforma eles preferem acessar os e-books. Depois, entrar em contato com as editoras e solicitar promocodes (ou algo equivalente) da plataforma em questão (no Google Play Livros, por exemplo, acrescenta-se o usuário como revisor de conteúdo) para, através desses canais, liberar o acesso.

Outro problema em relação ao DRM é que em praticamente todas as lojas o e-book passa a ser interpretado de diferentes maneiras após a aplicação dele. Isso se dá porque cada aplicativo renderiza e adapta à sua própria maneira o código fonte do e-book (que deve ser pensado como uma equação que vá funcionar mais ou menos igual para todos). Logo, o e-book sem DRM não representa o e-book entregue ao leitor.

[Para saber mais sobre DRM, leia este artigo]

3.19 INFANTIL DIGITAL

Caso não tenham lido o regulamento, fiz uma cópia do PDF neste link. Pulem diretamente para 3.19 INFANTIL DIGITAL e sigam lendo até a 3.19.1.5. Minha leitura do trecho foi: “gentileza não enviar nada desse tipo para a gente”.

O problema já começa no 1º parágrafo, onde esbarramos em Ficha catalográfica. Para começar, o modelo de ficha digital (2012) proposto pela CBL já chegou um pouco atrasado (3 anos atrasado, para ser mais exato).

Fato 1: em 2012 a maioria das médias e grandes editoras já havia começado a converter seu catálogo e, na ausência de regulamentação, informação e possibilidade, elas já haviam também estabelecido seu fluxo de trabalho sem levar isso em conta.

Fato 2: o primeiro modelo de ficha catalográfica proposto pela CBL não fazia o menor sentido, técnica e semanticamente falando.

Fato 3: Eu mesmo liguei para lá algumas vezes entre 2009 e 2012 e ninguém sabia responder às minhas perguntas. A “pessoa que entende disso” nunca estava lá ou retornou minhas ligações. Assim fica difícil cobrar, né?

Fora tudo isso (fatos que se limitam a um item, composto apenas por duas palavras localizadas no primeiro parágrafo), a regra que diz que apenas livros infantis que “Possuam conteúdo textual integrado a elementos multimídia, interativos e hipertextuais” podem participar exclui trabalhos maravilhosos, como o da Intrínseca com os e-books do Gaspari (veja aqui) e e-books infantis de layout-fixo sem animação que são bem bonitos.

E-books interativos deveriam entrar em uma categoria à parte? Com certeza, mas só infantis deveriam entrar nessa categoria? Acho que não, eim. Apenas um palpite.

Em vez de termos restritivos e confusos, e a reiteração de “tudo que vai dar errado e desclassificar o livro porque alguma coisa acontecerá no caminho e nos impedirá de abrir esse arquivo”, o regulamento deveria ser minimamente claro para o concorrente sobre como ele deve enviar o livro e que quesitos serão, de fato, avaliados, como é feito em qualquer concurso de qualquer tipo.

A conclusão está supracitada, mas complementando, nenhum desses tropeções invalida a tentativa da CBL. Trata-se de um órgão importante traçando um caminho inédito, talvez sem volta; não há discussão quanto a isso, a meu ver. Não fosse esse um passo ousado, não teria gerado a expectativa que gerou.

Como tentei mostrar, não é tão simples quanto parece querer acrescentar e-books num concurso como o Jabuti. Esbarra-se num monte de questões que demandam tempo, planejamento, testes e simulações. A CBL tem 1 ano para ponderar sobre esses tropeções e superá-los se decidir bancar o posicionamento e levar isso adiante.
De minha parte, torço para que o faça e espero ter colaborado de alguma forma.

PS. Seria interessante colocar uma categoria de Qualidade técnica com avaliação de código. Já pensei nos quesitos de avaliação e até numa maneira de viabilizar isso sem infringir contratos. Mas acho que isso pode esperar para o de 2017, se me deixar falando disso, o texto não acaba…

escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

4 comentários sobre “O Jabuti e a Lebre – Sobre o digital no Prêmio Jabuti

  1. Caro Hermida,
    Também venho acompanhando a CBL X digitais – já publiquei dois e-books multimídias, e gostaria de inscreve-los no Jabuti, para dar divulgação a esta nova mídia cultural, já presente no mercado – porém a possibilidade ainda parece longe.
    De fato, em março de 2012 foi publicado pela Editora Livrus o livro digital multimídia “O Jogo dos Papeletes Coloridos” de minha autoria, Paulo Santoro Almeida, com 12 músicas, vídeos, arte e animações integrados ao corpo do texto, todas obras do próprio autor.
    Um meu segundo livro digital multimídia, “O Centro do Universo”, este com 18 músicas, vídeos, artes e animações foi publicado em junho de 2014, com apoio da lei Rouanet e patrocínio do Banco Itaú.; em desdobramento, álbuns digitais de ambos livros, com a trilha sonora de cada livro estão na iTunes Store, Amazon e Google Play desde nov/2013 e julho/2014.
    A divulgação desse projeto certamente motivaria outros autores / artistas a convergirem seus trabalhos para essa nova mídia, que leva a uma nova experiência de leitura,porém os canais de divulgação são muito estreitos, e com pouca abertura para o novo.
    De toda forma continuarei seguindo a evolução do assunto, assim como suas reflexões a respeito – como vejo seu interesse no assunto, e no que anda ocorrendo nesse mercado, tomo a inciativa de indicar-lhe os links abaixo sobre os projetos mencionados:
    1- booktrailer do livro digital, e como ele “funciona”, em um tutorial dedicado;

    2- site do livro, com informações, vídeos e entrevistas:- http://www.ocentrodouniverso.com.br
    Grato, Paulo Santoro.

    • Prezado Paulo, obrigado pelo comentário. Pode deixar que vou conferir, sim, os projetos. Muito interessante sua experiência, caso queira compartilhar como foi elaborar e publicar os trabalhos, somos um canal aberto para esse tipo de artigo. Acho que ajudaria muita gente. Se achar uma boa ideia, mande-nos um e-mail :)
      Abraços!

  2. Olá, Antonio!
    Parabéns pelo artigo. Estava procurando informações sobre a participação de ebooks infantis (sem interatividade) no prêmio Jabuti e encontrei seu texto.
    Fico feliz em saber que já estão, de alguma forma, considerando o assunto “livros digitais”. Acho que isso sinaliza que talvez, num futuro próximo, essa realidade seja reconhecida. Penso que os livros digitais chegaram para ficar e mercado e premiações precisarão se render a essa tendência mais cedo ou mais tarde.
    Tenho um livro infantil escrito e sonhei em inscrevê-lo no Jabuti, mas já vi que não posso. Primeiro porque ele não é interativo. Segundo porque ele não seria publicado por uma editora. Estava na dúvida se deveria pagar um ilustrador e jogá-lo em uma plataforma de autopublicação digital ou se deveria correr atrás de uma editora. Enfim, entendi que, por enquanto, só a última opção me permitiria realizar o sonho do Jabuti.
    Vida dura essa dos autores autopublicados. :)
    []’s

    • Olá, Camila, muito obrigado pelo comentário. Uma solução interessante para infantis é o iBooks Author, mas daí ele fica disponível só na Apple :|
      Abraços!

Deixe um comentário