Convertei-vos e crede.. no digital

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É sempre difícil para nós (ao menos para mim) aceitar de bom grado as mudanças.
Parece que somos sempre levados a permanecer com os pés grudados no território já conquistado, com medo de nos lançarmos em busca de novas terras.
A sensação de insegurança que o novo mostra se contrapõe de modo brutal com a segurança que temos ao olharmos para trás e vermos o que já conhecemos. Foi assim, provavelmente, para o primeiro homem que ousou enfrentar o mar em busca de novas terras. É assim todos os dias de nossas vidas. Temos sempre receio de mudar e desconfiamos das coisas novas, sem nem mesmo conhecê-las.

Não é diferente para o mundo editorial, que olha os livros digitais como o pai coruja olha o primeiro namoradinho da sua filha. Temos medo e pouco conhecimento e, em consequência, tentamos modelar este novo à imagem do que já conhecemos.

A reflexão da Lúcia (veja aqui) já nos convidava a repensar um pouco o modo como estamos criando nossos livros digitais. Comprovo isto naqueles projetos que preveem a passagem de uma versão impressa para uma digital. Os critérios adotados pelos editores/autores/designers para esta “conversão” são sempre relacionados ao formato impresso, na tentativa de manter exatamente a mesma “cara”. O que, sabemos, não é possível. Surge assim a frase que todo designer de livros impressos diz: “Mas assim perdemos a riqueza do design”.

E é difícil convencer de que design é muito mais que espaçamento ou cor de fundo nas páginas. Existem muitos sites lindos (esteticamente falando) e que são feitos com a mesma tecnologia dos e-books no formato ePub; portanto, um e-book não deve ser necessariamente “feio”. Pode e deve ser “bonito”, seja qual for o significado de “bonito”.

O que precisamos é de uma “metanoia”1, palavra grega traduzida por conversão, mas que significa muito mais do que isso. É uma  mudança nos critérios, no ponto de vista.2

Na prática, como podemos iniciar este processo? Repensando a apresentação do conteúdo e levando em consideração o novo suporte onde será apresentado. Não adianta manter todos aqueles espaçamentos que a página impressa permitia (ou exigia), porque a tela de um e-reader, tablet ou smartphone é pequena! Não adianta querer que a imagem passe de uma página para outra, pois um e-reader não tem página dupla3; não adianta querer que a minha capa seja quadrada como no impresso. Afinal, as estantes das lojas e os e-readers apresentam um espaço vertical.

capas
Capas precisam ser repensadas para desfrutar melhor os espaços nas livrarias online. Páginas que antes ocupavam páginas duplas podem não funcionar bem na versão digital e seria importante repensar o design para elas.

 

Surge então a pergunta: por que perder este precioso espaço de marketing só para imitar o impresso?

Produzir um livro digital exige critério e não deve ser feito ao acaso, simplesmente eliminando as partes que não funcionam bem. Seria útil pensar a partir do leitor que irá pôr as mãos naquele aparelho e se confrontará com o conteúdo fornecido.

Algumas perguntas podem nos ajudar: é realmente relevante o modo como eu estou apresentando o conteúdo? Este design ajuda a perceber e viver melhor o texto? Agrega algo esta imagem, este enfeite, ou serve só para “encher linguiça”?

Lógico, para chegar a este ponto é necessário estudar, entender e sobretudo LER no formato digital.

Então, a primeira regra de ouro para quem produz conteúdo no formato digital é: LEIAM o que vocês estão produzindo em e-readers, tablets, smartphones4 e sintam se a apresentação do conteúdo era realmente o que vocês tinham intenção de comunicar.

Segunda regra: quando possível, criem primeiro a versão digital e depois a impressa.5

Finalizo com outro elemento prático que teremos oportunidade de aprofundar: pensem em um formato que possa agregar qualidades típicas do digital ao seu conteúdo, como o ePub3 fluido, que oferece a capacidade de adaptação para os vários tamanhos de tela, melhor navegação no conteúdo, integração com elementos multimídia e capacidade de poder apresentar o conteúdo seja online ou offline.


1. meta = mudança, ir além; nus = mente, mentalidade.
2. O “nus” para os gregos era o princípio que tudo governa e dá sentido à existência.
3. A menos que eu o vire na horizontal e tenha assim a simulação de uma dupla página. Isto, na realidade, causa mais problemas do que soluções.
4. Ler realmente e não simplesmente dar uma olhadinha ou fazer testes. A leitura prolongada de um texto vai ajudar a encontrar os pontos fortes da versão digital e as fraquezas do design.
5. A experiência da Maurem Kayna (confira aqui) é significativa neste sentido. Também fiz uma experiência parecida com um livro infantil e foi uma experiência muito interessante.

escrito por José Fernando Tavares

José Fernando Tavares

Trabalha com livros digitais desde o início de 2009. Com formação humanística, viveu 20 anos na Itália, onde atuou como gráfico e diagramador de livros. Ali conheceu e se apaixonou pelos livros digitais. Fundou como sócio a Simplíssimo Livros e, no início de 2014, a Booknando Livros, uma empresa voltada à produção e à formação de profissionais da área com cursos e palestras sobre o tema. Ama uma boa macarronada e um bom vinho!

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