Produtos, bens, serviços e e-books

Baixe como e-book

Primeiro veio o livro. Depois, criou-se o e-book. E, como muitos de vocês já devem ter percebido, ainda é comum que o e-book não seja visto como livro, necessitando de “algo mais” para que sua existência se justifique. Essa discussão, que não é nova e, ainda assim, está longe de estar encerrada, traz para nós algo a refletir sobre os conceitos de produtos, bens e serviços.

Entendemos que produto é algo tangível ou intangível, produzido para ser comercializado no mercado, atendendo a necessidades e demandas existentes. Com isso, podemos definir que tanto o livro físico quanto o digital são produtos, entregues ao seu público-alvo leitor e que possuem como missão a disseminação da cultura letrada.

Dentro do que podem se considerar produtos, temos as definições de bens físicos e de serviços. Acho que eu não fui a única que deduziu que o livro físico é um bem físico, né? Os bens são itens que podemos ver e tocar, como um livro. E os serviços são produtos de uma atividade que satisfaz alguma necessidade de maneira intangível, sem caracterizar um bem material.

Acho que inserir o livro impresso dentro dessas definições não é muito difícil. Temos um produto que caracteriza um bem material físico que é entregue ao consumidor, portanto, temos um bem físico. O e-book, por seu caráter digital, dificulta a definição como bem, apesar de que, na minha opinião, um arquivo digital vendido sem DRM – como é feito, por exemplo, pela O’Reilly – pode ser considerado um bem (não físico ou material, mas ainda assim, um bem), pois o usuário teria a liberdade de fazer o que desejasse com o arquivo, que seria seu, independente de um suporte.

Mas esse não é o comum da comercialização de e-books no mundo, então, vou me concentrar nos livros com DRM: o e-book não é um bem tangível, nem fisicamente e nem virtualmente. O e-book é um serviço, pois sua experiência com o usuário é restrita e pode variar de acordo com o suporte que lhe é dado.

Vamos pensar no nosso e-reader como se ele fosse nosso telefone celular (que, por sinal, pode, muitas vezes, ser usado como leitor digital) e no e-book (arquivo atrelado a uma loja) como nosso serviço de telefonia. Nós pagamos por um serviço no qual temos restrições e vantagens para cada escolha de plano, certo? Escolhemos se preferimos pagar mais caro por um serviço de internet 4G ao invés de um serviço 3G, se queremos ligações ilimitadas para a mesma operadora ou uma taxa diária para uso de SMS etc.

Com os e-books e os players não é muito diferente. Temos o objeto físico e-reader (ou tablet, celular, o que você preferir), onde lemos os livros, ou seja, onde utilizamos o serviço. E temos a experiência tecnológica na qual se associa de maneira intrínseca um produto a um serviço: a aquisição de livros digitais. Confuso, não? Também acho.

Vamos ver se consigo explicar um pouco melhor. Quando se adquire um livro digital, você possui restrições de uso, assim como no seu plano telefônico. Ao comprar um livro, este livro fica associado a um usuário dentro da loja (ou um usuário da Adobe, se você estiver utilizando o DRM deles) e, geralmente, você tem um limite de aparelhos nos quais você pode acessar simultaneamente o seu livro. No entanto, o serviço também oferece vantagens. Temos dicionários integrados, ferramenta de pesquisa, notas em pop-up, modo noturno, algoritmo de recomendação de próxima leitura, entrega imediata após confirmação de compra etc. Tudo isso é parte do serviço que é oferecido ao usuário que consume o produto livro digital.

A questão que estou tentando colocar é: o livro digital jamais será um bem físico, mesmo naquele meu delírio ali em cima a respeito de livros sem DRM, pois a tangibilidade de arquivos digitais é muito complexa, por seu caráter virtual, sem entrar nas discussões de definição de “bens físicos” como “algo que podemos tocar” (ou na própria definição de livro como suporte autônomo)…

O livro digital no modelo atual de negócios é, em essência, um serviço, e é isso que queremos dizer todas as vezes que mencionamos que a experiência de leitura pode variar de acordo com o app escolhido, com a  loja, com o sistema operacional no qual roda seu app etc. O livro digital dificilmente será um produto único, fechado e independente como é o livro físico, pois para isso seria necessária uma reestruturação na comercialização dos e-books. Isso não torna o e-book nem melhor nem pior que o livro físico, só o faz ser outro tipo de produto, e ambos existem pois há necessidade e demanda justificando a existência de cada um dos formatos. Se o e-book se manterá comercializado desta forma, não sabemos, mas acho que vale o debate.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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