As capas e suas gradações de cores nas telas e-ink

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Apesar de lidarmos frequentemente com livros digitais compostos apenas de textos, toda a produção de um e-book envolve a adaptação de pelo menos uma imagem: a capa. Muitas vezes se trata de uma adaptação bastante simples, porém é fundamental não esquecermos a importância desta imagem, pois de modo geral ela é o primeiro contato que o leitor (ou potencial leitor) terá com o livro. Este contato pode ocorrer tanto nos sites que promovem a venda dos livros digitais quanto nos aplicativos dos aparelhos de leitura. E qual a principal diferença entre estes dois suportes? As cores. Quando tal aparelho é um e-reader, ou seja, um aparelho dedicado composto por uma tela de e-ink, a imagem que poderia ser uma réplica digital da imagem impressa será visualizada em uma escala de tons de cinza.

Irei utilizar duas imagens do mesmo artista, o pintor russo Wassily Kandinsky, para tecer algumas considerações práticas sobre a adaptação das capas quando estamos analisando as gradações de cores. Por conta da exibição Kandinsky: tudo começa num ponto (que fica até dia 30 de março no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro) podemos imaginar que algumas versões digitais de livros sobre o pintor estão sendo publicadas. No primeiro livro a imagem da capa é uma pintura mais abstrata intitulada Circles in a Circle, de 1923.

Por ser composta de elementos gráficos bem demarcados e tons de cores bastante contrastantes entre si, no caso desta “capa” não é necessário fazer nenhuma adaptação. Para garantir que o resultado nas telas de e-ink será satisfatório, podemos utilizar uma ferramenta existente em qualquer editor de imagens. No Photoshop, por exemplo, basta abrir a opção Imagem no topo da barra de menu, clicar em Ajustes e selecionar o item Preto e branco. Essa ferramenta converte uma imagem colorida em tons de cinza automaticamente, fazendo um balanço controlado das cores individuais:

Tal ferramenta nos permite checar com um bom grau de fidelidade como será o resultado da capa nos aparelhos de leitura dedicados. Do mesmo modo, é necessário sempre fazer testes no maior número possível de aparelhos.

No nosso segundo exemplo a imagem escolhida para a capa foi uma pintura dos primeiros anos de Kandinsky intitulada Akhtyrka.

A proximidade entre os tons escuros e as pinceladas difusas evidenciam que a visualização desta imagem será pouco nítida na tela de e-ink:

Neste caso nós podemos ajustar alguns elementos das cores, sempre respeitando o projeto gráfico inicial do livro ou, no exemplo em questão, a obra. Os editores de imagem possuem ferramentas que modificam o brilho (ou seja, a intensidade luminosa da cor), a saturação (que define a pureza da luz dentro da faixa espectral de determinada cor), a intensidade, entre outros aspectos. Tais edições mantêm a identidade da imagem, mas permitem que a transposição para uma escala de cinza seja feita com mais nitidez.

Após as leves modificações feitas nas cores é possível perceber com mais nitidez as árvores, o rio e o edifício ao fundo na versão da escala de cinza, pois o contraste entre os tons se tornou maior.

Considerando que as capas são compostas também de palavras e frases, e que tais palavras também entram na composição das cores e precisam ser nítidas, fica clara a importância de observar as questões brevemente pontuadas neste texto. Podemos concluir, ao analisarmos o exemplo da segunda pintura, que o quadro Akhtyrka provavelmente precisaria ser recortado, já que possui uma orientação horizontal e as capas dos livros geralmente são verticais. Após feito o recorte, o título e o nome do autor poderiam ser inseridos por cima da imagem utilizando a técnica de hot stamping, que gera um efeito metálico por cima da impressão. Por produzir uma textura diferente da impressão da capa, o hot stamping cria um contraste com as cores do fundo e ajuda na composição do texto com a imagem. Porém tal textura se perde na versão digital, que não reproduz na tela o efeito metalizado. Nestes casos é fundamental trocar a cor das fontes para um tom que produza, tanto na versão em preto e branco quanto na colorida, um contraste semelhante ao gerado pelo hot stamping.

Vale ressaltar que é fundamental pensar a adaptação de quaisquer outras figuras, mapas e fotografias que componham o livro com um cuidado semelhante ao proposto aqui para a capa, proporcionando uma experiência de leitura agradável em qualquer que seja o aparelho escolhido pelo consumidor do livro digital.

escrito por Joana De Conti

Joana De Conti

Joana De Conti é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas se aposentou da vida acadêmica quando descobriu os livros digitais. Ela trabalhou por vários anos no departamento digital da editora Rocco. Ali, aprendeu quase tudo o que sabe sobre conversão de livros, participou de projetos editoriais lindos e produziu os e-books de muitos dos seus autores preferidos. Atualmente trabalha como assistente de contas na Bookwire. O cuidado com a qualidade dos metadados, com conhecer minuciosamente o catálogo das editoras e a preocupação com excelência e inovação nos arquivos dos livros digitais são parte da sua rotina. E ela continua trabalhando com os e-books de muitos dos seus autores favoritos.

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