Sobre ter um bom diagramador (e criar um bom manual também)

Baixe como e-book

Agora o foco sairá de questões exclusivamente editoriais. É necessário falar um pouquinho sobre como a diagramação pode ajudar nesse fluxo entre o editorial e o setor de e-books.

Já sabemos que e-books não são feitos com um botão mágico, mas algumas ações no inDesign podem ajudar a tornar o processo mais fluido. A maioria das editoras que eu conheço não tem diagramadores internos e terceiriza esse trabalho. Assim, um manual, da mesma forma como temos para traduções e revisões, pode ser um aliado importante para todos os setores envolvidos com a produção do e-book.

Crie estilos para tudo

A grande regra é essa mesma: criar estilo para tudo. TUDO. Você tem um parágrafo normal, certo? Crie um estilo para ele. Mas espera, o capítulo começa sem indentação? Crie um estilo para isso. Começa com uma capitular? Ela sozinha precisa de um estilo. Só haverá um único parágrafo com uma entrelinha um pouco menor? Não force no comando manual, crie um estilo. Isso é uma questão muito simples do código:

A aparência no CSS
(clique para ampliar)

A diferença entre o título e o corpo do texto é bem clara no Adobe Digital Editions, assim como é no CSS do ePub. Olhe as correspondências do lado direito. Cada um desses códigos entre colchetes é uma classe*. As classes são os correspondentes em linguagem de marcação aos estilos que você aplica no inDesign. Se você não cria uma classe, apenas altera manualmente o estilo a cada mudança ao longo da diagramação, o programa não exportará essas características da maneira correta. Só o que é registrado como estilo de parágrafo torna-se uma classe corretamente organizada; o mais vira sujeira no css, classes com informações desencontradas e redundantes. Poluição no seu código. Se qualquer alteração for necessária naquele estilo, ter várias classes de “sujeira” só dificulta o trabalho.

Esse é um dos fatores que faz a revisão de ePub ser parte fundamental do processo, porque às vezes algumas modificações podem não ter passado para o código. Ou seja, ao desenvolver um manual para o diagramador, também é possível apontar para o revisor quais são as questões mais delicadas. Além disso, o manual também poderá ser usado internamente, quando o responsável pela liberação do arquivo estiver ausente. Enfim, manuais são lindos. <3

Separamos alguns exemplos especialmente problemáticos para orientar a composição desse manual, mas lembramos que o seu editorial pode ter necessidades diferentes. Nesse caso, teste, adapte, procure a melhor forma. E, se sobrar um tempinho, conta pra gente como ficou.

Capitulares: é preciso criar um estilo de caractere para essa letra grande que abre capítulos. É bem provável que alguns ajustes sejam necessários na etapa de edição do ePub, mas já adianta bastante ter a classe corretamente criada e suas características marcadas – família tipográfica (se for o caso), tamanho da fonte, posicionamento em relação ao parágrafo inicial…

Itálicos e negritos: apesar de serem mais simples aplicar diretamente, é preferível que haja estilos para eles, aplicados em todas as ocorrências. Dessa forma, o arquivo de saída será mais limpo. O inDesign atualmente permite que você escolha como certos parâmetros serão exportados para o formato ePub. Se houver classes de caractere determinadas, pode-se designar que elas sejam reconhecidas, respectivamente, como “em” e “strong” – a marcação que o ePub reconhece como itálico e negrito. Mais organização e menos sujeira.

Versalete: quase a mesma questão dos anteriores. Mas aqui temos alguma culpa no cartório: não use caixa-alta na preparação! O Word tem um recurso para versalete. Peça também ao seu diagramador que crie um estilo para isso, não vale usar uma fonte do tipo small caps. Sem observar essas questões, o trecho pode acabar todo em caixa-alta ou baixa depois da conversão.

Margens: eu sei que é tentador apertar enter algumas vezes para simular uma margem em relação ao próximo parágrafo, mas no e-book isso pode não funcionar muito bem. Cada enter seu vira um parágrafo vazio no código, com todas as características do parágrafo anterior. Qualquer alteração de entrelinha, por exemplo, pode fazer uma bagunça imensa. O ideal é aplicar um estilo (sempre aplicar um estilo, sempre aplicar um estilo…) que indique que aquele parágrafo terá uma margem pré-determinada. Assim o próprio arquivo consegue manter a proporção correta, mesmo com personalizações do leitor.

Ufa, falei demais! E isso porque eu nem entrei no assunto das tabelas, que são um caso a parte e merecem um post só para elas.

 [post anterior da série]


* Na verdade, na verdade, o ideal seria falar em seletor. Classe é uma nomenclatura para algo mais específico dentro dos seletores… Mas acho que “classe” é um nome mais palatável para quem não lida diretamente com o código (nós, editores!).

escrito por Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

4 comentários sobre “Sobre ter um bom diagramador (e criar um bom manual também)

  1. Oi, Mariana. Você não falou demais, não! Apesar de ser diagramadora profissional há tempos, estou migrando agora para o universo e-book/ePub e tenho muito a perguntar, ler, aprender etc. Praticamente sou autodidata na área e gostaria muito de ter um manual prático em mãos (até pensei em editar um!). Sei que tabelas e infográficos, em geral, são um caso a parte para o sucesso do trabalho, por exemplo. Além disto, tenho dúvidas pontuais: hoje, é viável para as editoras ter um prestador de serviços que se responsabilizaria pela conversão de todo seu acervo físico para o meio digital? Ou não? E quanto aos livros didáticos? E quanto às interatividades para os livros infantis, os manuais de viagem, de fotografia, de arte etc.??? Enfim, são tantas as questões, que ficarei atenta aos posts no Colofão numa tentativa de sanar um pouquinho as muitas demandas e novidades. Escreva sempre que puder, obrigada!

    • Olá, Paula!
      Obrigada pelo retorno. Nossa, são muitas questões mesmo! Algumas, confesso, não sei responder, porque só trabalhei em casas voltadas para literatura geral.
      O problema de criar um manual é que cada loja tem seu parâmetro, e por vezes eles mudam de maneira arbitrária e sem muitas explicações… Vale muito mais testar e trocar ideias com outros profissionais.
      Várias editoras usam prestadores de serviço na hora de criar seus e-books. Alguns bureaux oferecem serviços de diagramação e conversão com preços diferenciados, e também há empresas especializadas em produção de ePubs.
      Para livros didáticos, manuais e coisas do gênero, acredito que o layout fixo seja a melhor opção.
      Bom, o que escrevo por aqui é mais voltado para o lado do editor, mas toda a equipe do site trabalha diretamente com e-books, além de vira e mexe aparecer um colaborador externo. Indico especialmente os posts da Joana, que costumam ser mais introdutórios e ligados à produção.
      Espero que você consiga aprender bastante!

  2. Oi Mariana, diretamente e indiretamente já trabalhamos juntos, seguimos fielmente sua cartilha sobre estilos, evidentemente quando o fluxo permite. Uma diagramação bem feita é sempre melhor, não só pra os e-books, como numa reedição ou controle dentro do próprio Indesign, ganha-se tempo e elogios, parabéns pela explicação simples.

    • Oi, Kid! Que bom saber que as dicas estão ajudando por aí. :) Se depois você quiser falar um pouco mais sobre a questão de fluxos, podemos tentar pensar formas de deixá-los mais fluido para todo mundo.

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