“O que fazer, então?”, indagou o editor

Baixe como e-book

Ok, acho que já deixei bem claro que o editorial precisa se envolver com o setor de e-books. Agora vamos começar a pensar em como você pode mudar a sua rotina para inserir os livros eletrônicos nela.

ATENÇÃO! Este post está sob a perspectiva de uma pessoa que trabalha sobretudo com livros de literatura de massa: capa 4/0, miolo preto e branco, essas coisas. Se você tem necessidades de adaptação diferentes (trabalha com didáticos, acadêmicos, livros para nichos muito específicos), colabore com essa discussão! Mesmo que você não consiga escrever um post inteiro, só de nos falar da sua rotina e o que te desafia ou intriga com e-books já é um bom passo para chegarmos juntos a conclusões que facilitarão a vida de todo mundo. (:

Quando o editorial manda um livro para a produção gráfica, geralmente algumas coisas já foram conversadas e acertadas entre os dois lados. A capa terá alguma cor especial? Que acabamento usaremos? O livro está fechando caderno? Será necessário buscar uma gráfica que faça cadernos de tamanhos menores? O miolo tem cores? Alguma imagem sangra? Se você está há algum tempo no mercado, tenho certeza que o procedimento para cada questão já veio à mente no automático. Na verdade, várias editoras já têm alguns padrões predefinidos que agilizam boa parte das respostas. “Só fechamos cadernos de 16 páginas”, “imagens sangrando exigem 3 mm além da marca de corte”, “projetos coloridos deverão ter provas de cor ao longo do processo”.

O e-book também tem algumas questões que precisam estar delineadas antes que a produção do livro continue no setor responsável por essa parte. Aos poucos, seremos capazes de pensar em procedimentos de maneira tão automática quanto para o impresso. No entanto, agora é a hora de experimentar. O que é mais desafiador na sua editora? Dentro de um projeto específico, o que deve obrigatoriamente ser fiel em ambos os suportes? Do que se pode abrir mão na hora da adaptação? Existe algum elemento no livro que possa gerar problemas em alguma plataforma?

Deixo aqui uma sugestão de lista de elementos que, desde a preparação do texto e escolha do projeto gráfico, devem estar na mente do editor que verá seus livros publicados nos dois formatos. São eles:

– Há elementos em cores no livro? Eles são determinantes a ponto de atrapalhar a leitura em dispositivos de eInk (só preto e branco)? Caso sejam, é possível demarcar esses trechos de outra forma ou é melhor inserir um aviso indicando que a obra é melhor visualizada em telas coloridas?

– A tipografia é importante? Há variações na fonte, na entre letra ou na entrelinha que são propositais e devem ser reproduzidas? Nesse caso, vale avisar ao setor de e-books e ao responsável pela revisão do arquivo, já que não é tão simples reproduzir essas nuances e alguns dispositivos sequer interpretam as informações relativas às escolhas tipográficas originais.

– Há ilustrações no livro? Gráficos? Tabelas? É possível ler as informações nessas imagens em smartphones? Recomendo uma olhada rápida em alguns posts: o da Joana sobre imagens em e-books e um do blog da Cosac, sobre a outra opção de transformar as tabelas muito longas em texto corrido, como listas. Perde-se a formatação, mas é mais fácil visualizar o conteúdo. Também vale ressaltar que as ilustrações que sangram no impresso devem ser cortadas para ficar com as medidas exatas da visualização correta.

– Como as quebras narrativas foram demarcadas? Asteriscos? Pequenas ilustrações? Um espaço maior entre os parágrafos e a primeira linha sem indentação? Em alguns casos, isso pode ser um ponto confuso no e-book. Por exemplo, há editoras que colocam um símbolo gráfico quando uma quebra narrativa calha com o final ou o começo de uma página, mesmo que no resto do livro só haja espaço. No e-book essa medida perde o sentido, já que a fluidez do formato não permite saber em que ponto da tela ficará a quebra. E então? Vale adicionar um símbolo em todas as quebras ou, ao contrário, removê-las?

– O livro inclui referências internas? E com isso vou além de notas de rodapé ou no final do volume: há alguma referência a um capítulo anterior, ou uma imagem que já foi citada? Pode ser interessante criar hiperlinks para que o leitor possa “navegar” pelo livro com mais facilidade. Mas esteja atento à necessidade de retomar a leitura do ponto onde foi interrompida com facilidade. Às vezes esse recurso pode deixar a leitura mais confusa que explicativa. Acredito que a não linearidade é uma propriedade muito interessante e mal explorada nos livros eletrônicos.

Novamente, essas são só algumas sugestões e não cobrem as necessidades de todos os tipos de publicações. Claro que você não precisa inserir essas mudanças no livro diagramado, mas só de redigir um pequeno relatório apontando onde a produção do e-book poderá encontrar problemas e possíveis soluções já contribui para um trabalho mais eficiente e agradável para o leitor. A partir do momento que as rotinas estiverem mais bem definidas, será mais fácil inclusive criar projetos nativos do digital.

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escrito por Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

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