Lidando com imagens na produção dos livros digitais

Baixe como e-book

A primeira ideia que vem à nossa mente quando falamos em livros com imagens é a de livros ilustrados. Não importa se eles são infantis ou de arte, logo imaginamos livros bonitos, com desenhos ou fotografias, muitos adornos e cores por todos os lados. O que acontece, porém, quando você começa a produzir e-books (ou seja, quando sua rotina é composta basicamente pela conversão de livros já prontos para publicação impressa em livros digitais) é que você começa a perceber que as imagens estão presentes em mais (muito mais!) livros do que reconhecemos ou imaginamos à primeira vista. Elas estão nos adornos ao lado dos capítulos de uma ficção contemporânea e em um caderno de fotografias de determinada biografia. Elas podem surgir também nas capitulares do livro de fantasia, que foram inseridas dentro de uma pequena caixa cujas margens são desenhos de adagas, ou na árvore genealógica daquele romance histórico. Mesmo em livros compostos apenas de texto podemos encontrar imagens dividindo as partes de um determinado capítulo. Cada uma dessas imagens pode representar um desafio diferente à produção do livro digital, tendo em vista, como já comentamos tantas vezes, a necessidade e a importância da adaptação quando fazemos a transição de um formato para o outro.

Neste texto pretendo apontar três situações com as quais me deparo frequentemente durante a produção dos e-books, além das possíveis soluções encontradas para cada caso. Para ilustrar esses casos, eu irei utilizar o tipo de imagem que sempre gera suspiros de receio e preocupação quando encontradas no meio de um livro: os mapas. Utilizei o mapa do metrô de Paris como exemplo por ser horizontal, repleto de cores e palavras. Ou seja, um desafio complexo em termos de imagens nos livros digitais.

 

1. CORES

Um problema muito recorrente em relação às imagens coloridas é que os aparelhos de leitura aceitam apenas as imagens com as cores em formato RGB. Muitas vezes as ilustrações e fotografias estão em formato CMYK, que é composto pelas quatro cores de chapas usadas na impressão offset e é, portanto, específico para o livro impresso. A primeira mudança a ser feita, então, é editar o formato de cores de CMYK para RGB. Esta mudança de formato, ao ser feita automaticamente, provoca alterações nas tonalidades, já que os programas de edição de imagens apenas simulam o outro canal de cores e tentam equalizar as diferenças da melhor maneira possível, como podemos identificar nas imagens abaixo. De modo geral é necessário editar a imagem para que os tons se aproximem ainda mais do original.


MAPA DO METRÔ DE PARIS EM CMYK

 

MAPA DO METRÔ DE PARIS EM AUTO RGB

 

MAPA DO METRÔ DE PARIS EM RGB – EDITADO APÓS CONVERSÃO

 

2. TEXTOS

Muitas vezes os textos presentes nas imagens estão em um tamanho pequeno demais ou em uma fonte de difícil leitura para os e-readers. Com poucas exceções, normalmente é necessário reescrever o texto, aumentando a fonte e aplicando negrito em todas as palavras para que a tipografia tenha mais peso e, com isso, seus contornos fiquem mais nítidos e legíveis. Às vezes é importante também trocar o estilo da fonte. Geralmente eu escolho uma fonte (gratuita) encorpada e sem serifas.

 

3. PÁGINA DUPLA

As imagens dos livros impressos muitas vezes são pensadas para ocuparem o espaço de duas páginas. Ou seja, elas são retangulares e estão na horizontal, como no mapa do nosso exemplo. Porém, a maior parte dos aparelhos de leitura não permite que você rotacione a tela. A minha primeira solução sugerida é fazer um giro de 90 graus no meu mapa para que ele fique na vertical, ocupando o espaço total da tela. Algumas outras medidas, porém, podem ou devem ser tomadas nestas situações: caso a imagem seja simples, sem excesso de informações, eu edito todos os textos e detalhes que tenham ficado muito pequenos após a rotação. Caso a imagem tenha muitas informações, como no caso do meu exemplo, eu faço uma divisão do mapa ao meio e incluo no e-book tanto as duas metades (como na imagem abaixo) quanto o mapa inteiro na vertical.

METADE ESQUERDA DO MAPA

Comparando o mapa inicial e a imagem acima é possível perceber que foi necessário mover os nomes de algumas estações para a esquerda, para que eles não ficassem cortados. Por exemplo, a indicação em preto do aeroporto de Orly no canto direito inferior da imagem. Além disso, outros textos desapareceram desta metade, pois são estações que estão do lado direito da imagem. Ver a estação Luxembourg, que no primeiro mapa estava na linha azul, letra B, pouco acima do aeroporto de Orly.

 

CONCLUSÃO

Lidar com imagens requer um aprendizado cotidiano. Não são apenas as ferramentas técnicas que oferecem um aprimoramento constante, à medida que vão sendo utilizadas. Também o processo de edição – composto muitas vezes por tentativas, erros e acertos – proporciona um refinamento do olhar que facilita a identificação das melhores soluções, dos resultados mais satisfatórios. Não podemos perder de vista, entretanto, que o objetivo da edição das imagens está sempre ligado à experiência de leitura completa. Por isso, é fundamental testar cada solução encontrada no maior número possível de aparelhos, modificando cada detalhe cuja apresentação não estiver de acordo com o padrão tanto da versão impressa quanto do que se espera de uma edição digital de qualidade. Para conferir outros exemplos, com mais alguns problemas e suas respectivas soluções, veja os slides da palestra de Lúcia dos Reis e Antonio Hermida, apresentados na Conferência Revolução e-book de 2013.

escrito por Joana De Conti

Joana De Conti

Joana De Conti é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas se aposentou da vida acadêmica quando descobriu os livros digitais. Ela trabalhou por vários anos no departamento digital da editora Rocco. Ali, aprendeu quase tudo o que sabe sobre conversão de livros, participou de projetos editoriais lindos e produziu os e-books de muitos dos seus autores preferidos. Atualmente trabalha como assistente de contas na Bookwire. O cuidado com a qualidade dos metadados, com conhecer minuciosamente o catálogo das editoras e a preocupação com excelência e inovação nos arquivos dos livros digitais são parte da sua rotina. E ela continua trabalhando com os e-books de muitos dos seus autores favoritos.

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