Avaliações de qualidade

Baixe como e-book

Lembro que, no início da minha relação com e-books, eu achava que a conversão de um PDF para ePub era automática, mas, depois de pouco tempo, vendo a quantidade de erros que esse processo gerava, entendi que há uma grande diferença entre produzir um ePub e produzir um e-book. Realmente, a conversão para ePub a partir de um arquivo final de um livro é automática. Há alguns softwares para isso. Mas é apenas depois disso que começa a parte mais pesada de produzir um e-book, e aí os softwares se tornam apenas coadjuvantes e não mais protagonistas da história.

Nos livros digitais, assim como nos impressos, um dos fatores que permitem a transformação de um arquivo em um livro é a organização e a apresentação de um conjunto de informações na chamada mancha gráfica. Essa é uma função essencial do departamento editorial. Não que eu ache que os e-books devam ser produzidos por esse departamento, mas eu tenho a certeza de que quem produz e-books precisa ter o olhar editorial, independentemente do departamento em que trabalha.

O que chamo de olhar editorial, inclusive, ultrapassa um pouco a responsabilidade de um departamento editorial, porque inclui, também, uma boa noção de organização de páginas – o que, geralmente, é atribuído ao departamento de design ou editoração ou diagramação (cada editora dá um nome). E é justamente esse olhar que faz um texto qualquer ficar com “cara de livro”.

Na Intrínseca, muitos dos e-books que produzimos vêm com um design pré-definido, seja pelo fato de seguirem o modelo de um original estrangeiro ou por seguirem a diagramação do impresso. Então, ele já
chega para nós com “cara de livro”. Mesmo assim, em praticamente todos os casos, precisamos redefinir características do projeto gráfico que usamos como base para conversão, de modo que fique “melhor para o leitor entender” (destaco entre aspas, porque essa é uma frase exaustivamente repetida por nós).

Entretanto, não temos tempo para ler todos os livros e descobrir se realmente podemos alterar características do projeto sem que seu conteúdo seja prejudicado. Sendo assim, logo que começamos a produzir livros digitais, foi criada a tarefa de cotejo (também pode ser denominada “revisão de ePub”, veja aqui, no texto de Joana De Conti), pois nosso maior temor na época era que alguma parte do texto se perdesse ou fosse erroneamente inserido na conversão.

Para realizar essa tarefa, escolhemos, principalmente, profissionais que já haviam trabalhado em departamentos editoriais, porque, naquele momento inicial, precisávamos fazer o e-book ter a tal “cara de
livro”. (Atualmente, com o amadurecimento do mercado, buscamos que o e-book tenha cara de… e-book mesmo.) Em seguida, nosso departamento editorial criou a tarefa de checklist, que, na realidade, é bem mais complexa que apenas um checklist. É neste momento que, além de haver uma releitura de trechos ou de todo o texto, há a avaliação do cotejo e da produção do título em questão. É nesta etapa, também, que são avaliadas todas as redefinições de projeto gráfico e as dúvidas levantadas no cotejo.

Até esse momento, trabalhamos em um ePub-base, isto é, apenas em uma versão do e-book. Assim que temos uma versão aprovada, tem início a última parte da produção do e-book: adaptar o ePub para os
aparelhos/aplicativos em que ele será lido. Claro que não é possível testá-lo em todos os aparelhos existentes no mercado, mas testamos no máximo de aplicativos e e-readers de cada loja que vende nossos e-books.

Nosso esforço é voltado para que haja o mínimo possível de versões de cada título, de forma que possamos gerenciá-las com poucas chances de confusão, principalmente em casos de correções após o início das vendas. Para limitarmos o número de versões, precisamos de uma versão que funcione em todos os aplicativos, e é aí que começa uma série de erros e acertos. Por exemplo: aumentar “um pouco” o tamanho de uma imagem pode fazer com que ela seja visualizada em tamanho médio em um aplicativo e
enorme em outro. Nosso trabalho é, então, testar e testar até chegarmos a um tamanho que funcione em todos os aplicativos. E, quando vemos que não ficará tão bom em um e-reader ou smartphone como ficará em tablets, decidimos colocar em caixa alta no início da sinopse a informação “E-BOOK MELHOR VISUALIZADO EM TABLETS”. Não é a solução ideal, mas é a solução que encontramos até agora.

A qualidade de um e-book é fundamental para o aumento das vendas (até os piratas já sabem disso). Quando avalio a qualidade de um e-book, busco simplesmente ler o texto e sentir o que incomoda. Às
vezes, a fonte está grande, às vezes, pequena, a entrelinha está grande apenas entre duas linhas, a imagem não está centralizada, há links de cores diferentes do texto que promovem a distração da leitura, há notas importantes para a compreensão do texto que precisam ser acessadas fora da página em que estão e por aí vai. São muitos incômodos que aparecem quando você se coloca no lugar do leitor, ainda mais quando você realmente é leitora de livros digitais e passou quase 10 anos sendo treinada para o pleno desenvolvimento de TOC editorial (trabalhar no departamento editorial & fazer frila de revisão “nas horas vagas”)…

Hoje eu sei muito bem que fazer um e-book não é nada automático, pelo contrário. Muitas vezes o arquivo do livro digital é até mesmo mais revisado do que o arquivo do livro impresso e, por isso, não raramente, a sua produção ajuda a corrigir o que, eventualmente, possa ter passado no processo de produção do livro impresso. São necessários conhecimentos provenientes de diversos departamentos para produzir um bom livro digital e, por isso, nunca entendi por que editoras designam apenas uma pessoa ou um departamento para essa função. Se o livro impresso precisa de toda a editora para ter sucesso, por que o e-book precisaria de menos?

escrito por Cindy Leopoldo

Cindy Leopoldo

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha em departamentos editoriais há anos e, atualmente, gerencia o departamento de e-books da editora Intrínseca. É também colunista do PublishNews.

Um comentário sobre “Avaliações de qualidade

  1. Concordo com tudo e, muito, com seu comentario final. Ebooks precisariam de editoras para livros digitais. Quando compro a versao em ebook de um livro impresso ja sei que sera um problema ficar adequando o enorme texto aa minha tela do tablet ou smartphone. Enquanto isso, vamos aguardando os acontecimentos…

Deixe um comentário