“Mas como eu me meti nisso?”, respondeu o editor

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Vamos repetir pela terceira vez: a profissão do editor é muito especializada. Não só porque o seu trabalho se concentra em um grupo específico de atividades, mas também porque acabamos criando uma afinidade maior com alguns gêneros, temáticas ou produtos: ficção ou não ficção, didáticos ou YA, fantasia ou estatística, livros de referência ou mercado de impulso… Seguimos alguma inclinação pessoal ou somos levados a descobrir o que nos motiva a trabalhar melhor.

Também não é culpa do editor ser tão especializado: é uma tendência natural, em qualquer campo de atividade. Sempre tem algo com que você tem maior identificação ou facilidade, e o que você produz acaba tendo uma qualidade maior que a média. Então por que estou propondo darmos um passo atrás nessa disposição e inserirmos no nosso leque uma competência que já está criando seus próprios especialistas? Primeiro porque, se analisarmos bem, o principal formato de mercado para publicação dos livros eletrônicos não tem sequer uma década e sofre alterações constantes, o que faz o grau de especialização dos profissionais variar junto com as mudanças. Segundo porque é o que o editor faz quando surgem novas técnicas que podem aprimorar seu trabalho. Há alguns recortes que podemos fazer para analisar a questão historicamente, mas aqui vamos pensar o da tecnologia de inscrição, com o manuscrito (que é transpassado pela mudança do pergaminho para o códice¹), o impresso e, por fim, o digital. A maior parte do que está aqui foi aprendido em aulas e no comecinho de “A construção do livro”, de Emanuel Araújo.

Nossa profissão provavelmente começou a engatinhar na Biblioteca de Alexandria, quando a quantidade vertiginosa de versões dos manuscritos gerou a necessidade de catalogar os textos e desenvolver técnicas de filologia para estabelecer uma “edição definitiva”. Com o tempo, começaram a surgir métodos de trabalho diferenciados e seus principais expoentes. Alguns desses bibliotecários-editores preferiam mexer em tudo que podiam no texto para aprimorar a compreensão do leitor, enquanto outros escolhiam alterar o mínimo possível no texto, em prol da fidelidade ao autor (o que é esse mínimo num mundo de cultura oral e sem direitos autorais, jamais iremos saber. Ou talvez sim. Vamos continuar).

Um grande salto aconteceu dentro dos mosteiros da Idade Média. Nesse momento, o códice já havia sido desenvolvido, embora o livro ainda fosse manuscrito. É importante ressaltar essa etapa porque foi nela que se desenvolveram especialidades que aproveitavam as possibilidades do novo formato físico. O uso de margens, ilustrações explicativas, paginação, índices, folhas de rosto… Tudo isso foi desenvolvido na época que convencionou-se chamar “idade das trevas”. Esses métodos eram TÃO bons que o primeiro livro impresso só tenta imitar a forma de inscrição anterior.

Como você pode perceber com qualquer livro da sua estante, nós não imitamos mais o trabalho dos monges copistas (talvez um cadinho, com uma capitular exagerada aqui ou outra ali). Mas esse passo só foi possível quando o conhecimento desses monges-editores começou a sair das instituições religiosas e foi parar dentro das oficinas. O editor moderno começou a formar-se ali, no meio das tintas, dos papéis e dos barulhos das máquinas, trocando ideias com os tipógrafos, por vezes eles mesmos operando as prensas.

Vai, você conhece alguns nomes de editores-tipógrafos modernos. Garnier? Gallimard? De Paula Brito? Todos eles atuaram em território brasileiro, e, se pensarmos que a imprensa no Brasil tem cerca de 200 anos, a mudança para um editor que cuida exclusivamente do texto foi bem recente. Ainda havia muito o que normatizar nos meios de produção para que o editor pudesse se dar ao luxo de sair do parque gráfico. Ainda era necessário entender as técnicas que garantiriam um formato mais de acordo com o idealizado, além de em que ponto elas iriam limitar a idealização. Mas, graças aos esforços dessas pessoas, hoje podemos trabalhar em salas climatizadas, sem todos os inconvenientes de estar dentro de uma gráfica (a maioria das editoras, na verdade, terceiriza esse serviço).

E agora eu estou te pedindo para dar um passo atrás e ir lá conversar com o seu setor de e-books. Juro que não vai ser tão difícil! A sala deles também deve ter ar condicionado e o máximo de barulho que você vai ouvir será o cooler de algum computador, ou a música vazando de um fone de ouvido. Sem cheiro de tinta. Sem suor. Até pouco tempo, eu era do editorial de não ficção e uma das minhas responsabilidades era conferir os e-books. Vira e mexe havia alguma especificidade que os ePubs não conseguiam reproduzir adequadamente pela fluidez do formato. Depois de criar uma pauta, eu e meu setor nos reunimos com o setor de e-books para compreender melhor as necessidades deles e quais os limites que nossas expectativas deveriam ter. Foi excelente. A reunião durou cerca de uma hora e saímos de lá com algumas listas: o que o editorial deveria fazer ainda na preparação do livro para simplificar o processo, que adaptações o setor de e-books deveria fazer por padrão quando encontrasse os problemas mais comuns e que tipo de modificações o revisor de ePub deve considerar como especificidades do formato e quais são, de fato, erros.

Ainda temos muito assunto pela frente, mas acredito que, ao contrário do que dizem alguns empresários do ramo dos livros eletrônicos, o editor está longe de se tornar desnecessário. Talvez seja mais necessário do que nunca, na verdade. Continuaremos a explorar essas questões nos próximos posts.

 

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1. O códice é o que chamamos de “livro impresso”. Tão eficiente que virou até sinônimo de livro.

escrito por Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

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