Cosac Naify: Criação e maturação do departamento digital

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Em 2009, na editora Zahar, o departamento de e-books foi se formando à medida que as coisas iam acontecendo, o que permitiu, desde o princípio, uma boa integração com os demais departamentos da editora. Na época não existiam ainda ferramentas próprias para edição e manipulação dos arquivos, e a maior dificuldade ficava em torno das correções e adaptações dos títulos. Foi um período bastante propício ao aprendizado, uma vez que as principais lojas do ramo ainda estavam longe de começar a atuar no país, e isso permitiu experimentação e calma na tomada de decisões, testes e definições de padrões. Não havia ainda um mercado de e-books, por assim dizer, e isso colocou a Zahar como pioneira no país.
Em setembro de 2012, num cenário onde o mercado já começava a se mexer, a Cosac Naify me colocou à frente de sua produção de e-books.

O principal acerto (e definidor do que tomamos como nosso trabalho com as edições eletrônicas) foi que decidimos estruturar o departamento do zero, com etapas bem demarcadas, mais ou menos como se segue:


(setembro-dezembro 2012)

Nos primeiros meses, definimos os padrões técnicos e estéticos que seguiríamos nos digitais.

Nessa primeira etapa, iniciaram-se as conversas e a integração com o departamento de design. Precisaríamos de capas e fontes diferentes para o digital, por exemplo.

Para tal, era preciso definir nossos parceiros, afinal, cada loja tem seu app e, em cada app, os e-books se comportam de um jeito.


(dezembro-abril 2013)

A Juliana Gomes, antes no e-commerce da editora, passou ao comercial dos e-books, e começamos a estudar o catálogo e suas possibilidades reais (técnica e financeiramente falando).

Com isso, pudemos dar início às leituras e modificações contratuais, pedidos de direito autoral, solicitações de ISBNs e arquivos para conversão. Assim demos início à integração de rotinas relacionadas ao digital com os departamentos de DA, Editoriais e Produção Gráfica.

Paralelamente a cada “ok”, iniciamos a produção e análise de fornecedores.

Definimos uma data de lançamento e o número de títulos que estariam presentes no mesmo.


(maio-dezembro 2013)

Após o lançamento, voltamos aos contratos para novos parceiros de distribuição. Estabelecemos nosso orçamento mensal, da mesma forma que o número médio de lançamentos mensais, nessa fase trabalhando basicamente com backlist, short stories e midlist.

Nossa rotina mensal, a essa altura, já estava razoavelmente definida e nosso objetivo ao longo do ano também: o aumento de catálogo. E, para isso:

1. Definição de títulos > viabilização de DA > solicitação de arquivos e ISBNs > envio ao fornecedor > previsão de venda.

2. Revisão e correção de arquivos > adaptações (pois são sempre necessárias) > precificação > validação > criação de samples > envio > pré-venda/venda.


(primeira metade de 2014)

Aumentamos a produção e o número de parceiros, e, com isso, foi necessária a criação de um manual detalhado de estilo com os padrões da editora, o que diminuiu consideravelmente o trabalho de finalização dos e-books. Este manual é atualizado quase mensalmente, seja por mudanças nos apps, seja porque, vira e mexe, descobre-se um jeito melhor de se fazer isso ou aquilo.


(segundo semestre 2014)

Hoje temos 102 títulos (enquanto escrevo), e isso inicia uma nova etapa para o departamento. Com esse número, podemos, por exemplo, participar de ações promocionais com as lojas, uma vez que esta quantidade permite rotatividade de promoções sem desgaste da marca e dos títulos em si.

Acrescentamos também à nossa rotina, neste mês de setembro, lançamentos simultâneos de alguns títulos, iniciando pelo 24/7, propício, por ser também o primeiro título de uma nova coleção.

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(conclusão)

Ao longo desse período de maturação, nosso diretor executivo, Bernardo Ajzenberg, se mostrou sempre participativo e preocupado com a integração do departamento à editora como um todo, o que foi vital para que essa integração de fato ocorresse tanto no plano prático quanto no conceitual (onde o departamento de e- books deveria falar com todos os demais e, ao mesmo tempo, manter sua autonomia). Isso é um ponto fundamental: o departamento de e-books não deveria se tornar uma ilha isolada numa baia inacessível.

O reflexo dessa integração é o aumento de possibilidades e a pluralidade de visões, que se reverte não apenas num produto final mais rico, como também na valorização do mesmo dentro da editora como um algo construído coletivamente, menos abstrato e mais tangível.

Finalizando: minha intenção com esse texto não é passar uma fórmula, até porque todo departamento, por mais bem planejado que seja em suas rotinas, colide nos fatores externos, mas… se permitem uma única dica prática: a aquisição de e-readers para os departamentos envolvidos (editoriais e design, por exemplo) e uma apresentação do que de fato são os e-books (como são vendidos, etc.) para a editora, são passos bastante simples e que ajudam muitíssimo na desmitificação do produto e do senso comum que ainda existe aos montes por aí…

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escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

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