E então veio a Amazon…

Baixe como e-book

amazon-box Créditos da imagem: http://www.fotos.ntr.br/fotos-de-dambo/

No final de agosto, um dia antes da Bienal de São Paulo, a Amazon estreou as vendas de livros físicos no Brasil. Com a atrativa campanha de marketing “Leia Enquanto Enviamos”, descontos agressivos, frete grátis para compras a partir de R$69,00 e políticas de entregas em um dia útil para pedidos feitos até 11h em algumas regiões de São Paulo, a Amazon mostra para que veio e deslumbra os consumidores com suas políticas empresariais. No entanto, o que a curto prazo é visto como vantagens pelo consumidor pode, a longo prazo, se transformar em desvantagens, influenciando o mercado de livros, como um todo, negativamente.

O maior atrativo da Amazon para o consumidor, como todos sabem, são os preços. A empresa se permite o prejuízo em troca de fidelização de base de usuários para conquistar parcela significativa do mercado. Uma vez em que ela representa um gordo percentual do faturamento das editoras, ela possui também poder de barganha para negociações de descontos e até de precificação de produtos.

Um exemplo um pouco mais sutil do que temos escutado ultimamente a respeito das estratégias para controle de precificação da Amazon se encontra nos descontos aplicados em sua estreia no Brasil na venda de livros impressos. Como muitos puderam notar, tais descontos por muitas vezes tornam as versões tradicionais mais baratas do que as digitais. Com isso, a Amazon já pressiona, indiretamente, as editoras a baixarem os valores de um produto que, a grosso modo, ainda não chega a dar lucro significativo para as mesmas. E, como foi dito pela Marina Pastore no post da semana passada, a prática de preços baixos não necessariamente representa um aumento de lucros via venda por quantidade.

Do ponto de vista do editor é ainda complicada a padronização na precificação, pois trata todos os livros como produtos homogêneos, sem considerar os custos diferenciados de produção, assim como seu público-alvo, tiragem e valores atribuídos por características literárias e técnicas, como uma revisão de um especialista renomado na área ou a escolha de um tradutor premiado. Numa lógica inversa, a precificação padronizada pode acarretar na homogenização na produção dos livros, de forma a mantê-los dentro de uma faixa de lucrabilidade.

Voltando à perspectiva do consumidor, é importante também ter em mente que as práticas predatórias da Amazon ameaçam a diversidade do mercado editorial, tanto no cenário de escolha de títulos, uma vez que muitos livros são publicados por princípios culturais e não comerciais, quanto na diversidade de projetos gráficos, formatos e acabamentos.

Diferente do que o tom deste texto possa aparentar, pessoalmente, acho que talvez o momento seja muito favorável para o mercado brasileiro, pois temos a mídia internacional focando em casos como a disputa da Amazon com empresas como Hachette e Disney e isto nos serve de alerta para tais práticas. Já vemos algumas iniciativas de importantes grupos do setor para garantir que o mercado se mantenha competitivo de forma saudável. Além disso, tivemos pronunciamentos de algumas concorrentes, como por exemplo a Livraria Cultura, nos quais a estratégia de competitividade se baseia no que esta pode entregar ao consumidor como diferencial ao invés de uma tentativa, geralmente mal sucedida, de replicar as políticas que tornaram a Amazon o que ela é hoje. Tais práticas me fazem remeter à entrevista dada ao Globo por Oren Teicher, na qual ele sugere que as livrarias se reinventem como lugares de convívio social e cultural.

Acredito que, mais importante do que se desesperar com a entrada da Amazon com livros impressos (e suas consequências), é preciso que pensemos no que as atuais práticas representam para o futuro do mercado e como é possível implementar mudanças que nos permitam acompanhar as transformações inevitáveis de forma a manter uma competitividade saudável e favorável para todos os envolvidos no processo.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

Deixe um comentário