Pensamentos sobre cursos para o mercado editorial

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Quando comecei a trabalhar no mercado editorial, se não me engano, em 2003, era bem complicado saber mais sobre ele. Não sei bem se eu não conhecia os cursos ou se não existiam mesmo, mas, de toda forma, parecia difícil achar um caminho para aprofundar meu conhecimento na área.

De lá pra cá, vi surgirem muitos cursos e consultorias e lembro que fui aconselhada por um ex-chefe a gastar meu dinheiro estudando idiomas, porque sobre o mercado eu aprenderia mais na prática. De toda forma, resolvi fazer alguns e hoje admito que o ex-chefe estava certo. Não é que eu nunca tenha feito um curso que fosse de fato interessante, mas foram poucos, pouquíssimos.

Dentre as coisas que me fazem ficar com a pulga atrás da orelha antes de me matricular em um curso, o que me deixa mais desconfiada é saber que, muito provavelmente, vou ouvir quase que exclusivamente sobre a experiência pessoal do ministrante. A não ser que o professor tenha de fato produzido algo que me interesse, acho que falar só de experiência pessoal (em um mercado em que cada editora tem seu padrão) é, a meu ver, algo mais indicado para uma boa conversa de hora do almoço do que para um curso (geralmente, caro). Digo isso porque, seguindo a lógica do meu ex-chefe, parece que o natural no mercado editorial é cada profissional se especializar na empresa em que trabalha, e, para mim, um professor deve ir além disso e tentar obter informações sobre a maioria das empresas. O que eu espero de um professor é que ele seja mais do que um funcionário de uma empresa, que tenha uma visão mais ampla e, se possível, global do mercado editorial, baseado em pesquisas institucionais ou particulares.

Mas há outras coisas que podem te alertar para evitar desapontamentos; uma delas é ver incoerências entre a ementa e o currículo do professor. Nesse sentido, já vi professores que, em seu currículo, apresentavam experiência em apenas uma editora e nenhuma pesquisa que demonstrasse seu estudo da área, e que resolveram ensinar, por exemplo, regras de revisão de prova como se fossem universais, quando na verdade essas regras só são usadas na editora em que eles trabalham. Já vi acadêmicos vendendo cursos de atualização em produção editorial tendo por base um livro de 1986 (a primeira edição de “A construção do livro”, de Emanuel Araújo) e contando com os alunos para falarem sobre como o mercado atual realmente faz. Não estou dizendo que um bom curso está necessariamente ligado ao currículo do professor, mas, nesses casos citados anteriormente, uma pesquisa maior sobre quem eram os professores teria sido útil para mim.

Se isso acontece em um mercado que existe há 500 anos, imagina o que se pode ver de cursos, empresas e consultorias pouco embasadas em um mercado recentíssimo? Recebo e-mails de empresas que prometem fazer e-books enriquecidos (enhanced) que funcionarão em todas as lojas, quando nós sabemos que a maior parte daqueles enhancements só vão rodar direito nos aplicativos de leitura de uma única loja. Consultorias que te dizem apenas as manchetes das notícias de sites como The Digital Reader e prometem saber as tendências do mercado brasileiro de e-books. Ou até mesmo lojas que te dizem que seu e-book vai rodar perfeitamente nos aplicativos de leitura deles, e você é obrigado a passar pelo constrangimento de explicar para eles o que funciona e o que não funciona nos aplicativos das empresas onde eles mesmos trabalham.

O mercado de e-books me parece estar ainda em sua Idade Média – há pouca informação consistente, poucos números confiáveis (principalmente no Brasil), poucos cursos que não tenham como base a experiência pessoal – e, por isso, qualquer um que simplesmente trabalhe de alguma forma com os livros digitais parece virar um especialista dois meses depois de ter entrado na área. Mas, considerando que a curva de aprendizado de um editor seja de 2 a 5 anos1 e que, para ser especialista em edições digitais, a meu ver, convém que você seja também conhecedor do processo de edição de um livro impresso, podemos supor que isso não é real pelo simples fato de não ter dado tempo para que alguém que trabalha com e-books no Brasil tenha se tornado de fato um especialista. E, assim, as porcentagens de 3 dígitos de crescimento desse mercado parecem cegar alunos e professores que estão em busca de marcar presença nesse segmento. E, assim, um professor/consultor/empresa pode chegar e citar apenas o que escutou de um figurão do mercado de impressos e acreditar que está falando algo viável ou relevante. E, graças à convicção apaixonada em seu olhar, os alunos também acreditam que estão ouvindo algo viável ou relevante.

Esse texto é um alerta e também um pedido.

Um alerta para os possíveis alunos: por favor, estudem bem os professores antes de se matricularem. Verifiquem onde eles trabalharam, por quanto tempo, o que eles de fato produziram, e o que eles estudaram. A melhor coisa seria perguntar para os ex-alunos, clientes, colegas de trabalho ou funcionários deles se acham que ele realmente tem o conhecimento que diz ter, mas nem sempre é fácil descobrir quem são essas pessoas. De toda forma, Google e LinkedIn podem ajudar bastante nisso…

E o pedido é direcionado aos professores/consultores/empresas: nós, funcionários de empresas, precisamos que nossos professores tenham muito mais informações que nós e não que estejamos no mesmo nível de busca de soluções. Nós precisamos muito de mais e mais ideias inovadoras para conseguirmos fazer o mercado como um todo se desenvolver e contamos com suas pesquisas para isso.


1 GRECO, Albert. The Book Publishing Industry. Routledge, 2004.

escrito por Cindy Leopoldo

Cindy Leopoldo

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha em departamentos editoriais há anos e, atualmente, gerencia o departamento de e-books da editora Intrínseca. É também colunista do PublishNews.

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