“E eu com isso?”, disse o editor

Baixe como e-book

Terminei a faculdade há pouco tempo. A maior parte da minha experiência no mercado é como estagiária. Mas acredito que, talvez, essa imaturidade sirva um bocado para pensar o livro eletrônico. Isso porque, ao mesmo tempo em que consolido minhas capacidades profissionais, acompanho os desenvolvimentos e desdobramentos do novo formato, inserindo-o na minha rotina como se as novidades fossem só mais uma parte do aprendizado.

A minha profissão é bem especializada. A função dela é transformar o texto, a produção de um escritor, em um livro. Pois é, autores não escrevem livros, eles escrevem textos. O livro, como conteúdo, é o produto final do ofício do editor. É uma profissão um pouquinho ingrata, já que o maior sinal de um trabalho bem feito é que o leitor não repara na intervenção, pois o editor conseguiu auxiliar o autor e seu texto a encontrarem a melhor forma de transmitir uma mensagem, tanto adaptando o conteúdo quanto a forma.

Novamente, preciso ressaltar que a profissão é bem especializada. Embora o editor tenha uma boa noção de como se escreve um texto, a função dele não é escrever o livro, é ajudar a desenvolver a linguagem e o conteúdo. E, quando tudo está pronto, há a diagramação e a impressão. O editor confere a apresentação final e busca o formato mais confortável para a apresentação do texto, mas geralmente há profissionais especializados que se ocupam de colocar a mão na massa. Não digo que não há mais quem atue como autor-editor-impressor-livreiro, mas hoje o principal modelo comercial do livro exige um grau de especialização muito grande em cada etapa.

E aí, aparecem os e-books. Controversos que só eles, cheios de expectativas, para o bem ou para o mal. Não posso dizer como foi a recepção nas editoras quando, por exemplo, o formato ePub apareceu. Nessa época, eu sequer estava fazendo vestibular, e na verdade mal imaginava como era o trabalho do editor. Mas ainda hoje, tanto na universidade quanto no mercado, o assunto ainda gera mais curiosidade que respostas. Principalmente do editor, esse sujeito tão especializado em mexer no texto.

Não vamos ser injustos: o editor sabe os efeitos que as relações entre a tipografia, o papel e o acabamento do exemplar criam sobre o leitor. Então, o que ele fará no livro eletrônico, esse incrível formato líquido? É melhor só deixar para o setor responsável e conferir o que eles pedirem (isso é, quando pedem). Ou talvez não. Embora ainda seja muito confuso saber o que é possível ou não nesse novo formato e pensar nas adaptações necessárias para o e-book (ainda mais quando a impressão que fica às vezes é que as lojas tratam os livros como se fossem sabonetes: cada uma com sua fórmula mágica e resultados incríveis, que nem sempre correspondem às necessidades de publicação), dá sim para pensar o formato, mesmo sem entender exatamente o que faz cada linha de  código.

Bom, esse post é só a chamada para que você, editor, assistente editorial ou estagiário, me acompanhe: vamos pensar um pouco o livro eletrônico? Entendermos o que ele é, o que não é, e que expectativas podemos (ou não) criar sobre ele. Talvez seja necessário conhecer um pouquinho do trabalho do setor que cuida dos e-books na sua empresa, mas, assim como ninguém nunca pediu para você desemperrar papel da impressora offset, não será necessário que você resolva nenhum problema do código. O que é necessário agora é pensarmos juntos, as duas especialidades cientes das limitações de cada lado e criando um novo fluxo de trabalho que começa a pensar o livro eletrônico desde a preparação do texto. Quem topa?

[próximo post da série]

escrito por Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

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