O e-book imóvel

Baixe como e-book

Quando se fala das vantagens do ePub, uma das mais citadas é “fluidez”: diferente do PDF, o formato naturalmente se adapta ao ambiente de leitura, permitindo ao leitor efetuar certas customizações. A fonte (mudança da família tipográfica, variações de tamanho) e a visualização em si do texto (mudanças no tamanho das margens e entrelinhas) podem ser alteradas. Certos aplicativos permitem até mesmo que se leia o livro sem a lógica de “virar a página”, dando a ele o aspecto de um editor de texto ou página da Web1.

Para livros simples, compostos apenas por texto, ou mesmo com a presença de imagens em meio ao texto (gráficos, ilustrações, cadernos de fotos), o ePub padrão se mostra o formato mais indicado. Quando estamos falando de adaptar projetos gráficos mais complexos, em que elementos precisam ocupar lugares específicos nas páginas, o problema começa a se delinear. Como um formato essencialmente fluido pode lidar com livros em que imagens interagem organicamente com o texto, ou que só podem ser lidos com páginas duplas – livros, enfim, que só fazem sentido por conta de sua fixidez, do diálogo entre forma e conteúdo?2

É para suprir essa necessidade que o ePub de layout fixo (fixed layout ePub) surge. E o que seria isso? O José Fernando Tavares, da Simplíssimo, gosta de definir a coisa de modo elemental: ePub de layout fixo é um ePub. De. Layout. Fixo. Sério, nenhum mistério aqui: trata-se de um arquivo ePub em que os elementos são fixos. Ou seja, a característica da fluidez, nesse tipo de publicação, é abandonada. As fontes não mudarão de tamanho. Com isso, as imagens não se deslocarão. Tudo vai ficar exatamente em seu lugar.

Perfeito, certo? Temos aí um tipo de ePub que, visualmente, reproduzirá na tela exatamente aquilo que é visto nas páginas do livro impresso, respeitando o projeto gráfico pensado para funcionar daquela maneira.

Mas, no mundo real dos players competitivos, dos diversos ambientes de leitura e dos padrões que mudam de lugar para lugar, nada é tão perfeito. Embora o ePub de layout fixo seja uma opção extremamente válida e caia como uma luva para certas obras – quando bem utilizado, naturalmente –, seu uso, considerando questões mais gerais, não é destituído de problemáticas, que precisam ser cuidadosamente consideradas pelos produtores de conteúdo.

A começar com a produção, que tende a ser mais trabalhosa do que é a de um ePub fluido. E isso se reflete nos custos envolvidos. Caso se esteja lidando com um fornecedor externo, como ocorre em muitas das editoras brasileiras, terá de se desembolsar um valor maior do que o de costume. Deve haver reflexão também acerca do potencial de circulação em si. ePubs de layout fixo são adaptações de livros impressos que geralmente chamam atenção pela beleza e acabamento, o tipo de obra que se gosta de folhear, de possuir. Há um aspecto visual tanto quanto um tátil. Trata-se de um apelo não reprodutível por um e-book, o que com muita probabilidade terá reflexo nas vendas.

Temos, como sempre, a questão do consumo em si do produto. Deve-se ter em mente que o layout fixo deve ser desfrutado idealmente em tablets, o que exclui da equação (ou pelo menos atrapalha a experiência de) usuários de e-readers, smartphones e computadores. Por mais que os aplicativos iBooks (Apple), Kobo, Google e Kindle (este convertendo-o para o formato proprietário da Amazon) suportem o formato, nem todos os consumidores dessas lojas possuem tablets. E, embora seja teoricamente possível que ePubs de layout fixo funcionem em certos e-readers, nem de longe se trata da experiência adequada.

É importante considerar ainda outra lojas cujos aplicativos de leitura não suportam o formato – Saraiva e IBA, por exemplo. O que fazer para que consumidores dessas lojas não sejam privados do e-book? Esse ponto em específico torna visível a possível necessidade de ter pelo menos mais uma versão digital do livro, outro arquivo em formato ePub2, em muitos sentidos inferior à versão layout fixo. Essa opção traz de volta a problemática da adaptação em si. Das duas, uma: terá de se desistir do projeto gráfico e pensar num completamente novo (com maior ou menor aproximação do original) ou optar pelo uso de imagens que meramente reproduzam o original.

Se a ideia é incrementar o projeto com o uso de interatividade ou áudios e vídeos – sem dúvida ótimos para livros infantis –, numa combinação layout fixo + ePub33, o número de ambientes de leitura possíveis diminui ainda mais, a ponto de se pensar seriamente sobre a viabilidade prática de um e-book dessa natureza, ou precisar administrar vários arquivos específicos para lojas específicas.

O que esse panorama demonstra, em resumo, é que o layout fixo, assim como o ePub3, ainda não é inteiramente suportado por muitas plataformas, não podendo ser considerado a solução definitiva para a questão dos livros complexos. O objetivo aqui não é desencorajar a criação desse tipo de produto, mas chamar atenção para o que essa criação envolve. Na ocasião da implementação de um projeto em layout fixo, será necessário pesar todos esses fatores, e ainda outros, que as conjunturas particulares apresentam. Avalie bem.

 


1 No iBooks, da Apple, esse modo é chamado simplesmente de “Scroll” ou “Rolar”.

2 Livros infantis talvez sejam os que primeiro vêm à mente após essa descrição, mas ela abrange livros de fotografia ou de arte em geral.

3 Um ePub de layout fixo não é necessariamente um ePub3, embora possa ser. As duas coisas não caminham obrigatoriamente juntas.

escrito por Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 25 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

3 comentários sobre “O e-book imóvel

    • Oi, Jamerson! Obrigado pelo elogio.

      Não. Não temos um e-book que seja compatível com cada e-reader e em circulação atualmente. Não se trata exatamente de uma questão econômica, mas de particularidades das plataformas, que, naturalmente, se relacionam com a abordagem e as intenções de cada loja. No caso da Amazon, tem-se um formato dedicado (mobi) que só funciona bem nos ambientes de leitura deles, sejam e-readers ou apps; estes, por sua vez, não leem ePub, que é formato adotado por literalmente todas as outras lojas.
      O ePub sim, pode ser lido por todos os demais e-readers, ou pelo menos pelos principais e mais competitivos (Kobo, Nook, os modelos da Sony e, mais recentemente, o Lev, da Saraiva). Estes, por sua vez, não leem o formato da Amazon. A divisão é essa, de modo geral.

      Abraços!

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