Kobo + GitHub – O que as editoras têm a ver com isso?

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Recentemente, a Kobo publicou seu manual de referência para editoras no GitHUB e, à primeira vista, o leitor pode pensar, “ah, mas Amazon e Apple já possuem seus guidelines há tempos, até aí, nada demais, né?”.

Bem, mais ou menos.

Na verdade, estamos falando de uma postura inédita por parte da Kobo, uma postura, acima de tudo, política e que vai além da imposição mercadológica à qual estamos habituados.

Alguns players fornecem, sim, manuais de referência e consulta para os parceiros que desenvolverão e-books para suas plataformas, e estes guias chegam aos editores em forma de PDF ou sites estáticos, sem possibilidade de interação ou sugestão direta. Ou seja, são guias que funcionam unilateralmente e, além de não possuírem toda a informação nescessária1 para exploração de possibilidades teoricamente permitidas, acabam se tornando desatualizados a cada atualização de plataforma/app2.

Para entendermos a relevância dessa ação da Kobo, precisamos entender que existe um abismo entre a publicação de um manual em PDF disponibilizado para download e a publicação de um manual no Git.

Algumas palavras-chave que ilustram essa nova postura são: transparência, bilateralidade e cooperação.
Mas, para de fato entendermos o que representa essa escolha de meio, precisamos, antes, entender o que é o GitHub.

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Grosso modo, o GitHub é um “portal”, por assim dizer, que funciona como repositório de projetos open source. Não se trata de nada menos do que a maior comunidade de desenvolvimento colaborativo do mundo e funciona assim:

Se eu, por exemplo, crio um programa/projeto e o disponibilizo via Git, o mesmo pode contar com a contribuição de qualquer pessoa ao redor do mundo para seu desenvolvimento conjunto efetivo. Além disso, qualquer projeto pode ter forks, que são versões alternativas ao original que seguem caminhos independentes de desenvolvimento.

Fora isso, como (quase) tudo é open no Git, qualquer um pode clonar um repositório público, estudar seu código-fonte, sua documentação, compartilhá-la e, até mesmo, usar pedaços desse código em seus próprios projetos (atentando sempre para as licenças de uso de cada um – geralmente, CC ou GPL).
[Um repositório relacionado que recomendo é o 99Problems, nele encontram-se as descrições para dezenas de erros de renderização em e-readers.]

Bem, agora que sabemos o que é o Git fica mais claro o tamanho do passo que a Kobo deu não apenas em direção às editoras, mas também em direção a desenvolvedores e estudantes de tecnologia.
Qualquer um pode clonar o repositório da Kobo, criar um novo a partir deste e acrescentar seus próprios testes, comentários e observações. É possível também acompanhar, comentar, revisar e acrescentar notas públicas ao repositório oficial, atualizá-lo e mantê-lo de acordo com o que de fato está ou não funcionando.

É também um espaço para reportar bugs, ou seja, deixa de ser algo disponibilizado arbitrariamente para ser algo em construção conjunta, e é nesse ponto que podemos dizer que foi, sim, uma postura política de aproximação, inédita e bastante ousada. Afinal, abre-se também um canal para que a concorrência acompanhe o que funciona, o que não funciona e as quantas andam os ciclos de atualizações e correções. Isso é ruim? Não, definitivamente, uma vez que a concorrência se vê na posição de precisar acompanhar as mudanças.

Apesar desse grande avanço, a falta de padronização ainda impera: a Amazon usa um formato proprietário ineditável, a Apple usa Webkit, o Google está abandandonando o webkit para usar o Blink como motor principal, e a Kobo/Cultura e a Saraiva utilizam o motor da Adobe (em versões diferentes, diga-se de passagem), cujo núcleo é bastante desatualizado.
São tantas variações possíveis neste parágrafo (entre formatos, motores, aplicativos e plataformas) que parece impossível que cheguemos a um consenso eventualmente.

Em suma, por um bom tempo ainda persistirão as rotinas de testes de “o que funciona, o que não funciona e o que funciona só quando os planetas estão alinhados” para quem busca entregar um e-book de qualidade aos leitores, mas apesar disso, ignorado ou não, o IDPF continua atualizando suas especificações3 e a Kobo abriu esse precedente que nos tira um pouco do escuro, nos colocando em um papel menos coadjuvante e de maior paridade, um papel no qual podemos diretamente opinar e apontar falhas e melhorias, participando do processo e do futuro desse segmento da indústria.

 


1. Como os e-books são desenvolvidos em HTML, é quase impossível que os manuais comportem todas as possibilidades.

2. E, para cada app, somamos versões Android, Windows Mobile etc…

3. Via Booknando Cursos http://booknando.com.br/epubcast-6-publicacoes-digitais-projetos-software-livre-e-epub3/

escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

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