Relações de dependência

Baixe como e-book

Nos últimos meses, grande parte das notíciais sobre e-books se concentravam na disputa da Amazon com a editora Hachette e, apesar do foco ser o desenrolar de um evento pontual, em muitos momentos a discussão se tornou um pouco mais abrangente, questionando o papel das editoras no mercado e as relações que são traçadas no atual cenário.

Por conta da natureza do produto livro ter sido sempre de caráter tangível, ou seja, físico, as editoras, no geral, sentem que a comercialização de conteúdos digitais foge um pouco do território no qual as mesmas se sentem seguras para atuar.

Junto a este distanciamento das editoras do mercado tecnológico está o fato de que as empresas que são referências mundiais no comércio de livros digitais são empresas essencialmente tecnológicas e/ou voltadas para e-commerce, o que torna quase inquestionável a afirmativa de estas serem as detentoras do conhecimento necessário para o ingresso com êxito na área de livros digitais.

Apesar das editoras brasileiras terem tomado como base as experiências americanas, e, por consequência, freado certas práticas agressivas e anti-competitivas, há ainda uma postura de aceitação das demais rotinas, ações e até ideologias, em detrimento desta experiência tecnológica da qual o mercado editorial carece. E, apesar de muitas vezes não aparentar, tal posição quase submissa das editoras influencia não só a receptividade com relação ao mercado de e-books, como também o de livros impressos.

Acredito que tal postura adotada pelas editoras seja, em parte, resultado de uma admiração pela história e pelas conquistas de tais empresas no mercado. Mas, por outro lado, não consigo deixar de pensar que há também uma visão de que o digital é ainda um produto à parte. E, como algo que está à parte, o e-book não compõe um quadro de ações institucionais; o departamento, geralmente autônomo, possui ações próprias que raramente são pensadas em conjunto com as ações do impresso, mesmo que ocorram paralelamente.

Essa separação entre o que é digital e o que é impresso dificulta em muito o crescimento do segmento, pois, por mais que seja inegável que os e-books são uma realidade, esta realidade ainda é vista como outra realidade, que não engloba o mundo editorial como um todo. Caminha ao lado, mas não junto.

Essa lacuna criada pela não inclusão do digital nas rotinas editoriais acaba dando muito poder de escolha para as distribuidoras, em especial as exclusivas digitais. E, a partir desta liberdade que é concedida pela editora, cria-se uma noção errônea de que a editora é dependente das distribuidoras de conteúdo digital.

O fato é que as editoras deixam muitas decisões nas mãos das gigantes do mercado, seja por achar que estas têm mais know-how,  por considerarem as ações do digital como algo à parte ou simplesmente para não se excluírem de práticas adotadas/acatadas pelas demais editoras. E, caso a editora tenha uma postura diferenciada – como no caso da Hachette –, além do estranhamento que é causado, há uma séria dificuldade de promoção de seu conteúdo.

Mas o que não podemos esquecer é que, a priori, o que o consumidor deseja é o conteúdo. A distribuidora dá o suporte, que também é importante, mas o objeto de desejo é o livro (digital ou impresso) – e esse é o grande trunfo das editoras.

É um fato que o livro digital é uma realidade recente e que, por ser recente, não possui ainda um posicionamento dentro do cenário editorial. Todavia, é preciso tornar viável a relação entre digital e os demais setores da editora neste momento em que sua função e seu espaço no mercado ainda estão se definindo. As mudanças provindas da inserção do digital nas rotinas editoriais são inevitáveis, independente das posturas adotadas internamente no mercado editoral. No entanto, enxergar o digital como parte integrante do todo que constitui uma editora é não abdicar do poder de intervenção no futuro, ainda a ser traçado, resultante deste novo paradigma editorial.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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