Pequena história do Departamento Digital da Companhia das Letras

Baixe como e-book

Quando entrei na Companhia das Letras, em junho de 2011, o mercado de e-books no Brasil ainda engatinhava. Os principais players eram Saraiva, Cultura e Gato Sabido (ainda não havia nem sombra de Amazon, Apple, Kobo e Google neste mercado); os e-readers vendidos por aqui eram caríssimos e pouco práticos; havia poucos títulos disponíveis em formato digital (a própria Companhia não tinha mais do que 30, se me lembro bem), e as vendas eram, para ser bem sincera, deprimentes.

Lembram do Cool-er? Que custava tipo 800 reais? Pois é.
Lembram do Cool-er? Que custava tipo 800 reais? Pois é.

Apesar do cenário não muito animador, todos acompanhavam com interesse – e certa apreensão – a explosão dos e-books nos Estados Unidos, impulsionada pelo Kindle. Neste contexto, fui contratada como estagiária para desempenhar, a princípio, uma única missão: pesquisar tudo o que pudesse sobre o mercado nacional e internacional para que a editora pudesse tomar decisões bem informadas a respeito de seus próximos passos.

Neste momento, não havia um departamento dedicado ao digital; eu me encaixava no Departamento de Produção, sob a supervisão de Fabio Uehara, que na época era o Diretor de Arte da editora. À medida que algumas coisas foram ficando claras – por exemplo, que o formato no qual deveríamos investir era mesmo o ePub, e não o PDF ou aplicativos dedicados para iOS ou Android (a dúvida parece boba agora, mas na época era uma questão séria!); ou que não fazia sentido deixar de lançar a versão digital por medo da pirataria, muito pelo contrário –, pudemos realmente começar a traçar uma estratégia para o digital na Companhia, mas, sem um empurrão do mercado, era difícil justificar um investimento maior. A virada veio em outubro daquele ano, com o nosso primeiro lançamento simultâneo das versões impressa e digital: Steve Jobs, de Walter Isaacson, vendeu mais em um único dia do que costumávamos vender em um mês, e rapidamente se tornou o e-book mais vendido no Brasil até então. Foi aí que realmente percebemos o potencial do formato, em especial se aliado a uma boa estratégia de divulgação.

Alguns meses depois, em janeiro de 2012, Fabio deixou o cargo de Diretor de Arte e passou a ser o coordenador do novo Departamento Digital. Ainda como estagiária, eu passei a centralizar algumas tarefas que antes ficavam espalhadas por diversos departamentos, como a checagem final dos arquivos, o cadastro de e-books nas livrarias e o acompanhamento das conversões. Com um departamento exclusivamente dedicado aos e-books, pudemos nos concentrar em melhorar o fluxo de produção (adotando lançamentos simultâneos como regra), estreitar o relacionamento com o número crescente de livrarias e envolver outros departamentos, em especial o editorial e o de divulgação, em novos projetos. Assim, nosso catálogo digital, que no final de 2011 contava com cerca de 200 títulos, hoje possui mais de mil (o que representa cerca de um terço do catálogo ativo da editora, ou mais, se considerarmos apenas os livros de texto, excluindo os infantis) – entre livros novos, antigos e exclusivamente digitais, com destaque para o selo Breve Companhia, dedicado a e-books mais curtos. (Ponto importante: as vendas já não são mais deprimentes.)

Entre todas as ações do departamento nestes últimos três anos, acredito que a mais importante (depois da minha efetivação, obviamente) tenha sido uma que não se vê de fora: a mudança de mentalidade de toda a editora, que tendia a ver o e-book como subproduto do impresso e hoje já pensa nele como um formato independente. Não é nada fácil para uma pessoa como eu, que nunca havia pisado numa editora antes, chegar a uma empresa que trabalhava com um formato há 25 anos e convencê-la de que, vejam bem, esse outro formato aqui pode ser tão incrível quanto (e nisso devo muito ao Fabio e a suas infinitas reuniões). Se, no começo, nosso trabalho era um mistério para os outros departamentos, hoje todos os funcionários entendem o que estamos fazendo, e muitos se tornaram até, imaginem só, leitores de e-books. Isso é de uma importância essencial, facilitando o trabalho do dia a dia e abrindo o caminho para algumas inovações que apenas dois anos atrás seriam impensáveis: e-books seriados, e-books gratuitos, lançamentos simultâneos ou até antecipados da versão digital, eventos de lançamento de e-books… Agora, com o departamento consolidado e as atividades cotidianas bem encaminhadas, é nestas inovações e no aprendizado constante que buscamos nos concentrar.

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

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