Cultura digital letrada ou O livro digital já é digital o bastante

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Foi durante uma das últimas aulas que assisti. A disciplina tinha como tema a história do livro no Brasil. Em algum momento, por algum motivo, a discussão se voltou para os livros digitais. Agucei os ouvidos. Houve os comentários usuais, desde os de gosto – “Não suporto e-books” –, passando pelos moderados – “Leio digital e impresso, gosto muito dos dois” –, os de dúvida – “Kindle ou Kobo, qual será o melhor?” – e terminando, é claro, nos alarmistas – “O impresso nunca vai desaparecer! Nunca!”1. Falas variadas que refletiam a heterogeneidade do grupo reunido ali.

O professor retomou a palavra para dar seu parecer sobre o assunto em pauta. Num tom calmo – seu tom era sempre muito calmo –, disse que os e-books não podem ser entendidos à parte da cultura digital como um todo; eles são componentes de um cenário complexo, sensivelmente marcado pelas transformações advindas dos desenvolvimentos da Web, da tecnologia móvel, da portabilidade, da conectividade, pautado pelas rápidas mudanças, pela contínua interatividade. A cultura letrada, na qual está inserido historicamente o livro impresso, por outro lado, está em processo de amadurecimento há séculos e tem uma lógica muito diferente, mais fixa, mais definida. Haveria, então, não simplesmente dois formatos, mais dois modos de pensar e experienciar conteúdos envolvidos.

O argumento que se seguiu procurava deixar bem explícita essa diferença, bem como destacar que, para fazer sentido como tal, o livro digital ainda precisa evoluir e integrar de modo mais orgânico as características da cultura a qual pertence. O livro digital, em seu atual estágio de desenvolvimento, ainda não incorporou tudo que o digital engloba. Daí – e nesse momento ergui as sobrancelhas, levemente incomodado – a tentativa, percebida no atual momento, de fazer com que e-books se assemelhem o máximo possível ao livro físico: como todo formato em processo de consolidação, ele ainda se ampara no que veio antes. Mas, eventualmente, sua identidade própria se desenvolverá, deixando de recorrer à do impresso para fazer sentido por si mesma.

A sentença, portanto, foi de que o livro digital, realmente digital, ainda não aconteceu. Não de todo.

Essa percepção certamente soará algo estranha ao pacato consumidor de e-books, que, hoje, sem dar atenção a tais questões, compra, com um toque, o livro que deseja e o recebe em seu e-reader/smartphone/tablet em coisa de minutos. Bastou a conexão com a internet, o número de seu cartão de crédito, a plataforma. O intervalo entre o nascimento do interesse por determinado título e o início da fruição do mesmo pode ser tão mínimo que nem se chega a notar.

Esse e-book recém-adquirido apresenta diversas possibilidades jamais vislumbradas na cultura letrada. A fonte pode ser modificada para uma que me agrade mais. O tamanho não é mais fixo. As cores podem ser invertidas, deixando a letra branca contra um fundo preto. A entrelinha, aumentada ou diminuída. O mesmo aparelho em que esse e-book está aberto pode comportar, sem exagero, outros milhares. E poderíamos preencher mais e mais linhas com as facilidades e conveniências que são próprias dos e-books.

Ainda assim, deveríamos reconhecer, caso concordássemos com o raciocínio do professor com quem tive aquela aula, que o livro digital ainda não está pronto, ainda não é tudo que o digital dá a entender. Ainda não.

Bem, do que exatamente estou falando? De um certo pensamento que se esboça aqui e ali acerca do que estaria contido na expressão “livro digital”. Pode ter acontecido comigo mais vezes do que com a maioria das pessoas – é a partir da minha experiência que estou falando aqui, naturalmente –, mas o que observo é que a segunda palavra que compõe o termo tende a ser mais enfatizada do que a primeira quando se travam discussões sobre o “futuro da leitura” ou “do potencial dos e-books”. Digital soa mais alto do que livro.

Isso tem sua razão de ser, claro; em muitos sentidos, os e-books representam uma ruptura significativa com as práticas de aquisição e consumo de livros próprias do impresso. Não é surpresa que se espere rupturas também nas formas de narrativa consumidas e nos recursos utilizados para construí-las. Além disso, a inserção cada vez mais profunda da Web na vida social, uma outra característica da cultura digital, nos acostumou com grandes níveis de conectividade e uma maior velocidade no consumo de conteúdos midiáticos – vídeos, músicas, imagens –, bem como a uma frequente mistura entre eles. Sendo estes novos livros digitais, não seria natural que incorporassem esses elementos mais patentes da cultura digital?

Talvez daí venham as expectativas de quebra de padrões de linearidade, de histórias contadas de maneira totalmente nova, de conjugação de vários tipos de mídia num único lugar, de interatividade com a história contada ou com as informações reunidas num texto. Talvez essa tenha sido a imagem criada acerca desses tais livros digitais que um dia chegariam: coisas inteiramente diferentes do que veio antes, harmonizadas com as modificações ocorridas pela absorção cada vez maior do digital em nossas vidas.

A realidade é que uma grande parcela dos livros digitais ainda é a mesma dos que encontramos nas sólidas prateleiras das livrarias físicas. Os que não estão lá, sendo lançados diretamente nas lojas online, guardam semelhanças claras com estes livros físicos, tanto em sua estrutura – partes, capítulos, quebras narrativas – quanto na linearidade, nos gêneros, nas histórias em si que são contadas. Um banho de água fria nas expectativas? Não: somente um lembrete de que, antes de ser digital, o livro digital é, bem, livro.

Talvez seja importante destacar essa pequena obviedade e atentar para realidades – e possibilidades – mais concretas dentro do que hoje visualizamos no mercado de livros digitais. Não se trata de negar que e-books diferentes e com novos recursos agregados se tornarão uma realidade (até porque sabemos de alguns que já estão na praça) ou que novas formas de narrar a partir do digital não surgirão. O ponto é que essas características não são as determinantes para eleger certos e-books como legitimamente digitais em detrimento de outros que estariam unicamente copiando a aparência do impresso. Um e-book não é menos completo em si mesmo enquanto produto se não apresenta vídeos, áudios ou animações que expandem uma narrativa ou agregam mais informações. O que precisa ser enfocado é o que os livros exigem, como seu conteúdo pode se relacionar com as novas potencialidades do digital, o quanto serão beneficiados por elas, se é que serão.

As características do digital que mais enriquecem o livro não são necessariamente o poder de conjugação de várias mídias ou a possibilidade de interação com o meio, mas outras mais óbvias, como a instantaneidade de acesso, a customização da aparência, o ambiente de compra, as peculiaridades de cada aplicativo ou aparelho. Todas estas coisas configuram um certo tipo de leitura. São elementos que por si só já reconfiguram as práticas de leitura, mesmo que o conteúdo lido não se mostre inovador ou repleto de novos recursos.

Olhar para o cenário atual com a perspectiva de que ainda “falta algo” ao livro digital que finalmente o coroe digno de tal título é desconsiderar todas essas outras capacidades, seu impacto no consumo literário e na difusão da leitura. Livros digitais são livros; não são menos digitais se for unicamente a isso que se propuserem. Não estarão copiando o impresso, mas trazendo seu conteúdo para um novo formato, que facilita o acesso e permite adaptações e mobilidade. O que já é estimulante o suficiente para que os entendamos como elementos completamente inseridos na cultura digital.

 


1. Embora ninguém tivesse insinuado isso, pelo que me lembro.

escrito por Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 25 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

2 comentários sobre “Cultura digital letrada ou O livro digital já é digital o bastante

  1. Da forma como eu vejo, o livro em si é um formato consagrado há séculos, não tem porque mudar, só refinar, e o formato digital veio para isto.

    O que as pessoas querem é um conteúdo multimídia, que não tem relação direta com livros.

    Sinceramente eu estou bastante satisfeito com os ebooks, não mais consumo conteúdo impresso, praticamente eliminei o papel da minha vida. Pra falar a verdade, nem alterei as configurações do meu kindle, apenas compro os livros e os leio, pois não me importo com o meio, mas sim com o conteúdo.

  2. Oi Josué, gostei da sua visão, concordo com você de que os livros digitais não merecem mais passar por crise existencial. Discordo, contudo, em alguns pontos do seu texto, por exemplo, as características que você elencou (instantaneidade de acesso, a customização da aparência, o ambiente de compra, as peculiaridades de cada aplicativo ou aparelho) são características técnicas de dispositivo e de distribuição. Como você mesmo disse, o conteúdo é o mais importante, isto é, a forma como o texto é tratado no meio digital. Sabemos que a tipologia textual (a narração, a descrição, a instrução etc…) não modifica e, portanto, o texto digital de novo não tem nada. O que se transforma mesmo é o gênero. Nesse sentido, além da possibilidade de haver videos, audios e animações, o ambiente digital permite outros tipos de propriedades, não só de mídias, mas também de comunicação, por exemplo. Minha visão é que o texto não deve ser transposto tal qual está no impresso. Ele precisa passar por uma “edição” pro digital e usar das propriedades desse meio (ressalto, não são apenas de mídia). Pode parecer utopia, mas não vemos coisa diferente quando olhamos para os nossos vizinhos do jornalismo digital. Certamente, a experiência é bem diferente entre ler uma notícia em um jornal impresso, em um Portal de notícia, e, mais além, nas redes sociais digitais (a propósito, o avanço da tecnologia rendeu dividir o jornalismo digital em três gerações). Nisso quero dizer que não devemos colocar o dispositivo frente à um conteúdo e sim, definitivamente, o oposto. Creio, contudo, que as exigências de mercado não dão tempo para repensar noutras possibilidades, além de outros empecilhos (a questão da autoria, o “medo” de não haver o retorno financeiro esperado, da baixa aceitabilidade do público, a busca de um e-reader mais avançado…). Por outro lado, temos que reavaliar se o ebook que temos hoje é realmente intrépido como pensamos – se houve impacto no consumo literário e na difusão da leitura, é preciso refletir: em que lugar e para quem mesmo? E, quanto à facilidade de acesso, faço as mesmas perguntas… Obrigado!

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