Como competir com o grátis?

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Hyperbole and a Half

Esta imagem vai fazer sentido no final, prometo.

Recentemente, André Forastieri chamou a atenção ao anunciar que seu novo livro não sairia em formato digital. A decisão causou certa estranheza: em pleno 2014, quando editoras grandes e pequenas correm atrás de garantir os direitos para todos os formatos possíveis e imagináveis e os lançamentos simultâneos da versão digital e da impressa são quase uma obrigação, um autor – e mais, um autor que escreve para a internet – resolve fazer diferente? A justificativa: 90% do conteúdo já está disponível gratuitamente na internet, e o contato com o objeto livro é parte essencial da experiência.

Não estou aqui para criticar a opção do autor – acho, inclusive, ótimo que ele tenha o cuidado de pensar na experiência do leitor. Mas gostaria de usar este caso como ponto de partida para pensar numa questão maior: num mundo com tamanha quantidade de conteúdo disponível gratuitamente para qualquer pessoa com acesso à internet, que tipo de valor a editora ainda pode trazer para a experiência do leitor? Bem, se nosso diferencial for simplesmente a capacidade de tirar as palavras da tela e arranjá-las num bloco de papel encadernado, estamos com problemas.

Esta é uma questão que passa pela transformação do papel da editora como um todo. Se, alguns anos atrás, o editor tinha a prerrogativa de escolher o que chegaria ou não ao mercado, hoje o cenário é diferente. Sem passar pela editora, um livro pode até não chegar às prateleiras físicas das livrarias, mas pode ser facilmente distribuído em formato digital – muitas vezes, por um preço muito baixo ou até gratuitamente. Além do mundo da autopublicação, é possível encontrar obras de altíssima qualidade literária em sites especificamente dedicados à distribuição (legal) de textos gratuitos – no Brasil, temos o dominiopublico.gov.br, e, nos Estados Unidos, provavelmente a maior e mais famosa iniciativa deste tipo, o Projeto Gutenberg. O primeiro, lançado em 2004, disponibiliza sobretudo livros em PDF. Já o Projeto Gutenberg, fundado em 1971 (sim!), conta com um time de voluntários dedicados a digitalizar e disponibilizar livros (a maioria em domínio público, mas alguns distribuídos com autorização do autor) no maior número possível de formatos. O compromisso destes projetos é com o incentivo à leitura; então, o que importa é que o texto esteja lá. O fato de a formatação não ser muito boa ou de haver pequenos erros gerados durante a digitalização é secundário.

Acho que não tem como discordar de que esta é uma iniciativa louvável, e é, inclusive, uma ótima maneira de ter um primeiro contato com os e-books – quem acha que jamais conseguiria ler numa tela pode experimentar à vontade com um Dickens da vida, sem compromisso. Se é assim, e se só no projeto Gutenberg já existem mais livros do que qualquer um conseguiria ler na vida, como as editoras podem competir – algumas, inclusive, continuando a publicar Dickens, Victor Hugo, Machado de Assis até hoje? A resposta está, sim, na experiência. Mas com “experiência” não quero dizer apenas a diagramação e a impressão de um exemplar. Quero dizer o cuidado com a edição em qualquer formato – impresso, digital, enhanced, em áudio, com vídeos, com interatividade, ou todos eles. O editor não é mais um juiz do que chega ou não ao mercado, mas, em sua escolha do que e como publicar, torna-se um curador de conteúdo – uma função de muita responsabilidade numa era em que temos tanto conteúdo tentando atrair a nossa atenção o tempo todo.

Assim, a diferenciação da editora – e seu argumento para convencer o leitor a comprar seus livros, mesmo existindo tantos outros de graça por aí – passa pela construção da sua marca, da sua presença no mercado. O curador precisa ser alguém em quem o leitor confie, para que ele saiba que o logo da editora na capa (seja ela impressa ou digital) significa qualidade. Com tanta competição no mercado, torna-se ainda mais importante zelar pela qualidade de cada livro em todos os sentidos – na seleção dos textos, na organização, na tradução, na revisão, no design (estou sendo terrivelmente repetitiva, mas preciso dizer isso de novo: do impresso e do digital!). Além disso, especialmente se a editora trabalha com textos clássicos que poderiam ser obtidos gratuitamente, o diferencial pode muito bem vir da criação de um contexto para estas obras: escolhendo outros textos que acompanhem o principal, por exemplo, ou preparando um guia para professores, ou mesmo construindo um catálogo coerente que dê um direcionamento ao leitor. Por fim, talvez o mais importante hoje seja a manutenção de um relacionamento com o leitor, através de redes sociais, blogs, eventos e o mais simples de tudo, mas tantas vezes subestimado: um atendimento ao leitor eficiente e atencioso.

Falando especificamente do e-book, é verdade que, com os formatos de arquivo que usamos hoje, nem todos os livros podem ser adaptados de maneira adequada. É mesmo necessário pensar sobre a experiência do leitor em cada caso, e, se ela for frustrante, é melhor não oferecê-la. A curadoria também engloba este trabalho: avaliar quais os melhores formatos para cada obra, ou que tipo de conteúdo pode melhor se adaptar a cada formato. Pode ser que Forastieri esteja certo e que seus leitores digitais ficassem frustrados ao reler textos já publicados online antes – ou pode ser que topassem pagar pelos 10% de conteúdo inédito, ou para ter todos os textos reunidos num e-book, ou simplesmente para apoiar um autor que admiram. Tendo a acreditar na segunda opção, vendo casos como o do livro Hyperbole and a Half : ainda que boa parte do conteúdo já estivesse disponível no (maravilhoso) blog da autora, o livro foi lançado nos formatos físico e digital, e no momento em que escrevo está em 2º lugar na categoria Graphic Novels da Kindle Store americana. Eu mesma já garanti meu exemplar digital, mesmo já tendo lido e relido o blog várias vezes. Por quê? Porque gosto de ler e-books, achei a edição digital bem feita e queria dar a minha modesta contribuição para que a autora fique bem rica e continue escrevendo. Cada leitor tem seus motivos, e penso que, quando possível, é bom deixá-lo escolher.

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

Um comentário sobre “Como competir com o grátis?

  1. Eu prefiro ler no Kindle. Não gosto de papel e não me interesso pela forma, apenas pelo conteúdo. Este autor que você mencionou e os outros que têm este tipo de visão, ou temem formatos digitais estão perdendo leitores como eu.

    É muito chato pensar que eu não valho a pena.

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