A produção do livro digital: para além da mecânica dos botões

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Como foi explicado no meu artigo anterior, não existe um botão mágico que automaticamente gera um livro digital. A produção de um e-book é composta por diversas etapas, cada uma associada a um programa diferente, todas elas exigindo certo grau de conhecimento técnico. À medida que se compreende a complexidade e a heterogeneidade dessas etapas, a conclusão seguinte poderia ser de que não há apenas um botão mágico, mas que existem alguns botões que, se apertados da maneira certa, na ordem correta, produzem um belo livro digital, certo?

Novamente a resposta exige um pouco mais de reflexão, para além da mecânica dos botões. Desse modo, com o intuito de explicar com mais profundidade a produção de um e-book, este texto vai analisar as etapas iniciais desse processo, mostrando o que pode e o que deve ser feito e concluindo com uma breve reflexão sobre os resultados finais em ambos os casos.

Para ilustrar tal análise escolhi produzir um livro imaginário de não-ficção sobre o incrível trabalho de Johannes Gutenberg, o criador – entre outras coisas – da prensa de tipos móveis, invenção que revolucionou a indústria gráfica no século XV. Compilei todas as informações encontradas na Wikipédia sobre Gutenberg e o resultado esperado é um pequeno livro, composto de textos e imagens. A matéria-prima para começar o meu trabalho, neste caso, é apenas o texto, pois não há – como normalmente acontece em uma editora – um livro revisado e diagramado a ser seguido como modelo para as margens, fontes tipográficas, indentações etc.

Executei as etapas iniciais da produção de maneira mecânica: exportei o texto do formato indd para rtf (pelo menu “Iniciar” do InDesign) e abri o arquivo no Libre Office. Utilizo este programa pois é possível instalar nele uma extensão que funciona como ferramenta de conversão do arquivo de texto para o arquivo epub, que posteriormente será editado no Sigil (veja aqui mais detalhes sobre essa extensão). Comecei rapidamente a editar o texto com o intuito de eliminar quebras de linhas forçadas, espaçamentos duplos e parágrafos iniciados ou terminados com espaço. Também dividi o livro, inserindo uma quebra de página entre a capa, o sumário, os capítulos, a página de créditos etc. Eu utilizo um atalho de teclado (CTRL + enter) para realizar esta divisão e o resultado é que, após a exportação do arquivo rtf para epub, as partes dos livros já aparecerão em htmls separados, como você pode ver nas imagem abaixos:

Também é na etapa de edição do documento de texto que eu classifico os títulos do livro em diferentes categorias. Estas obedecem a uma hierarquia que será exportada do arquivo de texto para o arquivo epub. E como eu faço tal classificação? Utilizando a ferramenta de “Estilos e formatação” do Libre Office, localizada tanto no menu “Formatar” quanto na barra de ferramentas (ou pelo atalho F11). Através dela eu posso marcar meus títulos com os números 1, 2, 3, e assim por diante. No momento da exportação, as linhas do arquivo de texto que eu identifiquei como Título 1 serão convertidas em linhas <h1> no arquivo epub, as linhas identificadas como Título 2 serão convertidas em <h2>, e assim por diante . A importância desta classificação inicial reside no fato de que, a partir dela, eu consigo diferenciar a parte do texto que se tornará um título daquela que será um parágrafo comum. Assim eu poderei, por exemplo, definir uma propriedade de tamanho de fonte do <h1> três vezes maior do que a fonte do <h2>. Essa propriedade será aplicada a todas as linhas que eu identifiquei como Título 1 dentro do Libre Office. Tais classificações do documento de texto simplificarão muito o processo de edição do meu e-book.

Eu iniciei a segunda etapa da classificação no arquivo de texto marcando os títulos e subtítulos como Título 1 e Título 2, respectivamente. Mas imagine se, ao chegar na metade do trabalho, eu descubro que há uma linha que, hierarquicamente, deveria estar acima daquelas que, desde o princípio, eu estou classificando como Título 1. Felizmente o texto sobre Gutenberg gera um livro imaginário de, no máximo, 40 páginas, facilitando bastante a correção. Porém, os livros editados na rotina de uma editora geralmente são maiores que isso, e os capítulos e seções podem chegar a grandes quantidades. Claro que substituições são possíveis, preferencialmente feitas após o arquivo epub ter sido gerado – existem mais possibilidades de substituição pelo código do que pelo texto (leia mais aqui). Porém há a chance de algum linha ser esquecida, aumentando bastante tanto o trabalho do revisor quanto as chances de erros.

A moral da história aqui é bem simples: antes de começar a produção de qualquer livro digital é fundamental estudar a estrutura e o projeto gráfico do livro impresso. É importante analisar como ele é dividido, se tem imagens, se estas estão reunidas em um caderno de fotos e se têm legendas, considerar se existem parágrafos com espaçamentos diferentes ao longo do texto etc. Tais questões podem ser marcadas no arquivo de texto para que o arquivo epub exportado esteja mais organizado e limpo, facilitando muito o trabalho de edição. Tais questões também irão determinar o modo como será feita a produção do livro digital desde a sua primeira etapa. Considero, inclusive, que o momento de estudar o livro impresso (seja ele em pdf, indd, p65 ou rtf) é a primeira e imprescindível etapa.

O profissional que trabalha com e-books necessita, sim, de bastante conhecimento técnico. E este deve ser somado a um olhar analítico e – por que não? – estético, que tornará o seu produto final um livro digital de qualidade, coerente com o projeto de toda a equipe editorial, harmônico na sua estrutura e na sua forma, funcional em todas as suas utilizações. É por conta deste olhar que não existem botões mágicos e que, não importa quão avançada se torne a tecnologia, o ser humano só ficará obsoleto se ele se permitir ser diminuído por ela, ao invés de crescer(mos) em conjunto.

 


OBS. As imagens usadas foram tiradas do livro imaginário sobre Johannes Gutenberg que, por conta deste texto, precisou ser efetivamente produzido a partir das informações da Wikipédia.

escrito por Joana De Conti

Joana De Conti

Joana De Conti é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas se aposentou da vida acadêmica quando descobriu os livros digitais. Ela trabalhou por vários anos no departamento digital da editora Rocco. Ali, aprendeu quase tudo o que sabe sobre conversão de livros, participou de projetos editoriais lindos e produziu os e-books de muitos dos seus autores preferidos. Atualmente trabalha como assistente de contas na Bookwire. O cuidado com a qualidade dos metadados, com conhecer minuciosamente o catálogo das editoras e a preocupação com excelência e inovação nos arquivos dos livros digitais são parte da sua rotina. E ela continua trabalhando com os e-books de muitos dos seus autores favoritos.

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