Metadados: a ponte entre leitor e livro

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Hands off my metadata

(É, a imagem se refere a um tipo diferente de metadados, mas eu sou mesmo muito protetora em relação às minhas planilhas.)

Já diz a famosa citação de Louis Pasteur que “o acaso só favorece a mente preparada”. No mundo das compras online – um ambiente de “acaso controlado”, onde os links que seguimos podem nos levar a lugares inesperados, mas muitas vezes seguindo uma trilha de páginas diretamente relacionadas umas às outras por algoritmos –, a “mente preparada” é a que sabe posicionar bem seu produto no meio de milhões de outros. É aí que entra a famosa palavrinha: metadados.

Muita gente já bateu nessa tecla: com as compras migrando cada vez mais para o ambiente online (falando especificamente de livros, em 2012 as lojas virtuais foram responsáveis por quase 44% das vendas nos EUA, ultrapassando os canais físicos pela primeira vez), o grande desafio passa a ser tornar os livros conhecidos pelo leitor, já que a “vitrine” da home de um site costuma ser muito menos espaçosa do que a de qualquer livraria física.

Por um lado, a popularização dos e-books facilita a publicação de praticamente qualquer coisa, por mais única e de nicho que seja. Por outro, com tantos livros disponíveis, é cada vez mais difícil fazer com que uma obra específica seja descoberta, a menos que ela seja parecida com outros títulos que as pessoas já estão procurando. Os mecanismos de busca são cada vez mais eficientes no trabalho de encontrar exatamente o que o leitor procura, mas não costumam favorecer a “serendipidade” (do inglês serendipity, a descoberta fortuita de algo que não se estava buscando).

É claro, isso acontece na internet como um todo, não só com os livros. Para nós, especificamente, é um fenômeno que pode ter participação grande no sucesso ou fracasso de uma obra – ainda mais quando ela é exclusivamente digital e, portanto, não pode ser descoberta acidentalmente num passeio por uma livraria.

 

O papel dos metadados na descoberta

Para construir relações entre títulos diversos, os sistemas das livrarias e motores de busca precisam do maior número possível de informações relevantes e de qualidade sobre cada título. Essa é a hora que os nossos queridos metadados têm para brilhar. Os metadados são, pura e simplesmente, informações sobre qualquer produto. No caso dos livros, eles incluem desde os dados mais básicos, como título, autor e preço, até as informações mais sofisticadas, como público-alvo e palavras-chave. Quanto mais completos e precisos forem os metadados, maiores são as chances de o leitor descobrir que seu livro existe – e, mais ainda, ter vontade de comprá-lo. Um relatório da Nielsen de 2012 sobre o mercado do Reino Unido mostrou que os títulos com elementos básicos de metadados preenchidos chegam a vender 98% a mais do que os que têm registros incompletos. Estamos falando aqui das informações mais simples, como ISBN, capa, título e formato; quando adicionamos o que a Nielsen chama de enhanced elements – descrição curta, descrição longa, resenha, biografia do autor –, o impacto sobre as vendas chega a 55%.

Se o impacto é tão evidente, por que é que não estamos todos abarrotando as páginas com todo tipo de informação sobre os nossos livros? Primeiro, por uma dificuldade que nos aflige em muitas áreas: a falta de um padrão único. Ainda que existam padrões internacionais (oi, ONIX!), nem todas as editoras estão preparadas para produzi-los – até porque as livrarias nacionais costumam usar seus próprios padrões, e as internacionais só vendem e-books (sim, por enquanto). Com o mercado digital ainda relativamente pequeno no Brasil, um investimento numa plataforma que não seja útil também para o impresso talvez não seja viável no momento.

Uma alternativa é usar os serviços de uma distribuidora ou desenvolver um sistema próprio para que se possa inserir os metadados uma única vez e exportá-los nos diferentes padrões exigidos por cada loja. Isso facilita muito o trabalho, mas pode ser uma faca de dois gumes, já que cada livraria pode interpretar os metadados enviados de uma forma diferente: uma descrição bem formatada em HTML que fica lindamente cheia de negritos e itálicos numa loja pode virar um bloco de texto simples em outra, por exemplo. Colocar um pequeno e atraente resumo ou um blurb em destaque no começo do texto é uma ferramenta valiosa para atrair a atenção do leitor, mas não é possível nesse caso, já que o trecho não fará sentido se não estiver claramente separado do resto da descrição. Assim, no final, acaba sendo necessário nivelar por baixo.

Outro caminho é produzir um conjunto de metadados para cada lugar: um para o site da editora, outro para a Amazon, outro para a Apple e assim por diante. Com isso, não quero dizer simplesmente pegar as informações de um sistema e jogar em várias planilhas diferentes. Quero dizer conhecer cada um dos players e se adaptar de acordo. As palavras-chave que ajudam tanto na busca de uma livraria podem nem estar presentes nos campos de cadastro da outra. O livro que você classificou como Literatura Brasileira na Saraiva pode virar Ficção Literária (ou Ficção Policial, ou Thriller, ou Ficção Biográfica…) na Kobo – que, assim como outras lojas internacionais, usa a classificação norte-americana BISAC, bastante abrangente, mas limitada em relação a algumas especificidades do nosso mercado.

Por isso, o trabalho de adaptação deve ser feito com atenção e cuidado, livro a livro; quanto mais detalhado, melhor. Tendo tempo para dedicar a isso, quase tudo pode ser resolvido: se nem todo mundo tem campo de palavras-chave, dê um jeito de usar os termos mais importantes no próprio texto, para que sejam encontrados pelos motores de busca. Se nem todas as livrarias aceitam textos formatados, prepare também uma descrição curta que funcione bem como um bloco só. E, para as lojas que vendem tanto livros impressos quanto e-books, não deixe de associá-los incluindo o ISBN do impresso no cadastro (quando houver, é claro): é importantíssimo que o leitor, ao visitar a página do livro num dos formatos, saiba que o outro também está disponível.

 

Um trabalho eterno

Uma segunda dificuldade – que considero até mais difícil de resolver, porque envolve a rotina de toda a editora – é a necessidade de manter os metadados sempre atualizados. Quando você imprime a biografia do autor na orelha do livro, ela é obviamente estática; é o retrato de um momento. No entanto, manter no seu site coisas como “é professor de Harvard” após o falecimento do autor ou “seu próximo livro está previsto para 1999” quando estamos em 2014 é algo que eu não aconselharia.

É claro, estes são casos extremos, mas existem informações – uma adaptação do livro para o cinema ou o recebimento de um prêmio, por exemplo – que são relevantes tanto para o público quanto para os próprios livreiros, e podem ajudar nas vendas caso sejam incluídas nos metadados. O problema é que estas informações precisam chegar até as pessoas encarregadas, que devem, então, enviá-las para todos os canais – um processo muito difícil de administrar quando se tem centenas ou milhares de livros no catálogo.

Difícil, mas não impossível, e cada vez mais necessário. O Brasil ainda não sofre a crise das livrarias físicas que atinge países como os EUA e a Inglaterra. Mas isso não significa que os canais online tenham menos relevância, ou que manter um registro consistente das informações sobre o catálogo não seja essencial para qualquer editora. Este é um trabalho que tende a crescer em importância, e quem souber administrá-lo bem desde já – elaborando metadados que sejam precisos, úteis para os livreiros e atraentes para os leitores – pode ter uma vantagem importante.

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

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