Botão mágico

Baixe como e-book

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Trabalho com livros digitais na editora Rocco, cuidando diretamente da produção dos arquivos ePub, desde as primeiras etapas de conversão à finalização dos livros. O início do meu trabalho com livros digitais, diferente do que imagino ser a experiência da maioria dos profissionais da área, se deu ao mesmo tempo da minha entrada no mercado editorial. O que isso significa, entre outras coisas que serão exploradas com mais cuidado em textos futuros, é que meu aprendizado sobre os “bastidores” da produção dos livros impresso e digital ocorreu simultaneamente.

Se antes eu estudava/trabalhava de casa – cuidando das etapas de produção técnica dos livros digitais (conversão de formatos, edição de imagens, finalização dos arquivos etc.) –, ao começar a trabalhar em uma editora eu comecei a conviver com pessoas que diagramam, revisam, preparam, fazem copidesque, leem e escolhem os livros que serão publicados.

Obviamente fascinada com essas pessoas e seus trabalhos, não consegui me furtar a querer conhecer seus ofícios, habilidades, trajetórias, sua formação e o que fizeram antes de chegarem à nossa atual editora. Minha surpresa foi enorme quando percebi que a curiosidade era recíproca. Porém, maior foi a surpresa de perceber que essa curiosidade era gerada pelo fato de elas – apesar de trabalharem com livros há anos – também desconhecerem o meu trabalho, tanto quanto eu desconhecia o delas.
Rapidamente eu descobri que as perguntas que eu escutava no meio editorial não eram muito diferentes das que meus amigos e conhecidos fazem quando eu conto com o que trabalho.

As dúvidas sobre o processo de produção do livro digital são das mais variadas. Perpassam questões pertinentes – que me fazem pensar sobre meu ofício e sobre como as pessoas entendem a introdução de novas tecnologias em seus hábitos, acelerando mudanças sociais como um todo – e, também, pelo senso comum, no qual o processo consiste em apertar um botão que transformaria magicamente um texto em um livro digital.
Ou seja, de acordo com o “imaginário coletivo” sobre a produção de livros digitais, eu chego na editora pela manhã, abro o arquivo de um livro que está revisado, diagramado e pronto para ir à gráfica e clico em “salvar como”. Pronto!, o resultado desse rápido processo é o livro digital. Conversando com outros companheiros de ofício, sempre brincamos com a ideia de um botão mágico que converte todos os formatos, produz e-books instantaneamente e nos transforma em meros apertadores de botões, tal como Charles Chaplin em “Tempos Modernos”.

Felizmente – pelo menos para mim, que gosto imensamente do meu trabalho – não existem botões mágicos, e os tempos de produção fordista já passaram há algumas décadas. Eu chego na editora pela manhã e, sim, abro o livro que já está revisado, diagramado e pronto para ir à gráfica. Tais arquivos estão, em sua maioria, nos formatos .pdf, .indd ou .p65 (compatíveis, respectivamente, com os programas Adobe Reader, InDesign ou Pagemaker). Porém, eles não estão diagramados para virar automaticamente um livro digital. A primeira etapa da conversão, portanto, acontece nesse momento, quando eu exporto o texto de um desses programas para .rtf, o Rich Text Format. Este formato é lido pela maioria dos programas de texto e aceito por todos os sistemas operacionais. Eu utilizo o LibreOffice Writer – um editor de texto gratuito e de código aberto – para abrir o meu documento .rtf e nele é que faço a formatação de caracteres e parágrafos, sempre tendo em vista o projeto gráfico do livro. Esse trabalho pode ser mais rápido ou mais demorado, dependendo da diversidade de estilos do projeto e de como o arquivo foi fechado antes da impressão. A conversão para o formato ePub é feita pelo próprio Libre, através de uma ferramenta acoplada a ele com esse objetivo, o Writer2ePub, criado por Luke Calcinai. Em seguida eu utilizo outro software livre, o Sigil, para abrir o novo arquivo e, então, editar as características finais do livro: tamanhos de fonte, espaçamentos, capitulares, títulos etc. Muitas vezes é necessário editar imagens e pensar (e fazer!) alterações mais complexas, tais como tabelas ou remapeamento de fontes (através do FontForge, um programa também aberto usado tanto para criação quanto para edição de fontes). Finalizada essa etapa, eu envio o livro para ser cotejado externamente e, após a entrega dos relatórios de revisão, aplico as emendas sugeridas. Só então posso testar o arquivo em todos os aplicativos – e-readers, tablets e smartphones – que estiverem à disposição.

Ainda estamos longe de ter um botão mágico, e diariamente as perguntas pipocam ao nosso redor. Receosas ou admiradas, ingênuas ou sagazes, curiosas ou indignadas, todas as dúvidas são válidas e cada explicação deve ser dada com cuidado e atenção. Desmistificar o trabalho de produção do livro digital é fundamental, dentro e fora das editoras. O e-book é um mistério para todos, uma novidade constante tanto para leigos quanto para os profissionais mais experientes das editoras, mesmo aqueles que trabalham diretamente com ele. Acredito que um dos propósitos deste site seja ajudar neste processo. Certamente alguns textos publicados no Colofão serão mais técnicos, mas a lembrança de que somos todos neófitos e de que os questionamentos são fundamentais nunca deve ser esquecida.

escrito por Joana De Conti

Joana De Conti

Joana De Conti é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas se aposentou da vida acadêmica quando descobriu os livros digitais. Ela trabalhou por vários anos no departamento digital da editora Rocco. Ali, aprendeu quase tudo o que sabe sobre conversão de livros, participou de projetos editoriais lindos e produziu os e-books de muitos dos seus autores preferidos. Atualmente trabalha como assistente de contas na Bookwire. O cuidado com a qualidade dos metadados, com conhecer minuciosamente o catálogo das editoras e a preocupação com excelência e inovação nos arquivos dos livros digitais são parte da sua rotina. E ela continua trabalhando com os e-books de muitos dos seus autores favoritos.

18 comentários sobre “Botão mágico

  1. Olá.
    Eu trabalho na área de design e sempre tento explicar que não existe mágica.
    Muito interessante seu texto.
    Eu já migrei do PageMaker há anos, uso o InDesign. E com o CC, facilita demais nossa vida. Eu uso o próprio InDesign para diagramar os ebooks e ele mesmo exporta para formato digital. Claro que não é botão mágico kkk mas prefiro usar um software só. E já uso fontes com licença para distribuição digital.
    Caso não conheça como funciona o CC da Adobe, é bem interessante .
    Abas
    Rosana

    • Oi, Rosana,

      Eu conheço um pouco o CC da Adobe, sim. Porém, a edição posterior do arquivo ePub exportado pelo InDesign ajuda a deixar o código mais limpo e a evitar “bugs”. Além disso, exportar o texto a partir do arquivo .rtf permite mais flexibilidade na construção do projeto gráfico, entre outras diversas vantagens. Por isso sigo as etapas descritas no post. De qualquer modo, obrigada pela contribuição! Pretendo publicar outros textos focados na produção do livro digital, então espero que possamos trocar mais figurinhas por aqui.

      Abraços,
      Joana

  2. Adorei o sue texto Joana.
    Conheço pouco dos trabalhos da área editorial, menos ainda da área de diagramação digital, por falta de experiencia. Mas como designer, conheço bem essa ideia do botãozinho mágico.
    Adorei saber um pouco do seu processo de trabalho e tentarei acompanhar para conhecer melhor essa área tão mágica.

    • Obrigada pelos elogios, Bruna. Imagino que essa imagem do botão mágico seja comum a muitas outras áreas, sim! E nossa intenção é continuar explicando sobre o universo do digital dentro do mercado editorial, sua participação aqui será sempre bem-vinda!

  3. Achei muito interessante essa área de trabalho. Estoi fazendo curso de comunicação visual e amo ler os mais variados tipos de livros. E trabalhar em uma editora casaria o útil ao agradável. Parabéns pelo texto e pelas ótimas qualidades. O que você acha necessário pra eu conseguir trabalhar em uma editora?

    • O seu interessa na área e o seu curso de comunicação visual são bons passos iniciais para entrar no mercado editorial, Gustavo. A partir daí, acho que você deveria pesquisar as diversas subáreas que compõem uma editora e direcionar a sua formação neste sentido. Espero ter ajudado!

  4. Joana, cheguei ao seu artigo através do site Revolução ebook, e achei muito interessante saber mais um pouco de como funciona uma editora , ainda mais a criação de um eBook. Gostaria de fazer uma pergunta, não sei se poderá responde-la , ou se o assunto já foi explorado neste site (que visito pela primeira vez graças ao seu artigo). Gostaria de saber por que o ebook ainda não é tão atrativo economicamente falando em relação ao livro “físico”? por ignorância a tendência é , leigos como eu, acharem que podia ser maior a diferença no valor de venda de um ebook comparado a um livro convencional.
    parabéns pelo trabalho, sempre fui curioso sobre o dia-a-dia de uma editora…

    • Primeiro de tudo, Henry, obrigada pelos elogios! Sobre a questão dos preços, acredito que uma das principais respostas para sua pergunta está no próprio post que eu escrevi: fazer (assim como distribuir e divulgar) um livro digital requer uma produção complexa que envolve uma equipe interna na editora e alguns serviços terceirizados, tais como a revisão do texto após a finalização do arquivo ePub. Além disso, temos limitações contratuais atrelando a atribuição do preço do livro digital ao preço do impresso (que, de modo geral no Brasil, é alto). Estes são apenas alguns ponto na discussão, mas nas próximas semanas publicaremos artigos aprofundando o debate, ok?

  5. Gostei do seu texto Jô! É interessante saber mais sobre o processo de um ebook, já que eu, como muitos, ainda acreditava na existência daquele botão mágico.

    Mas eu queria saber, se na sua opinião, o preço que pagamos por um ebook é justo. Nós pagamos quase o preço de um livro impresso por um ebook, sendo que o livro impresso tem muito mais etapas para ficar pronto. Então, o que você acha, é ou não justo?

    Júlia — vidadecliches.wordpress.com

  6. Oi Joana, muito legal seu texto. Puro e objetivo! Além de ter aprendido bastante, me fez lembrar meu início, tempos de PM antes de ser da Adobe: Aldus Page Maker, também tinha o Ventura Publisher, o QuarkXpress, Corel Draw e so on. Um dia “1” cliente, que nos encomendava layouts de anúncios ‘pra’ jornal, chegou esbaforido querendo layoutar um anúncio em minutos. Ao explicarmos que era preciso ao menos meia hora (pedíamos 1h para não virar bagunça!), eis que ele retruca: mas peraí, isso TEM que ser mais rápido, vocês não fazem “por” computador??A história se repete o tempo todo! Caso tenha interesse saber mais sobre o passado, achei esse link:. Bjs.

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