9gag

Ingress: um experimento social e suas possibilidades

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Durante as últimas semanas, a internet (mas não apenas ela) foi tomada de Pokémons por conta do novo jogo da Niantic, que utiliza GPS e realidade aumentada.

Apesar do pouco tempo de vida, muito já se falou sobre esse jogo e sobre as ameaças à privacidade, além das ligações, no mínimo, suspeitas entre a desenvolvedora do game e agências de investigação, etc., mas o caso é que esse não é o primeiro jogo que a empresa lança nesses moldes, tendo debutado no estilo com o Ingress, no final de 2012. Aliás, a título de curiosidade, a maioria dos hotspots do Pokémon aproveitam as mesmas localizações mapeadas no Ingress, uma vez que são escolhidos com base em pontos estratégicos da cidade.

Ah, ok, legal, mas o Ingress já não é novidade, pra quê falar dele então? Por 3 motivos:

  • Em primeiro lugar, porque muita gente não conhece;
  • Por causa dos jogadores (comunidade), nesse ponto, como experimento social, acho que, de alguma forma, existem maneiras de, num futuro próximo, aplicarmos algumas lógicas aos produtos que o mercado editorial pode vir a entregar, senão como core, como elemento (ou complemento). Isso ficará mais claro adiante;
  • Por causa do enredo: vamos lá, sci-fi e conspirações sempre estão em alta…

Leiam essa wiki do jogo, sério, eu espero

Particularmente, gosto muito dessa parte:
“Ingress tem sido objeto de estudo acadêmico sobre a relação entre regionalismo e globalismo, e o seu sistema de emblemas tem sido utilizado como um exemplo, em um estudo de caso de gamificação. Erin Stark argumenta que o sistema do jogo em que jogadores de indicam portais baseados em arte de rua está afetando os jogadores, criando um senso de lugar e de uma herança cultural mais flexível. Spanner Spencer, escrevendo pela PocketGamer, observou que não havia nenhuma maneira casual de jogar Ingress e que exigia dedicação e trabalho em equipe.

Ingress tem sido considerado como uma economia de doação, na qual os jogadores trocam datafication de sua localização física para o jogo.”

Pude confirmar, jogando por quase duas semanas, que realmente exige dedicação. A partir do momento que você se envolve na comunidade, o jogo te cativa e os limites entre ficção e realidade vão caindo.

Assim que iniciei o jogo, optando pela Resistência(!), recebi um chamado para entrar para o grupo de suporte para iniciantes no Telegram. Dias depois estava no grupo RJ, já trocando ideia e acompanhando as táticas e a agenda do grupo para tomar territórios dos Sapos (Iluminados). Fiz algumas missões e pude ver a dedicação e organização dos agentes (jogadores) em campo e online.

Deem uma espiada no vídeo abaixo para entenderem o tamanho e as mecânicas do jogo. Continuamos a seguir…

O jogo não se dá só nas telas de celular: se um portal ou link seu é atacado, você recebe, além de uma notificação, um e-mail com os danos sofridos, relatórios etc., além de missões, eventos mundiais (e regionais), existem ainda as confraternizações dos grupos após uma missão :P

Bem, agora que a mecânica e o tamanho do jogo estão claros, observem o Intel Map para entender o nível de planejamento e entrosamento tático da comunidade. Percebe, Ivair, o destaque vermelho…

ivair

— Ok, Hermida, tudo muito interessante, gostei do plot, li o wiki, vi esse lance da comunidade, embora tenha notado alguns exageros… aonde você quer chegar?

— Blz, calma, fica peixe, tô chegando já.

Apesar de lançado anos atrás o jogo mantém forte seu engajamento por parte dos usuários e, finalmente chegando ao ponto, pergunto: o que uma história busca de seu leitor/ouvinte/ou “o que quer que seja atualmente” em sua jornada? Pois é, engajamento. Na verdade, mais do que busca enagajamento, só se realiza plenamente a partir dele.

Muitas tecnologias hoje são acessíveis, abertas e demandam um investimento financeiro muito menor do que foi pouquíssimo tempo atrás e são capazes de transformar uma ideia em um produto relevante (vamos lá, gente, eu mesmo tenho umas duas ideias viáveis salvas aqui para assim que eu tiver tempo).

Vocês se lembram desse post da Marina? Então… não sei, talvez seja o caso de espalharmos as histórias por aí, deixar o leitor esbarrar nelas, ou melhor: deixá-las guiarem o leitor para lugares diferentes (literalmente em vez de apenas metaforicamente falando). Imaginem uma história onde um leitor precisa encontrar outro para preencher gaps propositais, ou uma história que mude de tom de acordo com a fase do dia ou o local em que está sendo lida…

O caso é que o livro, na verdade, o mercado editorial como um todo, com ou sem auxílio do GPS, precisa se posicionar e deixar de ser apenas reativo, parar de simplesmente buscar sucessos prontos (como youtubers) e mostrar que é uma indústria relevante. Nossa matéria prima, a palavra, é representação de ideias, não é possível que essas ideias (e no caso da literatura, muitas vezes, ideias atemporais) não encontrem eco nos dias de hoje. Não falo somente de aplicativos, embora seja impossível não falar também deles (o Rio de Machado é um excelente exemplo nesse sentido, assim como um bot do Machado seria um excelente tutor em tarefas escolares de literatura).

A minha questão não é sobre o e-book se bastar ou não como produto, pessoalmente acho que se basta, sim, e que permite um maior poder alcance do conteúdo, da mesma forma o impresso cumpre sua função. Também não estou preocupado com formatos, se o e-book já nasceu ou não anacrônico, etc.

Tampouco a minha escolha de jogo aqui se deu ao acaso. É um jogo que transporta video games para o mundo real, de mecânica e premissa simples mas que, ao menos para mim, trouxe insights de todo tipo (esse bot do Machado por exemplo).

O trabalho primário do editor nunca foi entregar livros, mas transportar conhecimento num invólucro, curar, encapsular e entregar. Portanto, essa é minha questão: como uma indústria calcada em ideias, devemos, sim, buscar outras formas de entregar (e integrar) essas ideias de maneira mais efetiva e atraente.

escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

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