Distribuidoras de livros digitais: o que está por trás de um caminhão de entrega?

Baixe como e-book

Há quase dois anos e meio, publiquei um artigo aqui no qual eu contava como, para surpresa das pessoas em geral e também das que dividiam comigo uma rotina de trabalho na editora Rocco, meu trabalho NÃO consistia em apertar botões que magicamente transformavam livros impressos em e-books. Expliquei no meu texto que, para fazer um livro digital, não basta abrir um arquivo no formato de texto, em pdf ou Indesign e apertar o comando “Salvar como”. Fazer um livro digital é um ofício que exige conhecimento técnico, boas noções de design e estética e uma pitada (ou quiçá um punhado) de apreço pelo trabalho editorial. Muitos textos foram escritos desde então por todos nós do Colofão – discutindo diversas questões sobre mercado, ensinando técnicas de produção, desmistificando a nossa rotina – e acredito que todos contribuímos para o desenvolvimento do livro digital no Brasil e para a evolução do mercado.

No início de 2016 eu fui contratada pela Bookwire, uma distribuidora de livros digitais, e me mudei para São Paulo. E foi com igual surpresa que novamente me deparei com aquele olhar de interrogação no rosto de todas as pessoas, fossem elas do mercado editorial ou não, ao ouvirem minha resposta para a frequente pergunta “mas com o que você trabalha mesmo?”. Depois de muitas respostas truncadas, encontrei um jeito bastante sintético de responder às inevitáveis dúvidas sobre o meu trabalho: fazendo desenhos com as mãos, para alegria dos meus antepassados italianos, eu conto que existem três personagens envolvidos no processo de venda de um livro digital. Em uma ponta está a editora, que produz o e-book. Na outra ponta, a loja (nesse momento, é sempre útil citar os nomes mais conhecidos: Saraiva, Amazon, Google, Kobo, Apple), que vende o e-book. No meio, ficamos nós, distribuidores, que fazem o livro chegar de uma ponta a outra. Alguma vezes a curiosidade do interlocutor é grande e eu consigo falar do trabalho de conversão, conto que algumas editoras, produzindo diferentes arquivos para o mesmo livro e desbravando os meandros de cada loja, entregam seus livros diretamente e, de quebra e com brilhos nos olhos, explico como funciona a incrível plataforma de gerenciamento de e-books com a qual eu lido diariamente.

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Em outras vezes, porém, a explicação das três personagens não funciona. Nesse momento, eu recorro à explicação de um dos meus colegas de trabalho: nós somos o caminhão. Sim, aquele caminhão de entregas responsável por recolher determinado produto na fonte na qual ele é criado/produzido e levar para a loja na qual ele será vendido. Quero aproveitar essa metáfora para falar um pouquinho mais sobre as distribuidoras de livros digitais. O trabalho de um caminhão parece simples, não é? Para a minha alegria diária e ocasional desespero, esse não é o caso. Pense, para começar, na complexa estrutura de logística que há por trás de quase todas as simples entregas de um caminhão: a) organização viária para economia de custos; b) estabelecimento de prioridades, definidas pelos clientes ou pelos produtos; c) horários de funcionamento de portarias e estoques; d) diferenças de prazos de validade e de fragilidade dos materiais… Eu entendo pouco do que está envolvido no trabalho de um caminhão de entrega, mas poderia continuar citando razões para ele ser bem menos simples do que parece. Agora transponha todo o raciocínio anterior para o universo digital (ou melhor, do livro digital) e você terá uma ideia do que surge na rotina de quem trabalha numa distribuidora de e-books:

a) Estrutura para envio de dados com segurança: eu lido diariamente com catálogos inteiros de dezenas de editoras e preciso fazer esse material circular na internet sem deixar que o best seller que será lançado daqui a dois meses caia nas mãos de algum site de pirataria;
b) Respeito aos prazos e às prioridades dos clientes: se determinado livro deve ser lançado daqui a dois dias, eu não posso permitir que determinada loja o coloque à venda hoje ou daqui a três dias;
c) Diferenças de formatos: os livros digitais podem ter diferentes formatos, mas nem todos são aceitos por todas as lojas. É necessário não apenas conhecer essas especificações, mas explicar para as editoras, por exemplo, por qual razão seu livro de layout fixo não chegará na Amazon (que usa um formato próprio e exige um outro arquivo no formato equivalente, o KF8);
d) Controle de qualidade dos arquivos e metadados: corrigir os arquivos antes do envio para garantir que ele chegue corretamente às lojas não é o bastante. Todas as lojas têm um controle de qualidade posterior ao início da venda que identifica erros de conteúdo no texto, aponta se o livro possui conteúdo inadequado para menores ou nos mostra, por exemplo, que a capa do livro está com um nome diferente do indicado nos metadados. Assim que recebo um aviso de problema com determinado livro, eu preciso atualizar os metadados ou corrigir o arquivo e subir uma atualização na plataforma.

Lidar com catálogos inteiros de livros, sugerir novas conversões de livros que ainda não possuem formato digital, propor campanhas de divulgação ou pensar, juntamente com os editores ou com as lojas, em ações que estimulem o mercado editorial para o livro digital são parte da minha rotina. E, assim como não existe botão mágico que produza um livro digital automaticamente, o trabalho por trás da entrega de um caminhão é muito mais complexo do que buscar e entregar um produto. Essa é a razão pela qual o trabalho com e-books, seja dentro de uma editora ou de uma distribuidora, é instigante e apaixonante.

escrito por Joana De Conti

Joana De Conti

Joana De Conti é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas se aposentou da vida acadêmica quando descobriu os livros digitais. Ela trabalhou por vários anos no departamento digital da editora Rocco. Ali, aprendeu quase tudo o que sabe sobre conversão de livros, participou de projetos editoriais lindos e produziu os e-books de muitos dos seus autores preferidos. Atualmente trabalha como assistente de contas na Bookwire. O cuidado com a qualidade dos metadados, com conhecer minuciosamente o catálogo das editoras e a preocupação com excelência e inovação nos arquivos dos livros digitais são parte da sua rotina. E ela continua trabalhando com os e-books de muitos dos seus autores favoritos.

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