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A revolução digital na era da inclusão

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Na primeira vez que li um livro digital, o que mais me chamou a atenção foi a possibilidade de se descobrir o significado de palavras desconhecidas com apenas um clique. Já minha mãe, que tem a vista cansada, ficou encantada com a possibilidade de aumentar o tamanho da fonte. Meu amigo, fã da volumosa saga As Crônicas de Gelo e Fogo, gostou da possibilidade de carregar todos na mochila, sem que isso fosse um passaporte direto para um ortopedista.

Recentemente, eu descobri que, para algumas pessoas, o livro digital concedeu uma possibilidade mais básica: a de ler. Explico: atualmente, há cerca de 39 milhões de cegos no mundo. Só no Brasil, 6,5 milhões de pessoas têm alguma deficiência visual grave. Além disso, 10% a 15% da população mundial é disléxica e, destes, 40% apresentam dislexia severa. Fiz as contas: isso equivale a mais de 400 milhões de pessoas que não podem ter o mesmo acesso que eu, que não tenho nenhuma dessas dificuldades, ao conteúdo de um livro. Isso sem contar com as pessoas que possuem alguma condição motora que impede o manuseio tradicional dos livros físicos.

Com o livro digital, ficou muito mais fácil produzir um livro lido em voz sintetizada (TTS). E não dá para não falar também dos displays braille. Esse objeto aí embaixo forma os relevos correspondentes ao braille, linha a linha, sem que se precise carregar um livro pesado. Isso é incrível, principalmente quando se lembra que um livro em braille é várias vezes mais grosso que seu correspondente tradicional.

A Bookshare, iniciativa mantida pela ONG Benetech, é a maior biblioteca acessível do mundo, com mais de 400 mil livros. Exclusiva para pessoas com alguma condição que impede o uso tradicional do livro escrito, a plataforma recebe os livros em formatos ePub 2 e 3 e os transforma gratuitamente em três formatos acessíveis: braille digital, áudio mp3 a partir de voz sintética e Daisy, um formato que permite que o livro seja lido em voz sintética ao mesmo tempo em que uma tela mostra o texto.

Apesar de a plataforma já ter uma base grande de livros, a imensa maioria está em inglês. O esforço, agora, é para encher a biblioteca de livros na quinta língua mais falada no mundo, o português. E foi aí que eu entrei na jogada.
Em maio, quando fui convidada para apresentar a Bookshare para as editoras brasileiras, comecei a entrar nesse mundo até então desconhecido da acessibilidade e busquei entender mais a diferença entre os conceitos de inclusão e integração. A premissa básica do conceito de inclusão é de que a sociedade seja igualmente acessível a todos, enquanto a integração prevê que a sociedade aceite indivíduos que consigam se adequar, fazendo apenas os menores ajustes, como, por exemplo, “até” aceitar uma criança com deficiência mental, mas só se se ela conseguir acompanhar a turma.
Todo o projeto da Bookshare foi pensado para se adaptar às diferentes condições de seus usuários. Até a fonte usada no leitor padrão web da plataforma foi estudada para aumentar a fixação pelas pessoas com dislexia. O uso do formato Daisy também possibilita que se altere a velocidade da leitura falada pela voz sintetizada – e essa voz também pode ser alterada! E, como o processo é totalmente computadorizado e de baixo custo, os livros ficam disponíveis rapidamente na plataforma. Tudo para otimizar a experiência de leitura e facilitar a apreensão do conteúdo pelo leitor.

Termino este texto com a frase “a inclusão é para todos, porque todos somos diferentes” que tirei do portal Deficiente Ciente. Ainda falta um tanto, mas estamos caminhando para o momento em que o conteúdo do livro – seja ele em formato físico, digital ou digital acessível – estará disponível ao mesmo tempo para todos.


(Se você quiser que seus livros estejam disponíveis na Bookshare, pode mandar um e-mail para juliak@benetech.org)

escrito por Júlia Kastrup

Júlia Kastrup

Júlia Kastrup é formada em Produção Editorial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de passar pelas áreas de editoração e revisão, se apaixonou pelo livro digital. Hoje, espalha a palavra da acessibilidade através do digital e sonha com a real democratização da leitura.

3 comentários sobre “A revolução digital na era da inclusão

  1. Julia,
    Parabéns por chamar atenção para o problema dos deficientes visuais.
    Para além do Bookshare, o epu3 abre o espaço para o formato livro acessível, inclusive com as características exigidas pelo MEC. Dê uma olhada no site da Dorina Nowill para ficar mais por dentro disso.

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