De novo: o livro digital não morreu

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Quem costuma ler notícias sobre o mercado editorial já deve ter acompanhado a polêmica causada pelo texto Um e-book de fracasso, publicado na última terça-feira no PublishNews. Basicamente, o colunista Paulo Tedesco argumenta que os e-books se mostraram uma grande decepção para editoras e autores, dadas as limitações do modelo de negócios e a estagnação do mercado.

Não me proponho aqui a rebater os pontos levantados por Tedesco, uma vez que sua coluna já gerou bastante discussão (inclusive com uma resposta rapidíssima e bem completa do nosso colaborador André Palme no próprio PublishNews) e que, pessoalmente, considero essa guerra entre os formatos digital e impresso uma questão um tanto batida. Ainda assim, correndo o risco de me repetir – porque já falei sobre isso aqui no fim do ano passado, quando começaram a pipocar as notícias sobre a estagnação das vendas de e-books lá fora –, acho que vale aproveitar o momento para examinar com mais atenção o que está acontecendo no mercado e o que podemos fazer diante deste cenário.

Embora a coluna de Tedesco traga poucos dados e muitos exageros, é fato que as informações oficiais sobre as vendas de e-books nos países em que este mercado já é mais maduro – como EUA, Reino Unido e Alemanha – têm se mostrado decepcionantes de 2015 para cá. Com uma ressalva: estes dados referem-se apenas a e-books publicados de maneira tradicional, por editoras, e portanto não dão conta do mercado independente e de outros modelos de negócio (como o de e-books por assinatura, que permanece um mistério em termos de popularidade junto aos leitores e rentabilidade para editoras e autores). O que percebemos como uma queda das vendas em geral seria, então, uma perda de mercado das grandes editoras – geralmente atribuída aos preços praticados por elas ou à sua falta de interesse no formato digital – em relação aos autores autopublicados. Pesquisas independentes, com destaque para os relatórios do site Author Earnings, ajudam a iluminar um pouco este panorama, já que, como nenhum dos grandes players divulga seus números de vendas, qualquer coisa mais precisa do que uma estimativa mais ou menos informada é impossível. A Nielsen também já se propôs a analisar o mercado digital americano de forma mais ampla e de fato concluiu que, entre 2014 e 2015, os autores independentes ganharam território – mas às custas das editoras pequenas e médias, e não das chamadas Big 5, cuja participação nas vendas totais também cresceu no período.

Este pequeno resumo que não chega a nenhuma conclusão definitiva serve para mostrar o quanto são confusos, conflitantes e incompletos os dados de que dispomos no momento (e isso nos EUA, onde diversas organizações já vêm tentando compilar informações sobre o mercado digital há anos; no Brasil, a situação é ainda mais precária). É por isso que considero tão interessante a pesquisa recente do Codex Group sobre os hábitos de consumo de compradores de livros. Na falta de dados sobre vendas, eles foram atrás das compras, entrevistando 4992 compradores de livros sobre suas preferências. A conclusão foi que os e-books – em geral, não importa se publicados por uma editora ou não – representaram, em média, 32,4% dos livros comprados, contra 35,9% no mesmo período do ano passado.

De cara, chama a atenção a diferença significativa entre este número e a participação dos e-books no mercado estimada pela Association of American Publishers, que ficou em 20% em 2015 (ainda que, para este cálculo, a AAP leve em conta o faturamento e não o número de unidades vendidas). Isto indica que os e-books podem, de fato, ter presença mais forte do que os números oficiais levam a crer. Por outro lado, a queda da participação do digital entre 2015 e 2016, ainda que pequena, sugere que a situação não é tão simples quanto “crise nas editoras x sucesso estrondoso dos autores independentes”.

Outro dado interessante da pesquisa é a possível causa apontada para a desaceleração do mercado de e-books nos EUA: a fadiga digital. Com uma média de quase cinco horas diárias passadas em frente a telas para uso pessoal, 25% dos entrevistados disseram que gostariam de passar menos tempo usando seus devices. A porcentagem é ainda maior entre os jovens de 18 a 34 anos (37%).

Embora esta última conclusão pareça não ser das mais animadoras, também aqui não vejo motivo para dizer com certeza que o e-book não possa retomar o seu crescimento. Afinal, embora digam querer diminuir este hábito, o fato é que os entrevistados efetivamente passam quase cinco horas diárias em frente aos seus computadores, tablets, smartphones e e-readers. Mesmo que fragmentado ao longo do dia, é um período de tempo bem significativo, provavelmente dividido entre diversas atividades, muitas das quais envolvem leitura – de notícias, artigos, e-mails, posts em blogs, redes sociais e, por que não, de livros.

Na falta de indicadores definitivos sobre o mercado, pesquisas como esta dão pistas importantes para pensar sobre como engajar novos leitores: com conteúdo fragmentado, adequado a intervalos menores de tempo? Com conteúdo por assinatura, eliminando o obstáculo de ter que fazer um pagamento toda vez que se quer ler alguma coisa? Com marketing de conteúdo, oferecendo pequenos textos, trechos de livros ou outras mídias para atrair leitores para uma compra posterior de um livro? Com um novo formato e/ou modelo de negócio que ainda não encontramos? Os desafios são grandes, e pode ser que o modelo de livro digital que temos hoje não seja o ideal para enfrentá-los. Trabalhar para aperfeiçoá-lo, amadurecê-lo e pensar em alternativas me parece uma postura mais produtiva do que decretar o seu fracasso.

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

9 comentários sobre “De novo: o livro digital não morreu

  1. Fico imaginando a quantidade de eruditos que no século XV reagiu à disseminação do livro após a invenção da prensa de Gutenberg. Mesmo havendo ainda pouca gente alfabetizada, devia ser estranho pensar na Bíblia podendo ser lida inteira por alguém que não fosse um monge recluso e dedicado a essa atividade. Será que nessa época houve uma retração de venda de livros que motivou um comentário tipo “isso mostra que o livro impresso em tipos móveis é uma moda que logo vai ser esquecida”? Acho que, assim como aconteceu no século XV e em outras épocas (e com outros produtos além do livro), estamos agora numa fase de transição, sem saber para onde essa transição vai levar. O futuro nunca está aqui, é sempre uma abstração, uma fantasia. Quem trabalha com novas mídias vai ter que seguir imaginando novos modelos, experimentando, pondo em prática ou descartando. E do outro lado do balcão (expressão ultrapassada?), o público vai seguir experimentando seus próprios modos de desfrutar da palavra escrita. O uso de dispositivos dedicados exclusivamente à leitura, por exemplo, é coisa nova. Pode ser que as pessoas se acostumem a dividir a atenção entre esses dispositivos e aqueles que dispõem texto, imagem, sons. Pode ser que a palavra escrita se dilua definitivamente no caldeirão da multimídia. Estamos todos ainda entrando nesse mar. É questão de saber pegar as ondas que levem mais longe. Mas até onde o movimento das ondas é previsível?

    • Paulo, obrigada pelo comentário! Para mim esse “pode ser que…” é a chave mesmo. Só vamos saber o que funciona ou não se continuarmos experimentando e prestando atenção no mercado :)

  2. Discordo totalmente quanto à decepção com os ebooks. No meu ponto de vista o problema está nas grandes editoras que não exploram todos os recursos que um ebook pode oferecer. Elas simplesmente convertem o texto do livro impresso em livro digital. É horrível ler um ebook nestas condições mesmo. E cobram caro demais porque não pensaram em uma estrutura interna própria para criar ebooks. Aí fica inviável, lógico. Mas ebooks criados para serem ebooks, com os recursos de um epub, por exemplo, bem aproveitados, inserindo links para vídeos, músicas, animações, jogos etc e com aproveitamento adequado da tela para que o texto tenha um tamanho confortável aos olhos, e preços justos (!) terão seu mercado garantido! Quanto ao tempo gasto frente a uma tela, troco minha hora no metrô ou ônibus nas redes sociais pela telinha de meu celular por um bom ebook que me instrua e me distraia. E tenho certeza de que não estou sozinha nessa….

  3. Um texto de quem realmente conhece do assunto (daí a conclusão inevitável, “ainda não sabemos ao certo até onde os e-books irão”, pois que não sabemos mesmo)…

    Outra coisa que muita gente não parou para pensar é que hoje em dia temos tanto os “editores de si mesmos”, que autopublicam suas próprias obras, quanto os “editores e tradutores de autores clássicos”, que autopublicam obras em domínio público.

    Eu mesmo me enquadro nas 3 categorias acima. Não desconsidero um dia viver somente disso (se pudesse publicar na Google Play e Apple Store sem abrir empresa, já estaria bem perto disso).

    Abs!
    raph

  4. Concordo com a Regina Fernandes. Estou desenvolvendo EPUBs de layout fixo com animações para o publico infanfil. O problema é a distribuição, pois as grandes editoras simplesmente so aceitam arquivos de texto. Estou conversando com os autores pra fazermos a divulgação/distribuição totalmente independente (ecommerce, redes sociais, videos promocionais no youtube, etc).
    O maior problema é a quantidade de devices e suas limitações, mas a maioria dos app para livros digitais suportam essas animações e interações. Realmente as editoras não exploraram tudo que o formato EPUB tinha para oferecer.
    Ótimo texto

  5. Sou leigo – embora entusiasta, dos livros digitais. Possuo dois aparelhos Kindle e Lev. Acho bobagem compará-los uma vez que, cada um, a seu modo, atinge a contento o seu público consumidor…
    O que me incomoda, sinceramente, é o cuidado – ou falta de – ao finalizar um ebook. Na minha simples concepção, um livro impresso é um texto, digitado – alguém ainda usa lápis e papel quando o oferece às editoras? – que passa por N revisões antes de ser publicado. E não o contrário. O que explica, então, a quantidade de erros de edição, divisão silábica e diagramação nos ebooks inclusive dos grande editores/distribuidores? Seria uma autofagia direcionada? Assim, fica fácil fazer profecias apocalípticas sobre a leitura digital que, no meu caso, transformou um (leitor???) de meio livro/ano para um consumidor ávido que está no seu 16º livro, até o momento, só em 2016.

    Parabéns, Marina Pastore, por lançar uma luz sobre essa discussão.

  6. Texto excelente.
    Sei bem como é isso – já escrevi posts e mais posts sobre essa discussão – e também o fato dela ser uma comparação um tanto quanto sem necessidade.
    Leio desde meus 6 anos e meio, tento manter quase que sempre uma média consistente de 2 livros por mês. Comprei meu primeiro e – reader recentemente (2012, sendo mais exato), já estou no meu segundo e digo que, minha taxa de leitura – já considerada acima do padrão – só aumentou desde a primeira compra.
    Além disso, para quem procura variedade, e também livros internacionais (meu foco, no caso), é mais que recomendado.
    Sem falar nas finanças – aí vira até covardia, convenhamos.
    Reitero, texto muito bem elucidado.

    (Difícil esperar menos de uma fã de Calvino, off course.)

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