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Publicações digitais independentes e as relações na era tecnológica

Baixe como e-book

Se tem algo que eu simplesmente amo na internet é seu poder transformador. É impressionante o quanto a tecnologia tornou propício o compartilhamento do conhecimento, e eu acho particularmente lindo o fato da própria internet ter nascido de conhecimento compartilhado.

Mas, tentando não me prolongar na face filosófica da internet e focar no propósito deste texto, acho particularmente bela a forma como a tecnologia descentraliza o poder, antes retido às grandes empresas, e proporciona maiores possibilidades para os indivíduos, ou, como gosto de falar, os reles mortais, que querem poder escolher o que assistir na TV e quando assistir, que querem um serviço de transporte particular com maior qualidade, querem a opção de ler notícias que não sejam filtradas por setores de mídias com interesses próprios ou simplesmente querem que seu livro, rejeitado por diversas editoras, seja lido por alguém, mesmo sem uma edição bonitona hard cover que faz qualquer um chorar de felicidade.

Sejamos sinceros, essa coisa de dizer que os e-books transformaram o mercado editorial porque possibilitaram a autopublicação é um pouco distorcida. A verdade é que autopublicação existe há séculos, tanto que existem ótimas editoras que vendem serviços editoriais para torná-la mais fácil e mais profissional.

A relação não é tão simples assim. A grande verdade é que a tecnologia está redefinindo diversas relações sociais, econômicas e culturais, e o mercado editorial é apenas um personagem secundário nessa linda história de amor entre a tecnologia e a sociedade.

E o que muitos não notam é que não foi tanto o e-book e sim a internet que deu esse empurrãozinho de que a autopublicação tanto precisava.

A distribuição costuma ser a grande responsável por essa visão distorcida de que o encarregado pela mudança foi o e-book e não a internet. É fato, o e-book proporcionou uma forma de publicação imediata, com canal de vendas e com investimento irrisório, se comparado ao necessário para produzir uma tiragem impressa.

Isso sem contar que é de interesse das grandes players que autores se publiquem de maneira direta, pois assim elas se tornam mais independentes das editoras através de seu conteúdo “próprio”. A troca é simples, o autor perde alguma autonomia, podendo ser maior (como no caso do KDP Select, no qual é dado exclusividade de conteúdo) ou menor (contratos padrão) sobre seu conteúdo para acessar a base de usuários da plataforma. É justo e eficaz.

Mas se pararmos para pensar, não é tão independente assim, não é? No fim das contas ainda é assinado um termo legal cujas regras são pré-definidas, e cabe ao autor ponderar se estão ou não dentro do que ele está buscando. O autor está transferindo a perda de sua autonomia, que antes era dada em troca do suporte da editora, pelo suporte da player, obviamente com benefícios e desvantagens completamente diversas.

Claro, existem outras plataformas que são mais focadas nos autores, como o Wattpad (que infelizmente teve sua proposta desvirtuada pela quantidade de pirataria publicada por lá) e o Widbook, que segue com uma proposta bem similar ao Wattpad e, no entanto, fechou parceria com a Kobo, caminhando para se tornar um canal de vendas, de forma que agora é possível fazer um cadastro Premium no qual os autores podem colocar seus livros à venda, além de outros benefícios, em troca do investimento R$7,99 ao mês.

Outro ponto que foi modificado pela internet – e, esse sim, acho que causou uma grande inversão de papéis – é o da divulgação. Com youtubers e bloggers com mais de milhões de seguidores, são as editoras que fazem propostas para se beneficiar com a base dessas personas virtuais.

A editora, portanto, teve que se reinventar um pouco, pois ela precisa apresentar alguma moeda de troca, que geralmente é a relação ganha-ganha de “eu tenho base de leitores” X “você tem base de telespectadores”. São diferentes tipos de mídia com diferentes formas de penetração, mas a verdade é: você publica o sucesso do YouTube, ele entra na lista de mais vendidos. Isso é bom para a editora porque ela entra na lista e é bom para o youtuber porque ele ganha MAIS seguidores, pois ainda tem muita gente que não conhece o seu trabalho.

O que foge muitas vezes de visão quando se fala em autopublicação é o fato de que existem formas mais autônomas de arrecadar fundos para tornar sua obra pública. Um exemplo bem comum são projetos financiados pelo Kickstarter ou Catarse. Dois exemplos que sempre cito são o A long way to a small angry planet, da magnífica Becky Chambers, e o Toureando o Diabo, da Clara Averbuck.

A parte linda é que essas publicações passam a ter entrada em premiações e serem reconhecidas inclusive pelas editoras como formas de encontrar novos talentos. A própria Becky Chambers, que foi abrigada pelas casas editoriais Hodder & Stoughton e pela Harper Voyager, entrou em lista de prêmios como Arthur C. Clarke, Kitschies e Baileys (precisa dizer que sou fã dela?).

Para melhorar essa belezinha, há também projetos como o Ninhada, que visa criar um novo canal de relacionamentos entre colaboradores no meio editorial. Pode lembrar um pouco a proposta da e-Galáxia, mas talvez com um caráter mais descentralizador do que esta, pois puxa mais para o viés colaborativo.

Um modelo muito comum são revistas literárias online, que servem como canal para novos autores serem descobertos, especialmente no meio literário e não-ficcional. Encontramos inúmeras revistas de publicações autônomas, que muitas vezes nascem no digital e, através de sua base de usuários, angariam uma edição impressa, como foi o caso da Pólen.

Há também a possibilidade de surgimento de novos meios de distribuição que criam também novas experiências de leitura, como o Editions at Play e a plataforma do Facebook que já está sendo explorada no meio editorial brasileiro.

Essas novas propostas, seja de narrativa ou de modelo de publicação, estão ganhando espaço não só no mercado como também nas premiações. Enquanto, no Brasil, o Jabuti abre categoria para livros digitais infantis, a shortlist do Arthur C. Clarke já apresenta apps e livros que surgiram de publicações independentes via crowdfunding.

Eu sempre questiono as previsões apocalípticas de que o e-book vai acabar com o mercado editorial como o conhecemos, principalmente, porque geralmente as pessoas se referem ao famigerado “fim do papel”. E, apesar da recente onda contrária de “era tudo brincadeira, essa coisa de e-book nunca ia dar em nada mesmo”, eu acredito bastante no poder transformador da tecnologia. As nossas relações sociais, econômicas e culturais já estão se modificando e é questão de tempo para que isso se enraíze em diversos mercados, além do editorial. Negar isso é apenas adiar o inevitável.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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