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Autopublicação e marketing redefinem nossa relação com os livros

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Fabrício Carpinejar está lançando um novo livro de poemas. A obra não passou por revisão, edição, ou tratamento digital. É totalmente datilografada e inclui até os rabiscos e rasuras do autor.

O escritor gaúcho ganhou de presente, em seu aniversário, uma máquina de escrever Olivetti. Desde então, passou a escrever poemas de amor na dita máquina. Conforme a descrição do livro na Saraiva, intitulado Amor à moda antiga, os poemas são publicados pela editora Belas Letras “exatamente como os originais foram enviados à editora, em maços de papel despachados pelos Correios, sem nenhum tipo de correção ortográfica, edição ou retoques, inclusive com as próprias anotações à mão feitas pelo próprio Carpinejar.” O resultado seria “um livro orgânico, singelo e apaixonadamente imperfeito, exatamente como o amor é”. A obra, com preço sugerido de R$ 24,90, está em pré-venda na Saraiva por módicos R$ 19,90.

Vestir o figurino do autor mambembe, que faz xerox das poesias para vender na faculdade, nos barzinhos, tem seu lado romântico. O livro-xerox já foi um caminho bastante comum para autores sem grana distribuírem sua literatura por aí. Até tem um ar retrô, vintage, tão na moda atualmente.

Só que Carpinejar não é um autor mambembe, nem está oferecendo um xerox na mesa do bar. Carpinejar é um autor consolidado, com espaço cativo na mídia (raridade, e mérito dele). O seu livro é um simulacro de livro-xerox, como é um punk de boutique, uma geladeira retrô da Brastemp ou um New Beetle da Volkswagen: algo com verniz chamativo, mas de resto, tão comum e ordinário quanto os outros. E você pode comprar online e receber em casa (não o punk, claro; mas o carro, sim). Tudo indica que Amor à moda antiga é uma excelente obra — de marketing, garantidamente! — que se vale de um verniz da moda, da hora, para atrair compradores, mais do que leitores. O lançamento chega bem a tempo do Dia dos Namorados, proporcionando um presente bonitinho e original para os amados, literatos ou não.

A autopublicação está tão bem conceituada atualmente, inclusive com vendas ascendentes em formato digital, que uma editora se permite “dispensar” o processo editorial para obter um ar de “autopublicação” e ainda dá destaque a isto, como chamariz. Uma tremenda ironia, porque a autopublicação está proporcionando uma transformação em todo o planeta. Autores desconhecidos dispõem de uma grande variedade de serviços profissionais (para capa, revisão, edição, leitura crítica, diagramação, publicação…) cada vez mais baratos, que permitem aos autores publicar obras com qualidade idêntica à de uma editora, gastando uma fração do que precisariam gastar antigamente para publicar. Ora, se os “amadores” se vestem de “profissionais”, o que resta então aos profissionais? Fazer o caminho inverso e adotar o “amador” como um figurino cool, mostrando (ironia ligada) que é possível escrever de forma pura e intocada, sem a interferência fria e objetiva das editoras… Para quem vive no mainstream, como é o caso de Carpinejar, isso faz todo sentido. Se até os discos de vinil voltaram, por que não as velhas máquina de escrever? Seguindo assim, qualquer dia veremos o novo livro, de autor-velho-conhecido, em edição caprichosamente mimeografada.

Em um país onde só 30% das pessoas gostam muito de ler, é desafiador publicar livros e conseguir boas vendas (Retratos da Leitura 2016, página 1). O conteúdo da obra literária vai ficando em segundo, terceiro plano, ofuscado pelo potencial mercadológico dos autores e sua penetração na mídia — tradicional, como no caso de Carpinejar, ou eletrônica. A quantidade de blogueiros (até uns anos atrás) e youtubers (mais recentemente) publicados pelas editoras mostra o quanto a estratégia de marketing avançou sobre a escolha do que deve ser publicado. A base de seguidores do autor, o potencial de exploração desta base, o desejo dos seguidores em possuir um pedaço (ainda que simbólico) dos seus ídolos, pesam muito mais. Enfim, a inserção do livro, como produto, sempre se deu dentro de um contexto. A diferença hoje é o grau de domínio do marketing sobre todas as etapas do livro, um domínio tão acachapante que termina determinando o próprio conteúdo.

Ninguém conceberia publicar um romance sem fazer revisão e edição, menos ainda nas páginas datilografadas originais e rabiscadas pelo autor, por melhor que fosse o texto, ou mais grandioso o autor. Poesia, sim. A poesia, essa Geni da literatura, curta e humilde, se prestou muito bem ao lance marketing (quem diria). Minha recomendação a todos os aspirantes a escritores: matriculem-se em uma faculdade de comunicação social (e se for possível, com ênfase em publicidade e propaganda). Apropriem-se da linguagem e das ferramentas do marketing. Aprendam a pensar o livro como um produto. Suas chances de conseguir publicação em boas editoras aumentarão consideravelmente. Como tantos outros autores, Carpinejar não é só um escritor malucão – ele também é jornalista.

escrito por Eduardo Melo

Eduardo Melo

Graduado em História pela UFRGS e mestre em Letras pela PUCRS, trabalha desde 2007 com ebooks. É diretor da Simplíssimo, empresa pioneira na produção de ebooks no Brasil, e do serviço de autopublicação Revolução eBook. Também comenta o mercado do livro digital e suas novidades no blog eBooknews.

3 comentários sobre “Autopublicação e marketing redefinem nossa relação com os livros

  1. Revisores cobram caro e nem sempre são realmente “revisores”… Quem vende na Amazon, sabe que precisa de vendas de vários meses só para pagar este tal de revisor.
    Como ficam os eBooks técnicos, onde eu acho que o conteúdo técnico e didático é mais importante do que “pequenas escorregadelas” no vernáculo?
    Uso uma linguagem coloquial, como se estivesse conversando com o leitor e dando maior fluidez ao texto.
    É válido?

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