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Cobrar do colaborador é fácil… mas, ops!, me esqueci de pautá-lo

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No mundo dos livros, acho que é raro o assistente editorial que não faz freela de texto. Especialmente quem está começando. A maior motivação, claro, é o dinheiro. Pensando no médio prazo, no entanto, o maior benefício do freela é o networking. Se você faz um bom trabalho, seu nome é indicado para alguém que estudou com alguém que já trabalhou com alguém e assim por diante. Isso rende não apenas mais freelas, como também indicações de vaga no futuro.

Comigo não foi diferente. Eu ainda era estagiária na Record e já fazia revisão para a Ediouro e a Nova Fronteira. Após algum tempo no mercado, um dia alguém veio me oferecer um cópi. Opa, um avanço! Isso já faz bem mais de dez anos e não é diferente de hoje em dia: todo mundo está atrás de um bom cópi.

E como o revisor é “promovido” a cópi?

Segundo alguns editores, copidesques devem se preocupar mais com a fluência e o estilo do texto do que com as questões gramaticais. Então o que acontece na prática é: você tem aquele revisor que não segura a mão e, além de fazer o trabalho dele de corrigir erro de português, sempre acrescenta sugestões para “melhorar” o texto. (Um parêntese: melhorar o texto é algo relativo e subjetivo, mas isso é assunto para outro post.) Ele já tem o manual de estilo da editora, ou seja, já sabe se deve padronizar “dez” ou “10”, “rua” ou “Rua”. Ele já “melhora” mesmo o texto. Um dia você pergunta se ele topa copidescar um livro, ele diz que sim e pronto, aí está seu novo cópi.

Lindo, não é? A editora conseguiu um novo copidesque, o freelancer conseguiu um trabalho com melhor remuneração (a lauda de cópi costuma pagar o dobro da lauda de revisão), todo mundo saiu ganhando. Até que um dia o editor acha que o cópi não fez o trabalho direito, não pesquisou o título de todos os livros já publicados no Brasil, não consertou aquela frase truncada, não pesquisou os nomes de personagens históricos ou de cidades com tradução consagrada. Por que isso acontece? Por falta de pauta. Vamos a uma historinha:

Um dia Joãozinho ofereceu a Mariazinha o copidesque de um livro. Não disse qual era, só deu o número de laudas e o prazo. Mariazinha aceitou e, quando o livro chegou, era um livro religioso. Ela abriu o arquivo e logo começou a cotejar. Depois de um mês de trabalho, feito com o mesmo amor e carinho de todos os outros trabalhos, o cópi foi entregue. Uma semana depois, Joãozinho manda um e-mail para Mariazinha: “Infelizmente seu cópi não ficou bom. O livro tem vários trechos da Bíblia, e a Bíblia usa segunda pessoa. Você não conferiu a Bíblia. Você não fez o seu trabalho direito. Você está cortada.”

Então, isso aconteceu comigo. Joãozinho era, na verdade, um amigo meu, então a mensagem foi bem mais gentil que essa acima. Mas, na prática, foi isso. E por que isso aconteceu? Primeiro, por falta de experiência minha. Eu havia aprendido que precisava conferir trechos de traduções consagradas publicadas no Brasil. Mas eu também sabia que existem várias versões da Bíblia. Então, como não tinha jeito de adivinhar qual o tradutor tinha usado, não me preocupei em conferir nenhuma. Segundo, esse deveria ter sido o trabalho do tradutor, não? Então, na verdade, o problema aconteceu principalmente porque o editor não pautou nem o tradutor nem o copidesque — e isso, acreditem, é praxe no mercado editorial.

Ué, mas o tradutor e o copidesque e o revisor não sabem qual é o trabalho deles? Sim e não. Tipo, um arquiteto sabe desenhar planta de casa. Mas, se você não disser para ele que quer três quartos, não pode reclamar se ele entregar uma casa com dois. Ah, mas na conversa com o arquiteto eu vou dizer que quero três quartos, e isso não vai acontecer. Pois é, no mercado editorial, raramente colaboradores de texto são pautados. Então, por mais que um tradutor saiba traduzir e um revisor saiba revisar, esses profissionais precisam de uma pauta do editor sobre aquele livro.

Para o tradutor, por exemplo, o que se espera do texto: Ó, o original é duro, a gente só comprou porque a trama é boa e tem chance de virar best-seller. Ou: Então, o livro é bastante poético, cheio de aliterações; se precisar, pode alterar o conteúdo para preservar a sonoridade. Ou ainda: Putz, tem esse personagem com sotaque, mas não quero que ele pareça um mineiro falando. Vamos pensar juntos em uma solução?

Se o trabalho de pesquisar nomenclaturas é do tradutor, o copidesque deve ser avisado caso precise fazer essa pesquisa. Acaba que alguns cópis mais experientes também fazem isso, porque não conhecem o histórico do livro, mas não é contraproducente ter duas ou três pessoas fazendo o mesmo trabalho? Pior ainda: um acha que é trabalho do outro e, no final, ninguém faz. Se tivessem me pedido “Coteje os trechos da Bíblia com a Bíblia de Jerusalém”, assim eu teria feito. Provavelmente o tradutor também.

O problema é que livro vem, livro vai, colaborar novo começa, colaborador antigo é cortado, e o editor nunca explica para o colaborador o que espera do freelancer para não cortá-lo. É inusitado que, em um mercado em que todo mundo tenha tanta desenvoltura para escrever, seja tão complicado escrever um e-mail para pautar o que você precisa que cada profissional faça.

escrito por Liciane Corrêa

Liciane Corrêa

Na infância, um dos livros preferidos de Liciane Corrêa era O mistério da fábrica de livros, mas foi só na época do vestibular que ela descobriu o curso de Produção Editorial. Nos catorze anos em que trabalhou em editoras, produziu livros de medicina, foi produtora gráfica de livros de arte e teve o prazer de editar Rick Riordan, John Green e Stephen King. Hoje trabalha em casa, de chinelo, traduzindo e produzindo festas.

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