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Nuke – ou: fazer livros não é como fazer sabonetes

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Com o lançamento do novo Nook (Barnes & Noble), é inevitável – ao menos para mim – não pensar, com certo receio, na perda de autonomia que as editoras vêm enfrentando diante do mundo digital.
Celebrações e receios à parte, podemos reduzir as perspectivas da área a duas: empresas ligadas à cadeia produtiva do livro e empresas de tecnologia.
Ambas possuem suas próprias especificidades, pontos fracos e fortes, e o que deveria, em um mundo ideal, ser uma coligação entre suporte tecnológico e conteúdo apresenta-se, na verdade, como uma colisão de interesses.

É difícil para um editor (ou livreiro) não se imaginar pequeno diante de, não uma, mas de todas as gigantes da tecnologia atuantes no ramo, operando e viabilizando o mercado de livros digitais do Brasil.
E isso é explicado pelo fato de as editoras se enxergarem como indivíduos de estrutura frágil e mortal1 diante dos gigantes de silício.
Isso se dá pela própria natureza do negócio, e é um fato que pode ser acentuado pelos problemas estruturais relacionados à leitura em nosso país. Em contrapartida, os livros digitais encontram um potencial público consumidor atraído pelo fetiche tecnológico.

O mercado, em linhas gerais, funciona de maneira predatória, e isso se evidencia de forma mais aguda quando pensamos em empresas globais de tecnologia.
Para as editoras, a perda de autonomia entre estoque e cliente é apenas a ponta do iceberg e fato que não deve ser simplificado a um acréscimo de ponto de venda com outros “atravessadores”, concorrentes diretos das livrarias.

Para além da distribuição, a perda de autonomia das editoras, hoje, se dá numa escala muito mais íntima: na perda de autonomia sobre seu produto. Produto este que vem sendo refinado e experimentado pelos editores ao longo de séculos.

Antes do advento do livro digital, o produto livro podia ser pensado internamente baseado em custos, projeções e perspectivas. Essas variáveis, em conformidade, norteavam sua esteira produtiva.
Com o digital, por se inserir em um mercado ainda não consolidado, podemos cortar as perspectivas de lucro, por exemplo, mas não os custos fixos, o que, de certa forma, faz com que cada título lançado soe como uma aposta incerta.

Os players brigam entre si por visibilidade e interesse do usuário-leitor, e isso se reflete diretamente nas imposições sobre como esse produto chegará às telas desse cliente hipotético.
Por exemplo, temos o IDPF, órgão regulamentador dos padrões para o formato epub. Em teoria, as empresas pensam seus softwares de leitura segundo as especificações desse formato. Na prática, essas empresas impõem seus próprios padrões proprietários, prática comum de empresas de tecnologia para eliminar a concorrência “amarrando” os usuários através da criação de dependência2 (o usuário dificilmente se enxerga como responsável pelo sustento das grandes empresas; no geral, enxerga-se apenas como “mero usuário”).

A fórmula simplificada para a criação e manutenção dessa dependência funciona da seguinte maneira:
→ um app supre certas demandas (às vezes inexistentes até então) de um grupo de usuários → esse app se populariza → em pouco tempo, se estabelece como padrão, gerando dependência em algum nível.

No caso de apps de leitura, se você tem toda sua biblioteca em um app, dificilmente vai querer migrar para outro, uma vez que seus e-books estão, geralmente, vinculados à loja.
Em alguns casos é possível migrar, mas o trabalho e a dor de cabeça (como perda de anotações e marcações, sem contar o tempo que isso leva) são fatores determinantes para que uma migração não seja feita e a relação de dependência seja mantida.

Assim, chegamos ao ponto em que nosso produto final é imposto pelos padrões de cada empresa. Elas não dizem que padrões são esses, mas definitivamente sabem o que é melhor para você, mero editor, que apenas fornece o conteúdo.

Por que iniciei este artigo
falando do novo Nook?

No último ano, quase toda notícia sobre a Barnes & Noble aponta para seu fim, frisando, em alguns casos, o fato de que ela (a empresa, nativamente livreira, não tecnológica) não é um concorrente à altura dos gigantes da tecnologia.

O que está subentendido nisso quando os artigos relacionados são, geralmente, sobre livrarias fechando as portas?
Fácil ligar os pontos, certo?

Não estou vendendo o Nook aqui, mas gostaria de apontar uma única característica diferencial dele e seu contraponto.

O Nook, desde sua primeira versão, tem, entre as opções de formatação de texto, a “Publisher defaults” – que, vejam bem, respeita as normas do IDPF e ajusta o layout de acordo com o que foi definido pela editora. Coincidentemente, como já foi dito, a B&N é a única empresa – dentre as que estão no páreo norte-americano – cujo negócio é originalmente baseado em livros, ou seja, que possui de fato uma relação com as editoras e seu produto final e, consequentemente, conhece as peculiaridades que envolvem esse produto (que ainda tem caráter sacro, queiramos ou não).

“Fazer livros não é o mesmo que fazer sabonetes”, diria meu professor, Anibal Bragança.

A justificativa das empresas para a supressão de um layout pré-definido em detrimento de outro, que sobrescreve (deliberadamente e sem deixar opções) o projeto definido pela editora, é dar liberdade ao usuário para utilizar a fonte e formatação que preferir. Justificativa esta que se contradiz ao eliminar a possibilidade de escolha pelo padrão da editora.

Bem, talvez pudéssemos decidir o que é melhor para nossa relação “produtor → produto → cliente” se fosse uma via de mão-dupla ou, pelo menos, mais transparente (na relação “o que enviamos X o que é entregue”). Todavia, para isso precisaríamos ter alguma coerência (e documentação), por parte dos players, entre o padrão anunciado como suportado e o padrão real imposto, que é muitas vezes modificado ainda com a aplicação de DRM.

Diante desse cenário, duas perguntas que podemos nos fazer são:
1. O que, simbolicamente, representa o possível fim da B&N (ou a aquisição de sua divisão Nook pela Microsoft)?
2. Qual o valor (e não o preço) do nosso conteúdo?

Olhando daqui, entre jogadores e apostadores eventuais, fica visível qual a função do crupiê na mesa.


1. Apesar de muitas estarem do mercado há décadas (obs.: não me refiro aos conglomerados).

2. O “Algoritmo de Tostines”, como chamávamos na faculdade, consiste na relação de demanda usuário x desenvolvimento: Para um sistema operacional, por exemplo, ter mais usuários, ele precisa de mais programas. Para um sistema operacional ter mais programas, ele precisa de uma maior base de usuários.

escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

2 comentários sobre “Nuke – ou: fazer livros não é como fazer sabonetes

  1. Concordo, mas o medo e o desconhecimento dos editores têm simplesmente deixado todos catatônicos, sem iniciativa para ousar. Só vemos uma via no interesse de aumentar as vendas, criar coisas novas…e esta via não tem vindo das editoras. Mas vc sabe que sou mega a favor da abertura (tanto quanto possível) do conteúdo. ;) Parabéns pelo texto. Sou seguidora ever!

    • Obrigado pelo comentário, Camila. Concordo que exista receio por parte dos editores, todavia, ousar, na maioria dos casos, representa investimento de tempo e/ou dinheiro. E investir tecnologicamente pode ser um tanto complicado, se pensarmos que, mesmo coisas simples, determinadas no ePub 2 (background, capitulares com recursos simples, etc.) variam tanto de player para player, de aparelho/aplicativo dedicado para aparelho/aplicativo dedicado. Sim, é necessário ousar, mas é preciso ponderar onde e como fazê-lo…

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