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Autores youtubers e cultura digital

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A primeira vez que refleti seriamente sobre o Youtube foi no segundo período da faculdade.

Na disciplina Mídia e cultura de massa, lemos o artigo “VIDEOTRASH: o YouTube e a cultura do ‘spoof’ na internet”, do pesquisador Erick Felinto. O texto, de 2008, discutia o crescimento no consumo de uma cultura de valor supostamente baixo que o famoso site de vídeos promovia ao dar voz a qualquer um. Por que tanto conteúdo que se poderia considerar bobo, irrelevante, sem importância passara a ser produzido e absorvido pelos usuários da internet ao redor do mundo?

O YouTube apenas cresceu de lá para cá, seguiu e segue sendo uma janela pela qual muita gente expõe o que pensa, o que lê, o que assiste, o que joga, coisas que podemos ou não considerar importantes, mas que são diariamente veiculadas e consumidas. Apesar das mudanças pelos quais passou desde seu surgimento, a ideia geral do YouTube segue sendo a mesma: transmita a si mesmo (broadcast yourself). O principal criador de conteúdo ali é você, seja lá quem você for.

E alguns vocês vieram a se destacar entre os que lá estão. De alguma forma, despertaram a atenção de milhares, por vezes milhões de pessoas e foram, assim, ganhando reconhecimento e relevância. Os mais dedicados literalmente profissionalizaram seus canais, criaram rotinas de postagem de vídeos e construíram carreiras baseadas no que gravavam para o YouTube. Nomes como PC Siqueira, Felipe Castanhari, Cauê Moura, Jout Jout e Kéfera são apenas alguns exemplos de youtubers — um termo foi cunhado, naturalmente — de enorme audiência, não sendo exagero dizer que entre os que assistem seus vídeos há, de fato, fãs.

Então alguns deles começaram a lançar livros. Destes, alguns estão nas listas de mais vendidos e levaram multidões ao principal evento literário do país. O fenômeno tem crescido e hoje é muito comum entrar numa livraria e ver na capa de livros rostos que antes ficavam na tela do computador.

Há uma lógica mercadológica nisso, e não é difícil perceber qual é. A audiência sólida e numerosa que muitos youtubers conquistaram é um público em potencial para livros produzidos por estes mesmos youtubers. Não é uma aposta garantida, mas há certo grau de segurança de que aquele livro já tem um público potencialmente grande para recebê-lo. Assim, editoras dos mais diversos portes têm investido nesse tipo de publicação.

Mas, se por um lado esse movimento é compreensível sob um ponto de vista comercial, ele também tem sido alvo de críticas por outros viéses. A seção de comentários — esse local inóspito que me alertam constantemente para me manter afastado — de uma matéria publicada no ano passado sobre autores vindos do YouTube mostra pelo menos um deles: o aspecto propriamente qualitativo destes livros. A tônica geral dos comentários é: mas que diabos essa gente tem pra dizer? O conteúdo, em muitos casos a própria vida do youtuber, seria irrelevante e a publicação um mero oportunismo. Uma busca no próprio YouTube retorna muitos vídeos de outros produtores de conteúdo para a plataforma que concordam, ao menos em linhas gerais, com essa impressão.

Por trás dessa crítica parece haver um certo nível de idealização tanto do ato de escrever quanto da editora em si. Como gente tão nova (muitos com menos de 20 anos) teria tanta experiência na vida para escrever um livro, ainda mais de memórias, em alguns casos? E como editoras, instituições sérias cuja preocupação devia ser formar bons leitores, dão espaço para esse tipo de coisa? Para quem não tem tanto conhecimento acerca do mercado editorial, talvez essa seja a reação mais esperada.

Essa questão me veio à mente na semana passada, justamente por causa de um vídeo. Ele foi feito por um dos primeiros youtubers famosos, Felipe Neto, que inclusive já lançou seu próprio livro. No “desabafo” direcionado a outros youtubers, Neto fala sobre a qualidade das obras publicadas, o conteúdo supostamente vazio e o problema de publicar somente pelo dinheiro, o que não estaria alinhado com o ato de conceber e lançar um livro.

O que me parece verdadeiramente interessante nisso tudo é que, olhando em retrospecto, o que se tinha era apenas um site onde qualquer um podia divulgar vídeos. E a forma como isto impactou a cultura é inegável não só pelo medidor de views dos canais de maior audiência, mas pela absorção desse fenômeno por um outro mercado, historicamente associado com a Arte (essa com A maiúsculo), o letramento e a Cultura (essa com C maiúsculo): o mercado dos livros. Não me admira que puristas — não sou um deles, eu acho — fiquem incomodados com a situação.

Todo esse cenário estimula diversas discussões — a editora não deveria se preocupar mais com curadoria, com encontrar escritores e não produtores de vídeo? Não deveria gastar mais tempo formando autores do que buscando aqueles com público já pronto? Em tempos como os nossos, a leitura não deveria ser estimulada de todas as formas possíveis, razão pela qual os livros de youtubers devem ser respeitados? –, e todas elas são importantes, mas o que mais me chama a atenção é como o digital mexeu, e segue mexendo, com a cultura como um todo. Como o que acontece “na internet” cada vez mais tem desdobramentos para “fora” dela (percebam as aspas). A discussão, justamente por ser tão importante, não pode desprezar essa realidade — e, talvez por desprezar, por vezes pare em argumentos como os vistos na temida área de comentários da matéria citada acima.

escrito por Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 25 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Um comentário sobre “Autores youtubers e cultura digital

  1. Josué, uma coisa sobre a qual tenho me perguntado muito é o se as pessoas que criticam a publicação de livros de youtubers realmente leem e o que elas leem. Ainda vivemos em um país em que a leitura é associada a cultura, distinção e aprendizado, mas não ao entretenimento. Sagas de fantasia, livros eróticos, Young Adult e agora os livros de youtubers são criticados, no entanto, eles não se destinam a pessoas que já tem o hábito da leitura consolidado. São modas, fenômenos comerciais que podem servir de porta de entrada para pessoas que não tem contato com o livro, ou serem apenas uma leitura causal de fã, que só vai ler porque gosta da Jout Jout e pronto, acabou. Acho que é importante esses livros serem lidos e comentados mas dentro de suas limitações, considerando que esse autores são são escritores, estão aproveitando uma oportunidade. Há algum tempo tinha surgido uma polêmica sobre um youtuber que expôs a ex-namorada com quem perdeu a virgindade em suas memórias, outro que admitiu tentar embebedar uma menina numa festa para ficar com ela. Se esses episódios não são tratados com o mínimo de autocrítica, aí considero que esses livros tem problemas de conteúdo. Agora se são as memórias de gente de 20 e poucos anos falando das angústias de virar adulto, terminar faculdade, arrumar o primeiro emprego, pode ser legal. Não pra quem já passou por isso, mas pode ser uma forma de aproximar adolescentes dos livros porque o youtube é algo muito mais próximo da vida deles o que as leituras obrigatórias do colégio.

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