E-books e a leitura social

Baixe como e-book

A leitura, mesmo quando feita de maneira solitária e em silêncio, sempre teve um componente social. Muito antes que o Twitter e o Facebook dessem as caras nas nossas vidas, já estávamos discutindo obras e autores em saraus, clubes do livro e conversas mais informais. Até atividades específicas do ambiente digital – como clubes do livro online, podcasts, redes sociais dedicadas a livros, como Skoob e Goodreads, projetos de leitura em grupo, como o Infinite Summer, e hashtags no Twitter que reúnem comentários sobre um livro ou autor – independem do formato em que se lê. Não há nada no e-book em si que o torne automaticamente mais “social” do que um livro impresso; aliás, dá até para dizer o contrário, já que um livro físico sempre pode ser emprestado a alguém. As funcionalidades sociais do livro digital – entendidas aqui como possibilidades específicas de interação com outros leitores e/ou com o autor – dependem, então, da plataforma onde ele é lido.

Algumas livrarias já vêm introduzindo recursos sociais em suas plataformas de leitura. A Amazon, por exemplo, permite que os usuários tornem públicas as anotações e destaques que fazem dentro de seus livros no Kindle. É possível ver as passagens mais marcadas em cada livro (por exemplo, acabo de descobrir que mais de 6 mil pessoas começaram a ler Orgulho e preconceito e já foram destacando logo a primeira frase) e, caso esta opção esteja ligada, ver estes trechos em destaque durante a própria leitura. A compra do Goodreads pela Amazon e a integração desta rede social com os aparelhos e aplicativos Kindle também é um sinal da importância dada pela empresa ao componente social da leitura de e-books.

Goodreads no KindleImagenzinha explicativa do blog do Goodreads

Enquanto a Amazon traz a rede social para dentro do livro, a Kobo facilita o compartilhamento com quem está fora dele. A integração de seu software com o Facebook faz com que seja muito fácil compartilhar passagens e “prêmios”:

IMG_5400Provando pra todos os meus amigos que eu li muitão

A Kobo também criou um clube de leitura no Viber (app de mensagens que pertence à mesma empresa-mãe, a Rakuten), o que é bastante interessante: assim como as livrarias físicas vêm se posicionando como espaços de encontro de leitores, promovendo eventos de lançamento, palestras, conversas com autores etc., esta livraria exclusivamente digital também se coloca como “anfitriã” de um clube de leitura virtual.

No caso do clube de leitura da Kobo, os participantes não precisam necessariamente ter comprado o e-book para fazer parte da conversa. Mas, pensando no posicionamento do e-book como um produto que tem valor próprio – e não como subproduto do impresso –, pode ser interessante explorar um modelo em que a compra do livro dá acesso não apenas ao conteúdo, mas também à conversa que se desenvolve ao redor dele. Na educação, permitir que um grupo de alunos leia o mesmo texto e compartilhe anotações uns com os outros pode ser bastante útil, e já existem softwares voltados especificamente para este segmento, como o eComma. Mas o mercado geral também tem visto o surgimento de plataformas que apostam neste modelo para atrair leitores e se diferenciar dos grandes players, como a francesa Glose e a inglesa The Pigeonhole.

O interessante destas plataformas é que os comentários sobre o texto não acontecem depois que a leitura já foi feita, como num clube do livro, ou numa rede social separada, como o Goodreads, ou mesmo no final do texto, como nos comentários de um portal de notícias, e sim nas margens, durante a leitura. Neste modelo, um experimento bem interessante é o The Golden Notebook Project, no qual sete escritoras foram convidadas a ler o livro (surpresa!) The Golden Notebook, de Doris Lessing, e conversar virtualmente sobre ele. O livro completo pode ser acessado gratuitamente no navegador, e os comentários das leitoras aparecem ao lado de cada página.

Como a participação é restrita às sete convidadas (embora haja uma área separada de fóruns onde qualquer um pode comentar), a relação entre os comentários e o texto é bem menos caótica do que poderia ser. Ainda assim, as reflexões das participantes ao final da leitura, disponíveis no blog do projeto, ilustram bem as vantagens e desvantagens de introduzir funcionalidades sociais no meio, e não em torno, da leitura. Segundo estes depoimentos, o projeto funcionou como incentivo para não abandonar a leitura e pensar sobre o texto de maneira mais crítica, e as discussões enriqueceram a compreensão do livro. Por outro lado, como desvantagens, são citadas a dificuldade de se concentrar em uma ou outra porção do texto – narrativa ou comentários – e de se comunicar adequadamente online, já que faltam os gestos, a entonação e a espontaneidade de conversas ao vivo.

Enquanto o Golden Notebook Project se desenvolveu a partir de uma obra de ficção que já existia, o livro Welcome to the Shift Age, de David Houle, trouxe o elemento social numa etapa anterior do processo: no momento da própria escrita. Num modelo que ficou conhecido como agile publishing, cada capítulo do livro era publicado online e submetido à análise dos leitores; só depois desta etapa é que o texto era revisado e editado, levando em conta as reações do público. Isto significa que os rumos da obra puderam ser revistos e direcionados de acordo com as críticas, comentários e expectativas dos leitores.

É claro que nem todo livro (ou autor, ou leitor) vai se beneficiar de um modelo como este; pessoalmente, não acho que a literatura como a conhecemos, que pressupõe um autor e um leitor separados e, em geral, solitários, vá desaparecer. Mas, à medida que as plataformas de leitura e escrita continuam a se desenvolver, é natural que gerem novas formas de interação e expressão. A indefinição dos limites entre leitura e escrita, com o leitor assumindo um papel muito mais ativo, é uma das mudanças mais significativas trazidas por esta nova leitura social.

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

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