Eu queria ser tradutor, mas só me passam copidesque

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As 25 pessoas na minha frente estavam ali porque queriam ser tradutoras. Muitas delas tinham interesse em fazer tradução para o mercado editorial. Existe todo um glamour em torno da figura do tradutor, sobretudo o literário. Quando comecei a trabalhar em editora, todo mundo perguntava “Ah, você traduz?” e complementava com um “Que legal!” antes mesmo da minha resposta.

Essas 25 pessoas são meus alunos em uma pós-graduação em tradução. O que muitas delas não sabiam é que o texto impresso no livro, aquele que provoca as mais diversas emoções e reações, é fruto também do trabalho de editores, copidesques e revisores. O meu módulo pode ser considerado o patinho feio do curso: copidesque e revisão. Ei, eu quero ser tradutor. Por que essa matéria?, muitos devem ter se perguntado. A verdade é que, no mercado editorial, poucos começam como tradutores. Uma pessoa que faz faculdade de medicina vai fazer residência em medicina. Em seu primeiro dia em um hospital, ninguém lhe pedirá que execute as tarefas de um enfermeiro. Se você fizer faculdade de tradução e bater à porta de uma editora pedindo um teste, muito provavelmente vai ouvir: “Ah, não temos tradução. Mas você faz cópi?”.

Em mais de uma década no mercado editorial, já li muitas traduções muito ruins. Certa vez me deparei com um personagem que matou outro usando uma faca de papel. Aham, isso mesmo, você leu direito: faca de papel. Na hora pensei em um origami… mas não fazia sentido. Fui ao original e voilà: paper knife. Você que está lendo este texto e nunca trabalhou em editora pode pensar que o coitado do tradutor cometeu um ato falho. Afinal, errar é humano.

Seria justo se esse mesmo tradutor não tivesse, em outro livro, falado que um ET veio para a Terra em um navio — afinal, a tradução de ship é navio, não é mesmo? Para a sorte do leitor, o copidesque corrigiu tudo isso e muito mais. Por que então não promover esse copidesque a tradutor? Ninguém diz isso em voz alta porque soa egoísta, mas o que muita gente pensa é que não quer perder um bom copidesque que sempre corrige traduções ruins.

No meu grupo de 50 alunos (são duas turmas), tem alguns que trabalham/trabalharam em editoras. Posso afirmar que mais de metade dos meus amigos faz parte do mercado editorial. E é consenso que tradutores iniciantes têm poucas chances de integrar o quadro de tradutores de uma editora. Na correria diária da vida de fazer livro — haha, estou destruindo os sonhos de quem acha que a vida do editor é ficar lá, sentadinho, calmamente, lendo livrinhos e sendo feliz, sorry! —, editores e assistentes não têm tempo de testar novos colaboradores. E aí continuam passando traduções para aquelas pessoas que nem são tão boas assim (palavras não só minhas, mas também de alunos e amigos), só porque elas já são conhecidas. E a pessoa que está se especializando na área, seja fazendo uma pós-graduação ou um curso livre de um ano, vai, muito provavelmente, continuar ganhando cópi atrás de cópi.

Então não adianta estudar para ser tradutor, é isso que você está dizendo? Não. Muito provavelmente o caminho não será uma linha reta — curso de tradução > traduzir um livro —, é quase certo que você terá que fazer muito freela de revisão e copidesque, além de testes de tradução, antes de atingir seu objetivo. O mais importante é sempre entregar um serviço de qualidade, não importa se você está ganhando pouco como cópi, se o prazo não é o ideal, se o tradutor não pesquisou e esse deveria ser o trabalho dele. Fazendo um bom trabalho, tenho certeza de que um dia o editor vai perceber que você é o profissional certo para traduzir aquele livro recém-contratado.

escrito por Liciane Corrêa

Liciane Corrêa

Na infância, um dos livros preferidos de Liciane Corrêa era O mistério da fábrica de livros, mas foi só na época do vestibular que ela descobriu o curso de Produção Editorial. Nos catorze anos em que trabalhou em editoras, produziu livros de medicina, foi produtora gráfica de livros de arte e teve o prazer de editar Rick Riordan, John Green e Stephen King. Hoje trabalha em casa, de chinelo, traduzindo e produzindo festas.

10 comentários sobre “Eu queria ser tradutor, mas só me passam copidesque

  1. Adorei o texto, porque eu prefiro muito mais revisar e fazer copi do que traduzir. Mas também não tô achando fácil me inserir no mercado editorial, mesmo que através da revisão e não da tradução. Mas como nada é fácil, sigo no caminho da “residência” :)

  2. Ótimo artigo.
    Ser tradutor de textos literários era um dos meus objetivos, principalmente por causa do prazer em trabalhar com este tipo de textos (bem, imagino que deva ter muito texto ruim para ser traduzido também), mas depois que comecei a trabalhar com textos técnicos, não sei se tentaria novamente o mercado de literários. Paga melhor, os documentos são mais simples e mais curtos, ou seja, não passo um, dois ou mais meses sobre um único projeto.
    Por outro lado, há muitíssimos textos de domínio público que ainda não foram traduzidos e publicados no Brasil. Eu, no lugar de muitos tradutores, traduziria tais textos e venderia na amazon, aliás, foi o que fiz com uma tradução de um poema épico de Hesíodo. A longuíssimo prazo, pode dar um bom retorno.

  3. Pois eu já estou quase desistindo de ser tradutora, revisora, preparadora e o cacete todo. Não sei nem se vale a pena fazer pós nessa área. Só vejo relatos do quanto é difícil entrar no mercado editorial, ter chance como tradutor, revisor, etc, e, desculpe, mas não quero começar a trabalhar quanto estiver com 40-50 anos de idade.

  4. “continuam passando traduções para aquelas pessoas que nem são tão boas assim (palavras não só minhas, mas também de alunos e amigos, só porque elas já são conhecidas.”

    Uma mostra da falta de que, no geral, este mercado precisa adotar práticas mais profissionais na seleção de colaboradores.

  5. Liciane, você copidescou “A Ordem Negra”, de James Rollins, da trilogia Força Sigma, traduzido por mim e publicada pela Ediouro. Desde que a produtora editorial à época foi demitida – o que me deixou estupefato, porque a imaginava trabalhando naquela empresa até se aposentar -, as portas da Ediouro se fecharam para mim, e nunca mais sequer responderam aos dois currículos que enviei ao departamento editorial, com uma diferença de uns dois anos entre um e outro, com um eufemismo do tipo “Agradecemos o envio do currículo. Se necessário, entraremos em contato com você”. E olhe que traduzi uns dez livros para eles! Esse é um mercado cruel demais, no qual nem sempre seu valor importa. O que importa é quem manda, quem dá as ordens, quem dita as regras – e quem é queridinho dessa pessoa todo-poderosa. Lamentavelmente, essa prática odiosa – por que quem chega exclui quem já estava, por que não se busca pelo menos uma acomodação, uma forma de assegurar trabalho pelo menos aos profissionais antigos mais competentes? – muitas vezes exclui excelentes profissionais que já vinham trabalhando para aquela editora. Passei por isso. Vários colegas meus também. Hoje estou aposentando e trabalhando num ritmo menos alucinante. Mas senti a dor de me baterem na cara uma porta que antes se entreabrira para mim (com a generosa ajuda de uma querida colega nossa que você conhece bem, e que é boa tanto com a palavra escrita quanto com a palavra CANTADA), mas que só o meu talento, a minha capacidade profissional, pôde escancarar. Um abraço, Marcos

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