Pergunte ao freela: como manter a sanidade

Baixe como e-book

Depois da minha estreia aqui no Colofão, recebi alguns e-mails de pessoas com mais dúvidas do que as cobertas no meu rápido FAQ inicial. Acabei pedindo ainda mais perguntas pelas redes sociais, interessada em saber as dificuldades e questões que meus colegas de autonomia enfrentam e em ajudar com o que eu pudesse. Uma amiga, que acabou de começar a trabalhar em um esquema autônomo, me mandou uma questão que vejo afetar muitas das pessoas nesse meio, e que gostaria de responder por aqui:

Meu maior problema como freela, como você bem sabe, é a questão da ansiedade. Como conseguir equilibrar o que você tem que fazer com sua saúde? Digo, como saber o momento de respirar fundo e se dar um tempo por causa da ansiedade e distinguir isso da hora de encarar aquilo que te faz mal? Como se organizar e conseguir de fato cumprir com essa organização? Como conversar com os clientes caso o trabalho esteja te dando crises profundas?

A grande vantagem, para mim, da vida de profissional autônomo é depender inteiramente do seu próprio trabalho e dos seus serviços prestados em vez de depender de horários arbitrários e estruturas empresariais. No entanto, isso depende de uma enorme estabilidade interna. Enquanto que o dia em que você falta ao trabalho na empresa por estar doente não tem grandes consequências, o dia em que você não consegue trabalhar quando freela é um dia a menos de trabalho mesmo. O mesmo vale para os dias em que você não consegue trabalhar direito, seja por exaustão, por distração ou por questões maiores de saúde mental.

A consequência negativa disso é que vejo colegas entrando em crises de ansiedade, pifando de burnout e ficando doentes a torto e a direito por exagerarem, ultrapassarem seus limites e ignorarem os sinais de que estão sobrecarregados, em nome de terminar aquele trabalho, encaixar mais um serviço no prazo, fazer um favor profissional, começar um projeto pessoal e fazer malabarismos do gênero. Afinal, a pressão da correlação direta entre trabalho feito e dinheiro recebido acaba nos fazendo sentir que não podemos parar.

Não é bem assim: não só podemos, como devemos parar às vezes. A raiz da dificuldade de parar acaba sendo a necessidade de tomada de decisão, que passa a ser inteiramente nossa quando trabalhamos por conta própria. Quando trabalhamos para alguém, esse alguém facilmente funciona como uma desculpa para fazermos ou não algo: é quem legitimiza nosso direito a um dia de folga, mas também quem nos “obriga” a estar lá em certo horário, justificando todas as reclamações de “estou procrastinando porque não tenho o que fazer, mas não deu meu horário de saída ainda”. Trabalhando por conta própria, entretanto, a responsabilidade sobre as decisões é inteiramente nossa, e tomar decisões pode ser paralisante, especialmente para quem sofre com transtornos de ansiedade; saber por onde começar algo, quando começar algo ou quando parar não é tão fácil quanto parece. Como, então, tornar isso mais simples?

1. Companhia

Como mencionei rapidamente em meu texto anterior, muitos autônomos optam por espaços de coworking. Parte da vantagem desses espaços é o ambiente profissional que te pressiona a trabalhar, porque você está cercado de outras pessoas trabalhando, em um espaço dedicado para essa atividade. Não sou adepta do coworking oficial, trabalho em casa, mas moro com uma mãe e uma irmã que também trabalham muito em casa – portanto, acabamos trabalhando em um esquema de coworking informal, cada uma com seu laptop na sala, trocando ideias sobre nossos trabalhos vez ou outra e criando um ambiente propício para a produtividade.

2. Rotina

Minha rotina é, contra todas as indicações de sites especializados, uma grande bagunça. Não gosto de acordar cedo, às vezes trabalho deitada na cama, às vezes trabalho de pijama, às vezes passo a tarde vendo séries e trabalho às 23h. Me permito esse caos controlado porque sei que é exatamente isso, controlado. Independente da falta de regularidade, sempre estabeleço metas e prazos e os cumpro.

Entretanto, para quem tem mais dificuldade nesse processo de microdecisões e de se manter estável e funcional, poucas coisas são mais importantes do que uma rotina: um horário razoavelmente regular para acordar, para começar a trabalhar, um ambiente de trabalho estruturado, um processo organizado. Rotinas parecem desagradáveis para muitos (eu entendo, vide meu parágrafo anterior), mas aí entra a tal vantagem decisória da autonomia: a rotina pode ser como você quiser, pode começar/acabar nos horários em que você funciona melhor, mesmo que não sejam os horários comerciais, pode (e deve, se seu problema é trabalhar demais) incluir pausas de diversão, pode ser bem gostosa e tranquila e de acordo com o seu ritmo; pode, também, ser mais ou menos fixa.

3. Escolha

O que também é importante nisso tudo é a escolha dos trabalhos. Claro que não vivemos todos em um mundo ideal em que podemos escolher só os trabalhos mais legais sempre, mas temos todo o direito de levar em consideração o peso emocional de um trabalho antes de aceitá-lo. Quando avalio e orço potenciais trabalhos, considero não só os dados objetivos (serviço, tamanho, prazo), como a facilidade ou dificuldade de comunicação com o cliente, meu grau de interesse no projeto e o quão trabalhoso será; tudo isso faz parte da minha conta, porque alguns trabalhos mais emocionalmente e intelectualmente exaustivos não necessariamente valem a pena.

Especialmente no começo da vida como freela, é comum achar que não podemos rejeitar nenhum trabalho, por pior ou mais mal pago que seja, por medo de escassez; depois de um tempo, no entanto, quando as coisas já estão mais estabelecidas, saber quando dizer “não” (ou pelo menos subir seus preços de acordo com essas subjetividades) é muito importante e útil. A primeira vez em que realmente neguei um trabalho por saber que não daria conta sem me sobrecarregar demais foi no final de 2015, e passei uns dias em pânico depois, com medo daquele cliente nunca mais me contactar, de ser malvista no meio, de ter trazido algum tipo de má sorte para meu trabalho (nessas horas, até a superstição vem visitar). Resultado: rejeitei o trabalho, indiquei outra pessoa, quando meu calendário se liberou entrei em contato com o cliente para dizer que estava disponível para novos trabalhos e tudo continuou funcionando perfeitamente bem.

4. Descanso

Hoje, no meio da tarde, tomei um banho para me refrescar do calor impossível do Rio de Janeiro. Assim que saí do chuveiro, bateu uma vontade incontrolável de botar uma roupa confortável, deitar na cama e comer chocolate ouvindo música. Relaxar, sabe? Trabalhei muito durante o final de semana, coisa que costumo evitar mas não deu, e estava cansada. Postei no Twitter sobre meu desejo e, felizmente, recebi mensagens encorajadoras de gente querida; gente querida que disse “pode fazer isso”, gente que deu aquela validação externa para minha vontade de descanso. Desobedeci e me forcei a continuar trabalhando (queria terminar um copidesque para entregar logo, porque entregar trabalhos com antecedência me dá enorme satisfação), mas faça o que eu digo, não faça o que eu faço (vide #2); o que importa é a mensagem das respostas do Twitter: sim, pode parar e descansar.

Vai, larga o computador, deita, bota música alta e come chocolate. Vai, sai para dar um passeio, pegar um sol na praia, tomar sorvete. Vai, diminui a luz e faz meia hora de yoga, bota o tênis e sai para correr, senta no chão e medita. Se a ansiedade do trabalho não feito te desesperar a ponto de você não conseguir aproveitar o descanso, coloca um despertador no celular para daqui a uma hora, duas horas, meia hora e me promete que vai relaxar até o despertador tocar (aí pode voltar a trabalhar se achar uma boa ideia, mas se for só ansiedade, coloca mais uma hora de descanso na conta).

Por último, vale também considerar que o trabalho autônomo não é para todo mundo, e não há nada de errado com isso. Vejo muita gente glorificando o trabalho autônomo como o grande futuro do mercado, como o ideal total e absoluto de qualidade de vida, como aquilo que todos devem desejar, mas não é bem isso. Assim como muita gente não se adapta à estrutura de trabalho mais rígida e autonomia limitada da maioria das empresas, muita gente não se adapta à liberdade de estrutura e autonomia decisória total da vida de freela. Caso você tenha a opção, lembre que sua saúde é mais importante do que a necessidade de se encaixar em um desses modelos de trabalho.

escrito por Sofia Soter

Sofia Soter

Sofia Soter tem 24 anos, mora no Rio de Janeiro e é escritora, editora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Edita a Capitolina [http://revistacapitolina.com.br] e já publicou textos pela internet toda [http://sofiasoter.com/portfolio/].

Deixe um comentário