Projetos gráficos para e-books

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Já resumi aqui (e aqui) um pouco sobre adaptações de projetos gráficos para livros digitais. Todavia, mesmo quando a adaptação se torna algo quase que completamente novo, ainda se trata (ao menos para mim) de manter traços da identidade do projeto original, elementos que o tornem reconhecível, por assim dizer.

Agora, e quando não existe um projeto original? Bem, daí a coisa pode se complicar um pouco… ou não. Depende do que o cliente/autor espera.
Recentemente trabalhei no desenho do projeto gráfico do Hell’s Kitchen, da Fiel Carteiro / SBT (junto da fantástica Laura Gillon).

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Antes de continuar, uma explicação: não se trata de um artigo prático ou tutorial, ok? Estou apenas compartilhando algumas impressões sobre trabalhos recentes.

Ao começar um projeto do zero, na maioria das vezes, norteio minhas decisões relativas a proporções de elementos gerais me baseando em telas de celular. Tento manter em mente que os elementos que constituirão o todo devem ser limpos e bem definidos.

O segundo passo consiste em buscar elementos específicos que dialoguem com o conteúdo. Cores, linhas, fontes e imagens. Estas, recortadas e encaixadas de maneira a não correrem de página ou ultrapassarem os limites da tela.

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clique para aumentar

Simplificar empobrece o design? Depende. Pensando no design como algo com função além da estética, reitero meu mantra de que antes de tudo vem a experiência do leitor. A substituição de alguns elementos não representa, obrigatória ou necessariamente, a exclusão de sua função.

Por exemplo: capitulares.

Funcionam com texto em float? Mais ou menos, como já dissemos (veja aqui), varia. Varia e varia muito de app para app, de dispositivo para dispositivo. As proporções que verificamos ao longo da edição nem de longe se parecem com o que nosso leitor terá em mãos, principalmente se essas mãos estiverem segurando um smartphone.

Existem maneiras de dar destaque a elementos sem precisar fazer um arquivo para cada loja.
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Alguns elementos, da mesma maneira que a capitular, podem ser considerados opções arriscadas, por exemplo, imagens ao fim do texto (como na imagem a seguir). Isso pelo simples fato de que é enorme a chance de essa imagem correr para a página seguinte e ficar lá, sozinha, fora de contexto.

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Optei por uma capitular pequena, sem float e com o mesmo tom de vermelho que apliquei aos negritos, títulos e pontilhados dos links (que, não por acaso, é o vermelho utilizado em toda identidade visual do programa).

O peso da fonte utilizada nos títulos se comportou de modo muito diverso em cada app, mas nada que comprometesse o todo e, sendo ela parte indissociável da marca, não havia jeito de substituí-la.

Um último comentário sobre usabilidade: na imagem do índice do programa 5, a organização hierárquica das informações foi pensada de maneira a todo o conteúdo poder ser explorado rapidamente e de maneira precisa (créditos para Laura Gillon, que me pediu para remover o excesso que eu julguei, inicialmente, necessário).

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Outro livro no qual gostei muito de trabalhar foi o do meu amigo Wigvan, o Cheiro de tinta. Nele, o processo foi diferente. Usei o que conhecia do autor e os depoimentos para tentar captar a essência do todo. Um tiro no escuro que deu certo.

Sabia que não queria nada pesado no e-book, a começar pelo corpo da fonte e seus contornos. Também sabia que não queria nada sisudo ou excessivamente formal; em suma, queria que o design transmitisse algum tipo de leveza.

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A fonte escolhida foi a Quicksand, que, além de atender ao que tinha imaginado, não destoava da capa.

Seguindo a lógica de tirar o peso, mantive os títulos em caixa baixa, exceto pelos nomes próprios (na minha cabeça, assinaturas têm peso, sempre), e os destaquei alinhando-os do lado oposto ao do fluxo dos parágrafos.

[para telas pequenas, alinhamento à esquerda ;) ]

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Se existem conclusões para esse texto, creio que sejam:

1) é possível, sim, criar uma identidade visual clara, intrinsecamente ligada ao conteúdo e reconhecível em uma tela de 5 polegadas (e que não se comprometerá em telas maiores).

2) esse design pode (e deve) ser funcional, explorar os recursos dos diversos suportes (que vão variar em tamanho, zoom e escolhas do próprio usuário-leitor) para seu conteúdo.

I rest my case.

escrito por Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas (UNESA), Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas (UFF). Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos (Produzindo E-Books com Software Livre) e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

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