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Audiobook: nem tão novo e nem tão esquecido

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Os audiobooks estão vagando o mundo desde a década de 1970 e, no entanto, despertam menos curiosidade no mercado editorial do que seus primos e-books. Com um desenvolvimento tecnológico extremamente rápido, tivemos, em menos de 50 anos, audiobooks em cassetes, LPs, CDs, MP3 e agora via streaming em serviços de assinatura como o da brasileira Ubook, que parece ter a meta evangelizadora de popularizar o livro no formato áudio.

Mas eles não estão sozinhos nessa empreitada. Outras iniciativas dignas de nota são a TocaLivros, que investe na venda a la carte, buscando como diferencial produções de qualidade que proporcionem imersão por parte do ouvinte, e a Universidade Falada, que já atua no mercado desde 2004 e, segundo informações em seu site, possui mais de 1.300 conteúdos em áudio, entre audiobooks, palestras e cursos.

O mercado editorial brasileiro tradicional – e com isso quero dizer as editoras -, no entanto, parece ter se decepcionado com o investimento feito no início dos anos 2000, no qual o formato CD foi a grande aposta. Ludmila Ribeiro, responsável pelo Marketing Digital da Ediouro/HarperCollins Brasil, acredita que o insucesso veio da incompatibilidade entre os CDs com MP3 com os rádios da época, além da difícil mobilidade entre aparelhos, razão pela qual o investimento no segmento ficou suspenso até iniciativas mobile surgirem no país.

É verdade que, após o lançamento do iPod, o consumo de áudio migrou para aparelhos que permitissem maior mobilidade, tendência que foi intensificada com o surgimento dos smartphones, ainda na mesma década. O que poucos sabem é que esta tendência já havia sido antecipada pela empresa mais icônica de audiobooks no mundo, a Audible, que já tinha um dispositivo móvel para sua plataforma desde 1997.

Saindo um pouco da visão anacrônica e voltando ao presente, os audiobooks na América Latina parecem ser a promessa de 2016. Conglomerados estrangeiros estão investindo em conteúdo em línguas latinas, como a HarperCollins Español (HCE), que pretende aumentar sua produção de 6-10 títulos por ano para 24, enquanto a Penguin Random House, que lançou 50 títulos em áudio em 2015, pretende lançar entre 150 e 200 novos audiobooks este ano, além de ter anunciado a criação de uma divisão autônoma específica para o segmento.

No Brasil, a Editora Nossa Cultura, que possui sua origem intrinsecamente relacionada a livros em formato áudio, já sente um crescimento na venda de conteúdo por download. A gerente editorial Renata Sklaski acredita que as relações de consumo de conteúdo através de tablets e smartphones sejam as responsáveis por este crescimento e que o meio digital apresenta grande potencial para o segmento.

De acordo com a Association of American Publishers, a venda de audiobooks nos 9 primeiros meses de 2015 cresceu 41.5% em relação ao ano anterior, número que certamente enche os olhos dos editores brasileiros que estão à procura de uma nova receita para um mercado em crise, mas quais são as nossas perspectivas reais para audiobooks?

Pessoalmente, acho que os Estados Unidos possuem o diferencial de ter mantido uma relação constante de consumo com conteúdo em formato áudio, coisa que nós não fizemos. Isso fez com que a mídia que ganhou força com a proposta de entretenimento para veteranos de guerra se popularizasse de forma a se manter firme, mesmo diante das mudanças de contexto tecnológico.

No Brasil tivemos iniciativas em cassete e em CD, tivemos uma tradição de radionovelas e somos reconhecidos por nossos estúdios de dublagem; no entanto, nossa produção de áudio nunca teve força no formato livro, e este, acredito eu, será o grande desafio para quem quiser seriamente investir em audiobooks.

Por outro lado, temos hoje cada vez maior a ânsia de tornar nosso tempo mais produtivo e, somando longos deslocamentos e nossa relação de consumo cada vez mais centralizada em smartphones, compomos um cenário muito diferente de comportamento de consumidor, que pode alavancar os audiobooks no Brasil.

Eduardo Albano, co-fundador da Ubook, acredita que o audiolivro chegou para solucionar o problema da falta de tempo do brasileiro, trazendo o audiobook como meio de escoar grande parte desse excesso de informação que hoje produzimos enquanto sociedade.

– Apostamos em uma nova categoria de mercado que é o Audiotaiment, por esta razão, oferecemos conteúdos variados como: Livros, Revistas, Palestras, Matérias de concurso publico etc. – afirma Eduardo Albano – O nosso trabalho principal é construir a cultura e o hábito de consumo de Audiotaiment / Audiobook dos brasileiros. Após terem conhecimento, a aceitação é ótima, tanto que a nossa base cresce consecutivamente.

Desde o sucesso de Serial, produção do This American Life da WBEZ Chicago, diversas iniciativas focadas em storytelling em áudio ganharam espaço nos cartões de memória de usuários em busca de uma boa narrativa. No cenário nacional, também no universo dos podcasts, algumas iniciativas começam a surgir, trilhando um caminho mais do que ideal para a consolidação de um público consumidor de narrativas em áudio.

Um outro aspecto, mas que também pode se relacionar, são as discussões que temos tido sobre acessibilidade no Brasil. No início do ano foi aprovada uma lei cujo artigo 68 incentiva a produção, edição, difusão, distribuição e comercialização de livros em formatos acessíveis.

Embora ela não preveja audiolivros como arquivos de acessibilidade e esteja mais focada em narrações sintéticas como o formato Daisy e o EPUB3 (da mesma forma que o fez o edital do PNLD 2018), acredito que, com a disseminação do formato no Brasil, o audiobook possa se tornar mais uma opção nos editais futuros, ajudando a popularização do formato.

O cenário atual para o audiobook no Brasil pode não parecer o mais propício, tendo em vista a crise econômica e o alto – será que é mesmo tão alto assim? – investimento para a produção de áudio, mas, ao mesmo tempo, não consigo deixar de enxergar estes diversos indicativos como promissores.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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