FAQ do freela

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Comecei a trabalhar em editora em 2010, ainda na faculdade. Passei de estagiária a efetivada e continuei na mesma empresa, aprendendo de tudo, fazendo de tudo, até 2015, quando decidi que seria autônoma. Pois é, eu tinha um emprego, salário fixo, décimo terceiro; eu trabalhava em um ambiente legal, com profissionais que eu admirava; eu fazia o que amava, desse jeito meio autoajuda que já sabemos que não significa tanta coisa assim. Mesmo assim, em março de 2015, pedi uma reunião com meu chefe para combinar minha demissão.

A decisão foi cercada de questionamentos, dúvidas e incertezas. Me sentia irresponsável por deixar para trás a estrutura do meu emprego em nome de tempo, liberdade e controle. Afinal, estava entrando na vida de autônoma por escolha própria, não por falta de opção. No entanto, essas dúvidas passaram (quase todas) quando me dei conta de que várias amigas do meio editorial estavam fazendo o mesmo: saindo de empregos mais tradicionais e escolhendo trabalhar por conta própria. Não só isso: depois de anunciar para a internet que estava agora trabalhando como autônoma, comecei a receber mensagens regulares de conhecidos e amigos interessados em fazer o mesmo movimento de mudança, me pedindo dicas, ajudas e indicações.

Acabou que no último ano, além de crescer profissionalmente, virei expert em dar conselhos para quem está interessado em seguir o mesmo caminho que eu.

Dá pra ganhar dinheiro?

Mais do que eu (e muita gente que eu conheço) ganha em editora. Não ganho fortunas (acho que a expectativa de ganhar fortunas no meio editorial não é muito realista mesmo), mas recebo de forma bastante regular uma quantidade de dinheiro confortável para mim. Tenho a vantagem de ainda morar com a família, portanto não sou responsável por meus gastos de moradia, o que claramente faz com que o dinheiro que eu ganhe me permita uma vida de mais conforto do que permitiria se ele tivesse que ir direto para o aluguel. Mas, se você paga aluguel com salário de editora, é provável que consiga pagá-lo com mais sobra com dinheiro de freela.

A instabilidade é tanta assim?

Na minha experiência, não. Desde que comecei a trabalhar por conta própria, tive trabalho constante, com uma variedade de clientes. Os primeiros meses foram mais complicados porque nesse mundo os pagamentos demoram para chegar, então demorei para começar a receber dinheiro de forma regular, por isso recomendo que você tenha algum dinheiro (se possível, equivalente a dois ou três meses de gastos) economizado para facilitar a transição.

Como consigo clientes?

Meus contatos no meio editorial me ajudaram muito – se você já trabalha nesse meio, provavelmente terá a mesma ajuda. Além disso, faço propaganda constante dos meus serviços: tenho um site, faço posts nas minhas redes sociais anunciando uma busca por clientes e, assim que comecei a trabalhar como autônoma, mandei e-mail para alguns amigos e contatos estratégicos anunciando que estava disponível. Além disso, seus clientes indicam o seu trabalho para amigos e conhecidos.

Claro que é mais difícil para quem não está inserido no meio editorial. Nesse caso, recomendo entrar em contato com amigos e conhecidos no meio, desde que de forma simpática, educada e apropriada, para pedir ajuda (às vezes recebo mensagens exigentes demais, como se eu pudesse, sozinha, arranjar muito trabalho para aquela pessoa; se você fizer isso, provavelmente só encontrará decepção).

Como você cumpre prazos com a tentação do Netflix logo ali?

Com listas, agendas, comprometimento e a certeza de que meu trabalho depende inteiramente de entregar aquele projeto naquele prazo. Se eu não entregar, não vou levar uma bronca do meu chefe pelo atraso, não vou ter como passar para um colega terminar, não vou receber o salário no fim do mês de qualquer jeito; se eu não entregar, vou perder aquele cliente, aquele dinheiro, e a responsabilidade será inteiramente minha (não da empresa na qual eu trabalho). Ter consciência disso é o que me faz trabalhar direitinho mesmo quando tudo que quero é terminar de ler um livro, sair para tomar um sorvete ou fazer uma maratona de Arquivo X.

Mas é só trabalho o tempo inteiro, o dia inteiro, sem parar?

Às vezes. Já que meu trabalho agora é organizado a partir dos serviços que presto e não dos horários que cumpro, tem dias com mais serviços do que tempo. Mas, já que o trabalho é organizado a partir dos serviços prestados e não dos horários cumpridos, uma boa dose de organização permite umas coisas super legais que o trabalho tradicional não permite: tirar um dia de folga no meio da semana, ir à academia no meio da tarde quando não tem ninguém, pegar uma sessão vazia no cinema, ir à praia numa terça-feira, viajar sem depender de dias de férias… Eu, por exemplo, tenho o hábito de tirar um dia de folga logo depois de entregar algum serviço grande, e evito trabalhar aos fins de semana e muito tarde à noite, para não ficar presa nessa necessidade de estar sempre devendo alguma coisa.

É muito solitário?

Já tinham me avisado que seria meio solitário trabalhar por conta própria, mas eu gosto muito de ficar sozinha, então não me preocupei, até que… começou mesmo a ser um pouco solitário. O convívio social envolvido em trabalhar em uma empresa acaba fazendo falta (por isso vários profissionais se aventuram no coworking), mas passei a usar essa falta para me motivar a de fato sair com meus amigos com mais frequência (afinal, minha flexibilidade de horário torna isso mais fácil também) e hoje em dia estou bem mais feliz com minha vida social.

Mas a solidão também bate em outro ponto: você não tem quem consultar quando tem uma dúvida profissional. Por isso, recomendo ter contato com outras pessoas que trabalham também como autônomas na mesma área que você. Como falei lá no começo, tenho amigos nessa situação, então peço ajuda quando tenho dúvidas sobre quanto cobrar em um trabalho, como lidar com determinado cliente, ou onde encontrar uma boa solução para um problema tradutório. Essa rede de profissionais também é excelente para distribuir trabalho – esses amigos me recomendam para trabalhos quando não têm como encaixá-los em suas agendas e eu faço o mesmo com eles.

Vale a pena?

No meu caso, vale. No seu caso, talvez sim, talvez não. Apesar de adorar minha atual situação profissional, não acho que é a melhor para todo mundo, interessante para todo mundo, nem necessariamente viável para todo mundo. Mas, assim, se você chegou até o fim deste post e continua interessado, vai nessa, deve ser uma boa ideia.

escrito por Sofia Soter

Sofia Soter

Sofia Soter tem 24 anos, mora no Rio de Janeiro e é escritora, editora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Edita a Capitolina [http://revistacapitolina.com.br] e já publicou textos pela internet toda [http://sofiasoter.com/portfolio/].

2 comentários sobre “FAQ do freela

  1. Gostei da sinceridade com que o assunto foi tratado. Quero muito entrar no mundo da revisão editorial (há anos trabalho com revisão de textos acadêmicos) e está sendo difícil, até porque moro no interior de S.Paulo. Mas não pretendo desistir! Parabéns pelo artigo! Sucesso!!!

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