Os livros digitais do futuro? – O retorno

Baixe como e-book

Alguns meses atrás, escrevi aqui sobre como poderiam ser os livros digitais do futuro a partir da experiência de uma editora inglesa, a Visual Editions. Na época, a editora acabara de anunciar o Editions at Play, um projeto em parceria com o Creative Lab do Google que tinha o objetivo – ainda bastante misterioso – de criar livros “inimprimíveis”, verdadeiramente digitais, no sentido de que aproveitariam plenamente as possibilidades deste meio. Como os dois primeiros e-books do projeto foram lançados na semana passada, achei apropriado que eu continuasse a minha tietagem análise por aqui.

O lançamento oficial do Editions at Play incluiu, além do novo site, os e-books Entrances & Exits, de Reif Larsen, e The Truth About Cats & Dogs, de Sam Riviere e Joe Dunthorne. Embora a compra de ambos seja feita pelo Google Play, a leitura propriamente dita não é feita por lá, e sim por um site específico dedicado a cada livro.

Esta, para mim, é a grande sacada do projeto: por serem acessados diretamente no navegador, os livros não ficam sujeitos às limitações nem dos ePubs e nem dos apps. Assim, estes e-books (se é que se pode chamá-los assim, já que em muitos aspectos são mais parecidos com uma página web do que com o que estamos acostumados a chamar de e-book) têm muito mais liberdade em termos de design e funcionalidades do que se poderia sonhar mesmo com o ePub 3. Ao mesmo tempo, não exigem que o leitor baixe mais um aplicativo, ficando disponíveis na biblioteca do usuário junto aos demais e-books comprados (só no Google Play, claro), e não estão presos a um só sistema operacional.

IMG_5039Na sua biblioteca…

Captura de Tela 2016-02-09 às 16.42.49…pero no mucho

Como não precisam seguir as convenções que nos acostumamos a ver nos e-books, os livros têm um design único, não só em termos de aparência mas também de organização: Entrances & Exits, por exemplo, não tem páginas, e sim uma barra de rolagem; The Truth About Cats & Dogs tem algo mais parecido com páginas, mas as quebras não correspondem sempre ao final de um bloco de texto, e a posição do leitor em cada capítulo é marcada não por um número de página, e sim por uma bolinha no rodapé.

IMG_5034Um trecho de The Truth About Cats & Dogs para ilustrar o que eu quero dizer com “uma bolinha no rodapé”

Ler no navegador também significa não ter acesso a algumas das funcionalidades padrão da maior parte dos softwares de leitura, como mudar o tamanho do texto e a fonte (o que não me fez falta, porque, bem, o design é muito bom), ler offline ou grifar partes do texto (o que eu gostaria de poder fazer, embora seja possível selecionar trechos e copiá-los ou exportá-los para outros aplicativos).

As semelhanças entre os dois livros param por aí: cada um faz um uso diferente das possibilidades do digital, com objetivos diferentes. The Truth About Cats & Dogs é a história de uma colaboração mal-sucedida entre os dois autores, contada a partir de trechos de seus diários e de e-mails trocados entre eles. Não é uma narrativa linear: seus fragmentos podem ser lidos em qualquer ordem, e por isso o sumário é substituído por uma série de bolinhas correspondentes a cada autor, que orientam o leitor marcando quais já foram lidas.

 IMG_5036A bolinha em destaque marca o capítulo onde estou, e se eu tivesse sido esperta e tirado esse print antes de ler todos os capítulos vocês poderiam ver quais eu ainda não li

Para mim, um dos aspectos mais interessantes do livro é que os poemas trocados pelos autores são apresentados ao leitor “em tempo real”, isto é, como se estivessem sendo digitados naquele momento, com hesitações e trechos deletados e substituídos. Neles, não há pontuação, apenas as pausas na digitação, o que torna o tempo da leitura um fator integrante da narrativa – é possível pular esta etapa e ler apenas o poema finalizado, mas algo se perde. O final do livro guarda uma surpresa que, assim como a ordem dos textos, é determinada pelas escolhas do leitor, e o inclui ainda mais diretamente na experiência (queria muito contar o que é, porque achei excelente, mas né, estamos na internet e a internet odeia spoilers).

Entrances & Exits, o meu preferido, é uma história de ficção ambientada em locais reais através de uma integração com o Google Street View. Um vocabulário visual próprio marca os pontos das “entradas” e “saídas”, deixando o leitor livre para explorar cada local antes de seguir com a narrativa – com certos limites: não é como se o Street View inteiro estivesse embutido no e-book; cada início de capítulo insere o leitor exatamente nas coordenadas relevantes para aquele trecho (com mais ou menos espaço para “andar” ao redor) e para aquele momento (por exemplo, a rua que aparece nublada num capítulo surge ensolarada no seguinte, marcando um salto não no espaço, mas no tempo).

 IMG_5038Uma das “entradas”, que nem sempre são literalmente portas

O efeito não é apenas ilustrativo: ver, ou melhor, estar no lugar antes de ler o texto tem um efeito narrativo importante, especialmente (spoiler levinho à frente!) quando este lugar muda de repente de um capítulo para o outro; a sensação de estranhamento que se tem como leitor reproduz a do protagonista, e explorar com cuidado os arredores – o estilo das casas que muda de repente, o clima, as roupas dos pedestres, o idioma das placas – dá uma ideia do que aconteceu antes que o autor o explicite. Outro aspecto que ajuda a construir este efeito sem estragar a surpresa é o sumário, que não está dado desde o início: ele é construído à medida que se lê e que as diversas localizações em que a história se passa se revelam.

IMG_5030 O sumário de alguém que ainda não leu nada do capítulo 14 pra frente (dessa vez fui esperta e tirei o print a tempo!)

No final, há uma bibliografia de todas as coordenadas visitadas, com os respectivos links para o Google Maps, para quem quiser explorar os lugares fora dos limites do livro. Como os acontecimentos e o estado de espírito do protagonista estão intimamente ligados aos lugares físicos em que a narrativa ocorre, essa exploração é mais do que mera curiosidade: é um envolvimento adicional com a história.

Se este é o livro digital do futuro, o dispositivo de leitura do futuro não é o e-reader, e sim o tablet e, principalmente, o celular: as animações, as cores e os elementos interativos não são enfeites, são partes essenciais da narrativa; o tempo de leitura (apresentado na ficha técnica dos livros, no lugar do número de páginas) é curto, o que se pode atribuir ao caráter experimental do projeto, mas também ao dispositivo para o qual ele foi pensado. Mas, apesar de todo o cuidado com a experiência, o foco é sempre no texto. Os elementos interativos destes livros não os transformam em games – e com isso não quero dizer que games não possam proporcionar uma experiência narrativa incrível (vide este texto da Vanessa Raposo sobre Life is Strange), mas simplesmente que o ponto de partida aqui é sempre o texto. É o formato que se adapta a ele, e não o contrário.

No final das contas, é boa literatura, ainda que apresentada de outra forma. Mais do que isso, esta forma não é diferente só pelo sabor da novidade: cada um dos livros inova onde e como o texto pede. Por isso, considero que o processo – a colaboração entre autores, editores e desenvolvedores – seja tão importante quanto o produto final: em entrevista ao Guardian, quando perguntado sobre quem tinha a palavra final, Larsen disse: “Acho que era eu. Mas talvez seja mais correto dizer que era o livro. O livro realmente nos disse de que ele precisava. Algumas vezes o Google teve a palavra final, no sentido de que eles disseram: ‘Impossível’. Algumas vezes eu voltei para eles e disse: ‘O livro precisa mesmo disso. Vocês precisam encontrar um jeito de fazer acontecer.’ Eles provavelmente me odiavam por isso, mas eles voltavam para a caverna mágica deles e faziam acontecer.”

escrito por Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais (muito mais) gifs animados.

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