Perfis de usuários e escolhas de padrões

Baixe como e-book

Uma pergunta que muito frequentemente me fazem quando começam a se interessar por livros digitais é: qual e-reader você me recomenda? O que as pessoas costumam achar curioso é que eu não tenho uma resposta padrão, eu geralmente faço uma série de perguntas a respeito dos hábitos e preferências tecnológicas da pessoa, assim como da expectativa de uso e, depois de compreender o perfil da pessoa que me pergunta, recomendo um e-reader que melhor se adequa à sua utilização.

Isso porque, apesar de existir uma clara distinção a respeito do que é melhor no quesito técnico de hardware, na experiência de uso, no entanto, é muito complicado, pois os consumidores possuem diferentes expectativas a respeito da usabilidade do produto.

Essa afirmativa me remete a outra comumente utilizada para defender escolhas de empresas de tecnologia para a definição de seus recursos e limitações: a empresa “sabe o que é melhor para o usuário”.

Mas o quanto dessa afirmação é, de fato, verdade?

Recentemente tive uma discussão com a Cindy Leopoldo a respeito de um trecho de sua coluna no PublishNews, no qual ela dizia que e-books ainda são feios, o que me levou a pensar muito nessas relações de escolhas de recursos default em dispositivos de tecnologia.

Deixem-me explicar melhor. Eu não acredito que não tenhamos tecnologia para fazer e-books bonitos. Minha opinião pessoal é que, em parte, as expectativas de beleza têm como base o que é bonito em outros formatos – como no impresso, ou em apps – e, tratando-se de outra mídia, essa expectativa é inalcançável. Por outro lado, acho que o usuário padrão de livros digitais não perde tempo explorando a configuração de seu e-reader para deixá-la mais agradável aos olhos, o que me leva a pensar que, na verdade, essa não é uma prioridade para ele.

E isso me coloca a pensar ainda nas definições padrão dos e-readers. O Kindle por default usa a Caecilia, fonte que não é muito bonita, mas definitivamente proporciona uma ótima leitura digital, por ser uma fonte pesada e sem detalhes finos. Do ponto de vista da usabilidade, ela é excelente e, por isso, não me surpreende ser utilizada como padrão.

Já o Kobo possui a opção Kobo Style que define opções de entrelinha e margens para melhor acomodar o texto na tela, criando uma disposição confortável para a leitura, sem o texto ficar muito espremido. Da mesma forma, o LEV possui padrões de entrelinhas, margens e fonte.

Essas escolhas não são ao acaso: são baseadas em estudos de experiência do usuário, partindo do pressuposto que ele, o usuário comum, dificilmente modificará essas configurações para algo além de aumentar o tamanho da fonte.

As editoras, que tanto se preocupam com a beleza do livro, no entanto, dificilmente criam projetos digitais que levam em conta a renderização da fonte escolhida para leitura digital, declaração de entrelinhas e margens para melhor aproveitamento do espaço da tela e conforto de leitura etc. Sei que isso não é uma máxima, conheço trabalho de editoras nacionais e estrangeiras que possuem essa preocupação, no entanto, a minha experiência geral no consumo de e-book é justamente esta. Não há uma preocupação com beleza junto à qualidade da experiência de leitura e, portanto, torna-se bastante complicado defender que os dispositivos de leitura deveriam tornar padrão a configuração da editora.

Eu já pensei dessa forma, principalmente porque, ao produzir e-books, penso primeiramente no conforto de leitura. Prezo a beleza também, mas entre beleza e usabilidade, sempre escolho usabilidade. Até porque, uma capitular que corre o risco de sobrepor o texto não é tão bela assim.

É difícil para nós, profissionais que estamos preocupados com estas minúcias, enxergarmos que o todo do mercado é bem diferente, e que as empresas de tecnologia que fazem estas escolhas de configurações padrão precisam pensar tanto na realidade majoritária dos produtores de conteúdo quanto no usuário padrão, que dificilmente se aprofunda em todos os recursos de seus devices.

No entanto, minha recomendação não é simplesmente desistir. Se beleza e usabilidade são fatores que você preza, meu conselho é: ajude a criar um mercado capaz de absorver essas características como valores. Quem sabe não conseguimos aprimorar o conteúdo das editoras de forma que as fabricantes de devices se sintam com menos necessidade de interferir no projeto gráfico?

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

2 comentários sobre “Perfis de usuários e escolhas de padrões

  1. Oi Lúcia, concordo com as tuas reflexões.
    Visto que estamos falando de livros digitais onde o texto prevalece, sempre me coloquei a questão se por acaso a beleza destes eBooks não seja a usabilidade. Ou seja, um livro é “bonito” na medida que é simples e agradável na leitura.
    A minha experiência com o pessoal que produz livros impressos é que o primeiro impacto com o digital é uma desilusão, sobretudo no quesito “beleza”. Mas depois eles percebem que o “design” vai bem além do uso de fontes rebuscadas ou imagens de enfeite. Design é pensar e criar uma experiência de leitura agradável levando em consideração os limites (e as vantagens) do suporte digital.
    Então pra mim “beleza” coincide com usabilidade.

    • Fernando, concordo plenamente com você sobre a usabilidade ser a verdadeira beleza do digital! Tentei levantar a questão de que, como essa usabilidade muitas vezes não é prioridade do produtor de conteúdo (editoras, autores independentes, etc.), as empresas de tecnologia tentam compensar com uma configuração default com o propósito de criar uma certa padronização de qualidade dos e-books. Se ambas as partes trabalhassem mais em parceria e, principalmente, em sintonia, poderíamos ter produtos melhores no mercado no nível da usabilidade, dando espaço para a criatividade que muitas vezes é travada por esses defaults necessários no mercado atual.

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