Autopublicação digital: onde mais histórias são possíveis

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Uma vez me perguntaram de onde tiro coragem para publicar as coisas que escrevo. E acho que nunca pensei em publicar em termos de “coragem”. Respondi que coragem eu preciso para sair de casa; para escrever e publicar em tempos de internet, não preciso nem de motivo.

Os recursos para se publicar estão aí, à mão. Ferramentas gratuitas, conhecimento acessível, facilidades. O público, cada vez mais próximo. O mundo digital certamente facilitou as coisas para quem, assim como eu, nunca teve pudores de sair mostrando as histórias que escreve para quem passar pelo caminho. Mas autopublicação não é exatamente novidade. Já se fazia antes da internet e antes dos ePubs invadirem nossos e-readers com maravilhosas obras independentes que de outra forma não chegaríamos a conhecer.

Então dou dois passinhos pra trás. Porque não comecei a autopublicar com meu primeiro e-book, comecei a autopublicar na minha época de fanzineira, em que desenhava e diagramava à mão, fazia colagens, xerocava e distribuía minhas histórias eu mesma.

Ali já estava a essência da coisa. Primeiro, o espírito de “solta o meu braço que eu vou publicar isso aqui sim”, mas também todo um processo artesanal que precisei dominar do início ao fim, todas as etapas.

Ter a história para contar é só o primeiro passo. Autopublicação, mais do que mostrar ao mundo o que você escreveu sem precisar de intermediários, é também ter que cuidar de tudo; se não pondo a mão na massa você mesmo, pelo menos administrando a coisa toda, ao coordenar o trabalho de quem vai fazer a revisão, ilustração, diagramação e divulgação.

E aí eu entendo a dúvida sobre “ter coragem”. Porque não é tarefa fácil – nem com as facilidades que o mundo digital oferece. Mas continuo achando que não é questão de bravura, e sim de conhecimento. Buscar saber. Se virar. Arrumar soluções.

Tomar posse desse conhecimento necessário para publicar sua própria história é uma das grandes possibilidades que a autopublicação abre para os autores. Porque o trabalho não acaba com o “pronto, terminei de escrever”, ele vai além; e essa experiência permite ver o processo de forma mais ampla, assim como entender o valor contido no trabalho da publicação.

O digital também é o terreno preferido das histórias curtas. Bom para quem escreve, que não precisa investir muitos recursos para publicar um livro que não teria volume para compensar uma impressão; bom para quem lê, que dispõe de forma mais acessível a mais opções de leituras rápidas.

Quando escrevi “Hipersonia Crônica” e depois os contos que compõem o livro “Pequenas Tiranias”, resolvi lançar em e-book justamente pensando nessa facilidade e em como o digital era um formato que abraçava as minhas histórias. Com os e-books, elas se tornaram possíveis. Acessíveis. Como ainda podem querer diminuir a importância do e-book se ele acolhe tão bem histórias que, de outra forma, encontrariam barreiras enormes para chegar na mão dos leitores?

Uma outra vantagem da autopublicação digital experimentei com o Universo Desconstruído, um projeto que promoveu uma ficção científica sem estereótipos machistas que tantas obras do gênero – inclusive no mainstream – perpetuavam. A mesma internet que me permitiu conhecer as parcerias e autores que ajudaram a construir esse projeto serviu também de plataforma de publicação e divulgação.

Porque se a internet se oferece como uma alternativa em relação ao que, por exemplo, a mídia mostra, com a literatura não seria diferente: é entre as obras independentes e projetos surgidos da internet que a diversidade encontra mais espaço, justamente por não precisar pedir autorização de ninguém para existir.

Autopublicação é possibilidade. Na verdade, uma porção delas. Porque no formato digital as possibilidades de publicação se desdobram. Derramam-se. E-book pode ser a principal forma de publicar uma história na internet, mas não é a única.

O Wattpad, por exemplo, é uma plataforma social onde os autores podem ir contando suas histórias, um capítulo por vez, para pessoas que podem escolher segui-la, e assim ler sempre, até o final. Fidelização de público. Há autores que conseguem milhões de visualizações e fãs por lá, o que acaba atraindo a atenção das editoras e fazendo suas histórias virarem livro depois.

É um mundo de dificuldades e possibilidades, como qualquer boa jornada em que nos aventuramos. E, mesmo não precisando de motivos para escrever e publicar na internet, eles são vários. E fazer uma história chegar às mãos dos leitores, esse sem dúvidas é o maior deles.

escrito por Aline Valek

Aline Valek

Aline Valek é escritora e ilustradora. É autora dos livros de contos Hipersonia Crônica e Pequenas Tiranias, da newsletter Bobagens Imperdíveis e seu primeiro romance de ficção científica será lançado em 2016.

Um comentário sobre “Autopublicação digital: onde mais histórias são possíveis

  1. A autopublicação digital tem realizado o sonho de muita gente que deseja colocar seus textos no mundo, mas não tem paciência para percorrer o calvário da busca por uma editora, ou que já foi desprezado por várias. É sem dúvida uma forma trabalhosa de começar, mas real. O autor independente, por necessidade, vira meio bombril e acaba aprendendo demais no processo.
    Daí acho que é possível vermos acontecer muitas reviravoltas e muitas oportunidades nova na área literária.
    Bom texto e parabéns pelas publicações. ;)

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