Por que brasileiro não lê e-book?

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(ou “Uma humilde resposta sem banda tocando ao fundo à pergunta da Cindy*)

Cindy pergunta: "Por que brasileiro não lê e-book?"

Já ouvi essa pergunta um milhão de vezes. Dentro da faculdade, dentro das empresas e vinda de amigos que investem no digital. E já ouvi meia dúzia de respostas, umas muito boas, outras nem tanto, mas com certeza me ajudaram a formar minha perspectiva. Esses são meus dois trocados para a discussão:

Acho que, mais que consumir o conteúdo, nós consumimos o objeto livro (ou mensagem e meio, se você estiver com saudade de McLuhan). Para o leitor brasileiro, tão importante quanto ler um livro é ter um livro. Gostamos de exibir nossos volumes e de orelhar os dos outros no transporte público, mostrar como marcamos as páginas (ou como somos capazes de manter o livro como novo), acumular dezenas de não lidos, pensar em como eles ficarão na casa. Esse último ponto é especialmente sensível para mim: sempre tenho calafrios quando reparo que estou numa casa que não tem qualquer livro visível. Mas precisamos convir que isso é uma bobagem imensa e que não faz qualquer sentido.

É possível que esse fetiche pelo livro em exibição seja um reflexo do período imenso em que letramento foi um luxo em nosso país, e o gosto pelas letras considerado um inegável traço de inteligência e sensibilidade superiores. Não é de se admirar que em novelas de época os poderosos cultos sempre tenham uma biblioteca particular em casa, cheia de volumes encadernados em capa dura. O que me faz pensar que talvez em nosso país seja tão difícil dissociar o conteúdo do livro de sua forma pelo fato de que dois meios de consumo mais comuns (mesmo que não estejam em destaque agora) em outros países nunca tenham se popularizado muito por aqui: as bibliotecas públicas e os paperbacks, aqueles livros super econômicos feitos com papel jornal.

Geralmente o hábito de usar bibliotecas para encontrar leituras fica restrito ao período escolar e acadêmico. Não lembro qual foi a última vez que ouvi um adulto comentar que pegou um livro por livre e espontânea vontade na biblioteca pública e precisa devolvê-lo. Confesso que não sei o que é: será que as bibliotecas são ambientes tão inóspitos que criamos resistência a elas? Será que suas localizações são tão ruins que é mais fácil encomendar pela internet? Ou será que não gostamos de ler um livro e devolvê-lo depois? Não duvido que seja uma soma esquisita dos três, mas manter o volume em casa é uma forma de deixar evidente que aquele conteúdo faz parte de você. Que você não só é letrado, mas se distingue porque aquelas obras expostas na prateleira foram consumidas por você (nem sempre, mas dá um desconto porque você entendeu o argumento). Para o leitor brasileiro, manter uma biblioteca particular é muito interessante porque agrega status.

E os paperbacks? Não dá para comparar nada que temos no nosso mercado com eles, porque até nossos livros de bolso são lindos e buscam certo padrão de qualidade. Isso retorna a questão do armazenamento: no Brasil, não se produz/adquire um livro impresso pensando que as folhas podem amarelar rápido e que a capa não precisa ser lá tão resistente. Livros são feitos para serem guardados. Se possível, herdados. Não é incomum ouvir um “morro de ciúmes dos meus livros!”, ou ver caretas de reprovação ao se sugerir um livro impresso em papel jornal (tanto no lado dos editores quanto no dos leitores). Na verdade, nem é preciso procurar muito para ver leitores revoltados com o uso de papel off-set, como se apenas o off-white fosse um sinal de qualidade gráfica. Na cultura letrada brasileira, não parece fazer sentido um livro que não vá durar na estante.

Assim, como podemos esperar que esse mesmo leitor abra mão da materialidade do seu livro e adquira um e-book? É claro, isso é uma generalização em muitos sentidos: há leitores vorazes que compram tanto impressos quanto eletrônicos, há cidades inteiras que só têm acesso a livros em bibliotecas, há leitores abnegados que leem e passam adiante, e há pessoas que não dão a mínima para a leitura, independente da plataforma. Mas sou levada a acreditar pela observação que é mais ou menos assim que se comporta o leitor médio (aquele que fica na média de leitura anual do brasileiro, uns 3 ou 4 livros por ano).

Mas há um bom exemplo de quando a dissociação do conteúdo e do objeto acontece: com o gênero erótico. Há quem teorize que o e-book vende mais porque as mulheres têm vergonha de serem vistas com esse tipo de livro. Honestamente, com a quantidade de Cinquenta tons e similares que andei vendo no transporte público nos últimos anos, acho essa teoria meio furada. Parece que a questão está mais próxima do fato dessa ser uma obra na qual se busca apenas o conteúdo, o objeto é irrelevante. Ninguém compra um livro desses esperando que uma visita, batendo o olho na estante da sua casa, declare: “Nossa, também amo esse livro! Me identifiquei tanto com a cena do absorvente…” Além de um comentário muito esquisito, fica claro que o livro erótico é consumido, por vezes discutido, e no geral “deixado de lado”, afinal, já cumpriu seu papel por ter sido lido. Ironicamente, não há muito fetiche pelo objeto/livro erótico.

(Fugindo um pouco do assunto: SIM, querido leitor de “literatura de verdade”, você tem o que aprender com o leitor de livros eróticos! Aquele monte de livros pegando poeira na sua prateleira e que nunca mais serão lidos são um imenso desperdício de dinheiro e espaço. Bote os benditos para circular e procure uma biblioteca ou um e-book da próxima vez que você quiser ler algo “só de curiosidade”.)

Uma ressalva: estou excluindo o clássico argumento “porque e-book é caro!” pelo simples fato de que esse é o mesmo motivo apresentado por muitas pessoas que não leem nem o impresso. No entanto, sabemos que “caro” é uma questão de perspectiva. Eu, por exemplo, acho que qualquer R$50 é muito caro para um salto alto de bico fino que vai destruir meu pé, embora entenda que essa quantia dificilmente cobre os custos de um produto de qualidade. É muito mais vinculado ao valor que agregamos ao produto.

Enfim, acredito que falta consciência sobre a questão da leitura. Não só precisamos aumentar o volume de leitura no nosso país, mas principalmente precisamos mudar a forma como essa atividade é encarada. Comprar um exemplar impresso não é a única forma de ler, nem uma biblioteca particular é um sinal de ilustração. O letramento é percebido e validado pela postura que o leitor adquire após ser impactado por um texto, e não por um conjunto de objetos.

* Explico: rolou uma social do pessoal que trabalha com livros eletrônicos em Niterói. A única foto da noite, cortesia da Camila Cabete, ilustra o post.

[edição 30/11/15] Quase esqueci de comentar aqui: a própria Cindy levou a discussão pra outro nível, já conferiram?

escrito por Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

24 comentários sobre “Por que brasileiro não lê e-book?

  1. concordo com você sobre essas questões de não ter biblioteca bem localizada e falta opção, mas percebi uma certa tendencia sobre e-books: quanto “menos importante” é o conteudo e o autor, maiores as chances de vender ebook. Li 90% dos meus young adults assim, só compro livros fisicos de quem gosto muito, tipo a Kinsella. Mas livro de reportagem. Monografia e etc, nem cogito comprar digital.

    • Pois é… É justamente esse o vínculo: o livro não cumpre sua função ao ser lido, ele também precisa mostrar-se como uma prova física. Se ele é relacionado a algo que você não se importa tanto, não precisa do volume na estante para comprovar sua relação com ele. Algumas pessoas (como você) já estão nessa lógica. Mas muita gente ainda acha que uma estante entulhada (mesmo cheia de coisas não lidas) é o que realmente importa.

      Mas sério que você não gosta de não ficção no digital? Eu amo! Minha limitação (fora os livros de estimação, claro) é outra: se passar de 350, 400 páginas, perco completamente o referencial de volume lido e acabo ficando desmotivada, sinto que a leitura não acaba nunca.

      • Sim, mas é quase pela forma de encarar esse tipo de texto mesmo, e essa coisa de ser mais importante, logo levar para o papel. Eu engulo livros de ficção porque eu vivo mesmo a vibe eu-preciso-saber-o-que-acontece. Em não ficção, a leitura é outra, mais pausada, contemplativa e eu preciso do papel (e realmente, não conseguir “volumar” quanto se leu deve ser super incomodo).

  2. Oi Mariana, gostei muito do seu ponto de vista sobre o tema. Além do que foi discutido, eu acrescento que o livro digital ainda tem muito no que crescer, em relação à buscar uma identidade própria, que fuja da cultura do impresso. Odeio ler livros digitais que tem o recurso de “folhear páginas”, isso não me parece ser diferencial nenhum. Se eu quiser passar páginas, compraria um impresso. O digital tem muitas potencialidade que deveriam ser melhor exploradas. E isso não quer dizer aplicar um monte de interações sem planejamento. Infelizmente, sei que fica caro investir em tecnologia para desenvolver e-books melhor pensados, mas acho que esse é o caminho para motivar mais as pessoas a comprarem livros digitais.

  3. Mariana, sou o tipo de leitora que compra livros, empresta na biblioteca e, recentemente, me rendi aos e-books, ou seja, consumo de tudo, e sinto uma falta imensa de paperbacks no Brasil, o que ia aliviar bastante meu bolso. Os e-books entraram na minha vida há, mais ou menos, uns dois meses, eu queria um livro que não tinha no Brasil, na Amazon era muito caro, daí vi que tinha o e-book com um valor 70% menor, comprei, li, me adaptei ao formato e de lá pra cá já comprei mais uns 10 (a Amazon se tornou uma fator de desestabilização na minha vida financeira, hahahaha), mas quando falo que estou lendo e-book o povo cai de pau. Preconceitos Mariana, demora para serem quebrados.

  4. Vou “semi-discordar” da senhora em um ponto: preço.
    Porque existem alguns e-books que, na comparação com o equivalente de papel, são “caros”, já que cobram um valor alto e não agregam tanto valor assim.
    Uma vez vi por R$ 35 o e-book de um livro que tinha saído há uns cinco anos. Só sentando numa social com pessoas do mercado digital (sem ironia nem sarcasmo no meu comentário) pra eu conseguir entender essa precificação.
    Excelente texto =)

    • Alyne, você será muitíssimo bem-vinda numa próxima social, mas dá pra pensar em uma resposta por aqui mesmo.

      Pode ser por um motivo muito simples: o livro não se pagou nesses 5 anos e o editor, desesperado, quer tentar compensar agora. Também tem uma ~~corrente de pensamento~~ que acredita que e-books devem ser mais caros que impressos. Já temos um post sobre preços aqui no Colofão, mas se sua questão for outra, é só falar que a gente tenta responder.

      E obrigada! :D

  5. Olá, Mariana. Gostei do seu artigo. Não sou o tipo de leitor que você exemplifica, mas entendo que boa parte do mercado funcione assim.
    Como você comentou que gosta de saber dos hábitos de leitura alheios… Segue:
    Hoje só compro exemplares de HQs, livros infantis, livros para presentear e/ou que eu pretenda pegar um autógrafo.
    Há cerca de 2 anos instalei apps e-readers no meu celular e desde então praticamente não li mais físicos. Kindle, UB-reader e Play Livros (Google) satisfazem minhas necessidades. De romances a contos em revistas digitais, leio tudo sempre no digital. Apenas não me adaptei para HQs, mas talvez por não ter encontrado uma boa plataforma.
    O celular + app e-reader também potencializou minha capacidade de leitura. Apesar de eu habitualmente ter um livro à mão, agora leio ainda mais. Qualquer tipo de espera, como fila, dentista, transporte público, se transformou em momento de leitura.
    Ah, tenho 39 anos, isso também é relevante, mostra que realmente houve uma adaptação à tecnologia, já que venho duma época off-line.

    Não conhecia o site de vocês, vou dar uma passeada por aqui. Parabéns pelo artigo.
    Abs. Jonas Daggadol.

    • Oi, Jonas! Obrigada pelo feedback! :)

      Confesso que não acompanho muito HQs, mas um amigo comentou do Comixology, embora a gente não saiba se está disponível no Brasil. Você conhece esse serviço? Já testou?

  6. Olá!

    Adorei seu texto!

    Eu aderi ao Kindle há dois anos, por questão de necessidade. Para quem lê mais de 200 livros por ano, comprá-los todos em versão impressa fica inviável. Onde eu coloco? Como eu carrego tudo isso quando for viajar? O Kindle também tem a vantagem de não acumular pó rs.A praticidade de carregar 400 livros na bolsa também pesa, para mim. Tem autores que eu compro cópias impressas, mas, hoje, 95% do que eu leio é digital.

    • Oi, Tatiana! Obrigada por compartilhar sua experiência! :)
      Que média de leitura incrível, estou com inveja! Ou seja, você compra o impresso só para alguns autores favoritos, certo?

  7. Mariana, sou escritora e publico independente, em ebook e papel. Quando comecei a publicar em ebook eu ainda não era uma leitora convicta do eletrônico, mas o nascimento do meu filho mo tornou, pois era mais prático continuar lendo no celular, que eu já levava pra lá e pra cá na casa, no quarto do bebê e até quando ele mamava. Só consegui manter uma boa média de leitura depois do bebê por causa do livro eletrônico.

    Um outro aspecto que mudou bastante minha relação com os livros foi um curso de fiz em Paris em 2012 quando, na última semana do curso, a professora levou livros pra nós. Muitos alunos perguntaram “mas como podemos levar seus livros? o curso está acabando e não teremos como devolver”. E ela respondeu “pra que eu quero esses livros? eu já li”. Fiquei chocada. Saí olhando aquelas banquinhas que vendiam livros a 1 euro ou até 50 centîmes e concluí que livros tão baratos só podiam ter sido doados, não tinha como o vendedor ter comprado e estar vendendo tão barato. Aprendi um novo senso de desprendimento do objeto livro, e desde então eu deixo livros pela cidade pelo menos uma vez por ano. Quero guardar só os que ainda não li e os que eu gosto de reler. É uma reeducação, mas tá sendo bem legal.

    Como escritora, é bem frustrante. Tirando as ocasiões em que faço promoções gratuitas na Amazon, o ebook vende pouco, mesmo entre amigos e parentes. Com filho pequeno, publicar ebook foi uma solução prática e fácil, mas sinto que não atinjo meus objetivos assim. Comecei a publicar no Clube de Autores mais para poder ter os impressos para aqueles amigos e parentes totalmente resistentes ao ebook. E mesmo sendo uma diferença de preço absurda (o meu livro que tem mais saída é “Catarina”, que sai por R$42 impresso e R$5,99 no ebook) muita gente continua preferindo o papel. Mas toda essa gente tem Whatsapp e Facebook no celular, né? Vai entender, né?..

  8. Olá, trabalho no mercado editorial e participei recentemente de uma mesa redonda no curso de história da PUC-PR onde falei sobre este tema, e concordo com você em vários aspectos. A impressão que tenho é que, na média, o leitor brasileiro lê o e-book se ele conseguir esse e-book gratuitamente, mas a partir do momento que ele precisa pagar pelo conteúdo, ele prefere o físico, pra depois manter na estante e então entra todo o cenário que você explicou bem.

    Abraço.

    Marlos.

    • Oi, Marlos, tudo bem?

      Tenho a mesma percepção na questão do gratuito, e acontece a mesma coisa na área audiovisual. Só que, nesse caso, a pessoa costuma pagar pelo conteúdo em um serviço de assinatura, como o Netflix ou o Spotify… E aí entramos na questão das assinaturas de e-books. Confesso que ainda não tenho uma opinião formada sobre o assunto. Vamos ver como a coisa toda vai evoluir.

      Abraços!

  9. Olá, desculpe comentar em tópico antigo, mas é o que o Google me trouxe rsrs.
    Eu não leio muito, porem vi o Kindle de um amigo e gostei, pensei em comprar um. Porém esbarrei em um problema que considero grave se comparado ao livro impresso: Monopólio! O que quero dizer, é que leio unicamente em português! A Saraiva tem um acervo maior em nossa lingua, porém se compro dela, terei que ler no Lev pois não rola no Kindle e vice versa. Já no impresso se não acha em uma loja, compra na outra e fim, fica feliz e lê seu livro. Ainda estou analisando se vale mesmo a pena comprar um E-Reader devido a limitação que citei, tenho medo sim de comprar Kindle porém só achar o livro que desejo na Saraiva ou Cultura e não poder ler. Não consigo ler em celular pois os olhos começam a doer, porém, como adotar a modernidade se ela é limitada? Talvez esse seja um motivo de menos leitura digital, a limitação empregada.

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