O fim de um tipo de livraria

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Pesquisando textos sobre o fim da Livraria Leonardo da Vinci¹, encontrei uma constante referência aos famosos livros de colorir e/ou de autoajuda.  A opinião geral parece acreditar que o fim das livrarias no Rio de Janeiro se dá em função da má formação literária do público que investe em livros “fáceis” e desconhece a verdadeira literatura. Uma constatação elitista que tem como fundamento uma nostalgia ilógica. É terrivelmente fácil condenar as escolhas literárias do público popular quando isso serve apenas para afirmar uma superioridade, ao mesmo tempo em que se protege de uma provável responsabilidade.  Afinal, o que mudou dos tempos áureos da Leonardo da Vinci até a presente crise não é o tamanho ou a qualidade de seu público – que desde o início é limitado –, mas o modo como este escolhe consumir.

A intelectualidade carioca não está em decadência – ou talvez, sempre esteve –, se encontra firme e forte no estreito eixo Centro – Zona Sul. Todo mundo se conhece e não é a cidade que é pequena, e sim a classe social.  Esse nicho, evidentemente, não abandona as livrarias – e as redes sociais cobertas de fotos e relatos lamentando o fim da Leonardo da Vinci são a prova disso –, ele circula entre as estantes rememorando seus passeios e histórias. A devoção a esses ambientes é tão singela que quase sempre se esquece que livrarias são lojas. A culpa pode ser do Caetano que inventou cantar que livros são objetos transcendentes. O fato é que a Leonardo da Vinci dedicou sua história a um público que a ama sem consideração. Ainda que o local guarde nossas memórias íntimas e coletivas, nós vamos investir o curto dinheiro de nossas bolsas CNPQ em ofertas espalhadas pela internet. Não existe lealdade no livre mercado – e a recente polêmica envolvendo os taxistas e a Uber explicita essa verdade.

A própria dona da Leonardo da Vinci, Milena Duchiade, declarou ao jornal O Globo que a livraria está sendo punida pelas suas qualidades, isto é, por ter se mantido fiel ao seu nicho. Talvez seja a hora de esquecer a suposta Literatura de Verdade e retomar o gosto pela leitura, seja ela qual for. Há um motivo mais sórdido: livrarias não são bibliotecas, são negócios. E o outro mais sonhador – porque, sim, livrarias são empresas que vendem um produto que transcende a mera coisa e carrega um pouco de sonho: qualquer livro pode ser uma ponte, um veículo de comunicação, que forma um primeiro leitor. Selecionar o público é, em qualquer caso, reduzir as possibilidades.

Valter Hugo Mãe recentemente esteve em uma roda de conversa na Biblioteca Parque Estadual e disse que ganhou seu primeiro livro aos dez anos. Não existiam livros em sua casa até o dia em que passou por uma livraria e pediu para que sua mãe lhe desse um. Esse foi o início de uma história que agora se embola em livros traduzidos para diversas línguas que podem chegar até o Brasil ou a Tóquio. Acredito que é por isso que investimos, compramos e trabalhamos em volta desses objetos feitos de palavras, porque eles nos prometem alguma comunicação infinita.

 


1. Alguns links relacionados: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2015/06/a-livraria-leonardo-da-vinci-as-cores.html
http://www.blogdoims.com.br/ims/mercado-editorial-e-rio-virtual-fecharam-a-leonardo-da-vinci
http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/simbolo-do-rio-civilizado-a-livraria-leonardo-da-vinci-vai-fechar-as-portas-36776/

escrito por Taís Bravo

Taís Bravo

Taís tem 25 anos e passa os dia entre livros. Trabalhou como livreira na Livraria Argumento. Atualmente, escreve para as revistas Capitolina e Ovelha, estuda tradução e é colaboradora da editora Alpaca.

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