Os universos do projeto gráfico e da diagramação em tempos digitais

Baixe como e-book

Nós, profissionais da área, enfrentamos uma mudança de paradigma no mercado editorial: é possível adaptar-se à chegada dos e-books, ou será preciso se reinventar, renascer das cinzas?

A pergunta envolve muitos detalhes de eras totalmente diferentes. Na época em que só contávamos com os livros impressos, pensar o projeto e a diagramação era tarefa que envolvia o trabalho com uma medida definida, uma quantidade fechada de páginas. Não havia elementos como vídeos, sons, animações ou links agregados ao trabalho. O texto começava e terminava onde determinássemos. O tamanho da letra era o previamente definido; a figura inserida num lindo recorte no meio do texto ficava ali para todo o sempre, segura, definitiva, abraçada por uma criação imutável no livro saído da gráfica.

Até que a morte nos separe…

Muito mudou. A indústria editorial digital está apenas engatinhando, mas o caminho é promissor. Os softwares ainda estão evoluindo. O nascimento de um projeto gráfico e da diagramação não surge com uma página determinada, pelo menos não nos trabalhos de texto fluido, diferentes dos layouts fixos, bastante utilizados em livros infantis, por exemplo. 

O profissional começa mentalmente com uma página como um papiro que vai se desenrolando, porque a medida, na verdade, será delimitada pelo dispositivo utilizado pelo leitor: computador, smartphone, tablet. E o texto se adapta, flui de acordo.

Nós, da época dos livros impressos, gostamos de recortes de texto, figuras encaixadas do nada no meio de um parágrafo, que precisam ficar ali para ilustrar algum conceito pertinente àquele texto.

Elementos rebaixados no fundo, entre tantos outros recursos que tirávamos da cartola para criar toda uma identidade visual, prezando a leveza e os detalhes, mudaram neste universo digital. E tudo está se reinventando.

A beleza passou a ser a possibilidade de clicar sobre uma palavra e consultar seu significado; a praticidade de ler em qualquer lugar, levar toda uma biblioteca dentro de um celular e devorar um livro delicioso dentro do metrô, ali, na tela. 

Sem falar nas maravilhas de abrir um e-book e encontrar um vídeo e mil links interessantes sobre o assunto. Sem entrega, sem espera. Comprou, baixou.

Ganhamos agilidade, facilidade, alcançando o mundo num clique. Com certeza, os softwares evoluirão rapidamente e serão capazes de maravilhas ainda mais impressionantes.

Nesta nossa nova realidade editorial, o mundo é o mundo mesmo, inteiro, num toque. Um clique vale por uma viagem. De Machado de Assis a Balzac, passando por Antoine de Saint Exupéry, Leminsky ou Umberto Eco, dando uma paradinha para encantar-se com Gabriel García Marquez e bater um papo com os heterônimos de Fernando Pessoa. E, por que não, dando uma olhadela numa saborosa receita de torta fácil, clicando sobre os ingredientes para saber onde comprá-los.

Existem ocasiões para livros impressos, como os de arte. Sim, e o cheiro delicioso da tinta sobre o papel, o barulho das páginas virando, a suavidade da lombada. Mas no nosso planeta carente de recursos, o papel é, cada vez mais, artigo de luxo.

O que verdadeiramente importa é o conteúdo ser devorado por olhos apaixonados. Se eles estiverem fitando a tela de um celular, emocionados com um poema de Neruda, o objetivo terá sido alcançado. E se nós, como profissionais da área, conseguirmos entregar um livro bonito, claro, organizado, fácil de manipular, ah, então, será o paraíso! 

Acreditem, é possível criar belíssimos trabalhos digitais!

Estamos passando por um processo de reinvenção de nós mesmos. 

Queremos adaptar as obras, mas nós é que precisamos nos adaptar. Devemos pensar nossos filhos-livros como e-books desde a sua concepção mais embrionária, com todos os recursos de que dispomos.

Somos a ponte para o futuro. Vamos a ele!

 

escrito por Laura Gillon

Laura Gillon

Diretora de arte – O Fiel Carteiro – Editora 100% digital
Apaixonada por letras em quaisquer formas que criem harmonia e passem o recado: contos, poesias, crônicas, torpedos, declaraçōes de amor em guardanapos de botecos baratos feitas no meio da madrugada…
Tem uma pequena agência de publicidade, a G-Com, que ela descreve como “uma filha de 20 anos”. Trabalha na área editorial também há 20 anos e como todos, bate os dedos na mesa diante do computador, fala sozinha… decidindo, reaprendendo a trabalhar. Tornando o desafio uma conquista digital.

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