Booktrap: e-book não é menos livro por ser digital

Baixe como e-book

Outro dia, conversava com uma colega de trabalho e ela me perguntou se eu conhecia uma start-up chamada Booktrack, que desenvolveu um app multiplataforma de leitura de e-books enriquecidos com trilhas sonoras. Eu respondi que sim, que achava que funcionava especialmente para livros de suspenses e que, por alguma razão misteriosa, eu sempre chamava a empresa de Booktrap.

Piadinhas à parte, a conversa nos levou a um post no Ebooknews, no qual havia uma declaração de seu fundador, Paul Cameron, que pode se dizer no mínimo polêmica. Para poupar o leitor da navegação dos hyperlinks (e também para “causar”), reproduzo aqui a citação:

Há muitos e-books acumulando poeira virtual em prateleiras digitais. Somos capazes de fazer a geração Xbox, Netflix e Spotify se interessar pela leitura novamente ao pareá-la com outra forma de entretenimento.

booktrap

imagem retirada do vídeo promocional da Booktrack

Essa afirmação tem tantos problemas que não sei nem como começar a comentá-la, mas vamos lá.

Entendo que o sujeito está, como dizem, “vendendo seu próprio peixe” e entendo que este tipo de aplicativo tem mercado. Na verdade, sou uma grande entusiasta tecnológica e adoraria ver mais iniciativas similares, mas a verdade é: aplicativos como este são muito mais interessantes para aqueles que não estão acostumados à leitura, como a própria afirmação de Cameron já indica. Leitores de e-books – e quando falo de e-books aqui, quero dizer e-books de texto, sem interatividade, animação, vídeo etc. – são geralmente leitores categorizados como hard readers. Eles leem livros físicos, leem e-books, leem o que for conteúdo interessante, independente do formato. E aí é que está, o conteúdo não se tornará interessante porque tem um recurso multimídia. Eles querem a história, o resto é lucro.

Então identificamos o primeiro problema: Booktrack não tem como público-alvo o mesmo público que editoras e distribuidoras de livros digitais. Vamos para o próximo?

A comparação com os públicos do Xbox, Netflix e Spotify traz uma ilusão de que consumidor de determinado produto digital necessariamente se interessaria pelos demais. Bom, não é por aí. Para começar, 2 dos 3 serviços citados possuem mais tempo no mercado do que livros digitais, dando tempo para trabalhar preconceitos. Por exemplo, o estranhamento mediante contratação de TV por assinatura via Internet é algo que foi bastante minimizado pela inserção de TV via satélite e cabo, apesar de ainda se lutar muito contra receios de fraude e roubo de informações.

Já no caso do Spotify, temos todo um histórico de mudança de comportamento desde o lançamento do iPod. E o universo dos games, por sua vez, teve que se adequar à tendência das mídias armazenadas em nuvem, e a própria Microsoft, produtora do Xbox, sofreu represália no lançamento do Xbox One, rendendo esse maravilhoso vídeo da Sony, produtora do concorrente PlayStation 4.

Falando de games, acho que também não tem como não tocar na comparação entre games e e-books. Este assunto não é novo, mas aparentemente ainda é tudo muito nebuloso. Há quem diga que e-book necessita de algum recurso a mais para fazer sentido existir e há quem diga que o livro digital já é digital o bastante. Pessoalmente, eu acho que existe público para os dois produtos e acho que o leitor de um não necessariamente será o leitor do outro. Também acho que não foi com base nos famosos enhanced e-books que o mercado cresceu, tendo em vista que estes ainda são os casos especiais e não o produto padrão.

O grande problema com este tipo de afirmativa como a de Paul Cameron, no fim das contas, é justamente este: há subentendida uma falsa noção de que um livro é mais aplicativo e menos livro por ser digital. Como se o formato conseguisse tirar do produto sua essência. Fosse o caso, acho que nem essa discussão teria sentido.

escrito por Lúcia Reis

Lúcia Reis

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense e é pós-graduanda em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalha com conteúdo digital desde 2009 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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